Por Adriana Cotias — De São Paulo
02/08/2022 05h03 Atualizado há 5 horas
O susto do brasileiro com o desempenho da parcela da carteira alocada no exterior está longe de enfraquecer a tese da diversificação internacional, segundo executivos do private bank suíço Lombard Odier. Percepção semelhante tem representante da Nova Futura, que costurou acordo com o também suíço Vontobel para oferecer carteiras customizadas para alocação fora do Brasil, na primeira incursão do grupo de gestão de fortunas no varejo de alta renda.
São nomes que ingressaram no país quando a política monetária já fazia a sua inversão rumo aos dois dígitos no Brasil, com a Selic saindo de 2% no início de 2021 para os 13,25% atuais.
Esse choque de juros (e de realidade) foi percebido nas carteiras que investem mais de 67% do patrimônio no exterior. Com o cenário internacional bagunçado e temor de recessão global em meio à alta de juros em economias desenvolvidas, como a dos Estados Unidos, esses fundos encolheram de R$ 70,2 bilhões para R$ 40,2 bilhões de dezembro para cá, afetados pela má performance dos ativos internacionais, pelo efeito do câmbio e por resgates de R$ 18,3 bilhões no semestre. Os dados são da Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos.
Quando o Lombard Odier pavimentou o plano de ter um escritório no Brasil, na virada de 2021 para 2022, havia um fluxo crescente de recursos para classes alternativas, incluindo ativos estrangeiros, num ambiente de juros muito baixos, com a Selic a 2%. Agora, mesmo com a escalada da taxa básica, a percepção é que o público mais endinheirado está consciente da importância de distribuir seu patrimônio em diferentes moedas e geografias.
“A história da diversificação internacional tem a ver com a diversificação do risco, de buscar oportunidades diferentes das oferecidas no Brasil, essa é uma conversa que afasta a questão do preço de dólar e de juros, tem a ver com a diversificação de fato em novos mercados, a fim de diminuir o risco”, diz Mariela Assumpção Gontijo, a head da Lombard Odier no Brasil. “É claro que tem o dilema do investidor ‘será que vou para fora e não vou correr mais risco?’ Mas quanto mais diversificação de moeda e região, melhor para a carteira.”
É esse tipo de lógica que tem embasado as conversas com os investidores desde que a executiva se uniu ao projeto há pouco mais de um ano. Marc Braendlin, head para América Latina, acrescenta que a internacionalização do brasileiro aumentou, na média, quando se olha para 10, 15 anos atrás, especialmente entre o público mais sofisticado do private banking, que entende que a alocação eficiente precisa de estruturas de investimentos internacionais. “O Brasil é grande, mas o mercado de capitais versus o internacional é muito pequeno, há mais interesse do cliente ter recursos fora, tem a ideia de que pode mudar um dia de residência e a regulação também mudou nos últimos cinco anos, trazendo mais flexibilidade”, diz. “O nosso dever é prover bons serviços e ideias de investimentos.”
Quando chegou, Gontijo afirma que foi como embarcar numa “startup”, colocando as peças em ordem progressivamente, além de ajudar no trabalho de tornar a marca conhecida no Brasil. O grupo tem 226 anos, é um banco de capital fechado que está na sua sétima geração e que reunia ao fim de 2021 358 bilhões de francos suíços (o equivalente a US$ 367 bilhões).
Num mercado superdisputado, Braendlin diz que o fato de fazer só gestão de riqueza e não ter varejo ou área de banco de investimentos em nenhum lugar do mundo converte-se numa vantagem competitiva, sem desviar esforços para nada além da eficiência da carteira do investidor transfronteira. O foco são indivíduos e famílias com patrimônio entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões.
No Vontobel, a experiência mais massificada de gestão de patrimônio com a Nova Futura, no Volt Vontobel, abre portas para fazer uma poupança em moeda forte com valores relativamente baixos. “O cliente, quando entende o que é o serviço, abre a conta e pode mandar US$ 100, US$ 500, US$ 1 mil numa conta no exterior. Há grande interesse em ter a proteção do patrimônio e não deixar dinheiro no colchão”, diz André Ferreira, sócio-diretor da Nova Futura.
Ele afirma que a recomendação é colocar entre 10% e 30% dos recursos financeiros na conta internacional. A partir do momento que soma uma reserva de US$ 5 mil, a gestão automatizada dispara a distribuição dos ativos, em produtos que se espalham de Xangai à Colômbia.
“A Nova Futura e o Vontobel seguem muito confiantes no Brasil, acreditam que o país ainda está avançando na parte de investimentos”, afirma Ferreira. “A grande participação continua nos grandes bancos.”
E no movimento de polarização XP e BTG Pactual pelo movimento de desbancarização, sobra espaço para outros, avalia. “Não vão ser duas casas que vão dominar o mercado inteiro. Há espaço para butiques, na filosofia do Vontobel, com atendimento digital e humano também, o cliente não é maduro suficiente para ir sozinho.”
Fonte: Valor Econômico
