Por Adriana Cotias — De São Paulo
02/08/2022 05h03 Atualizado há uma hora
Grupos estrangeiros tradicionais já entraram e saíram do mercado de investimentos no Brasil. Em meio à força de grandes conglomerados financeiros, alguns negócios tentam resistir à dominância local. Se o voo solo não parece possível, vale o mote do “junte-se a eles”, caso do italiano Azimut, que costurou dois acordos com a XP, e o espanhol Andbank, que se uniu à Creditas numa transação que deve resultar em participações minoritárias cruzadas, ao mesmo tempo em que vendeu a sua licença bancária para a empresa de tecnologia financeira.
Em paralelo, buscam ganhar a atenção do brasileiro para ativos no exterior os suíços de private banking Lombard Odier e Vontobel, numa atuação distinta de grupos estrangeiros já consolidados aqui, caso de Credit Suisse, UBS Consenso ou Julius Baer Family Office.
As instituições que ainda buscam ganhar tamanho, desembarcaram no país em momentos diferentes, do ponto de vista concorrencial, da conjuntura e do mercado. Mas em comum, semeiam o discurso de que estão aqui para o longo prazo, não importando os vaivéns da economia brasileira ou os juros de volta aos dois dígitos favorecendo a renda fixa e uma certa acomodação do investidor nos grandes conglomerados de varejo.
Na contramão, o BNP Paribas recentemente anunciou sua saída do negócio de gestão de fortunas no país, transferindo suas operações para o Bradesco. O J.P. Morgan já tinha feito esse movimento com o seu private, também com o banco, e em gestão de fundos locais passou as suas carteiras para o Santander. Em contrapartida, o conglomerado americano fechou a aquisição de 40% do C6, fazendo sua incursão no varejo bancário brasileiro.
A Azimut chegou ao Brasil em 2013, passou pelos mandatos da ex-presidente Dilma Rousseff, pelo impeachment e a passagem do bastão para Michel Temer, a balançada do mandato com o “Joesley Day”, a queda e a alta dos juros, além da pandemia de covid-19, lista Giuseppe Perrucci, CEO da operação local.
“Nossa visão é de longo prazo, tudo isso é barulho, impacta na execução e no crescimento de forma temporária, mas o Brasil continua sendo um mercado estratégico para o grupo que está em 18 países. Em termos de dimensão e potencial, está junto com os Estados Unidos e a Austrália”, diz.
O executivo afirma que o fato de o Brasil ter um mercado amplo, há margem para se ganhar participação dos principais competidores em diversas regiões, porque eles “ficaram muito grandes por questões regulatórias e não pela qualidade da entrega de produtos e serviços, há uma ineficiência a ser explorada na parte de distribuição”.
Mas depois de construir sua presença local por meio de aquisições, como das gestoras de recursos Legan (2013) e Quest (2015) e a área de fortunas da BRZ (2016) – controlada pela GP -, a Azimut fez dois movimentos opostos recentemente. Em outubro do ano passado, vendeu 10% da AZ Quest para a XP, e em março selou um acordo que pode levar a plataforma de investimentos a ficar com parcela de 20% do capital da empresa de gestão de riqueza.
“Quando a Azimut fez a primeira joint venture na AZ Quest, em 2015, a gestora tinha pouco menos de R$ 2 bilhões e chegamos a R$ 20 bilhões. A parceria com a XP vai nos permitir atingir um patamar de R$ 50, R$ 60 bilhões, estamos mudando de campeonato”, diz Perrucci. “É uma forma de ter participação no Brasil mais relevante, longe de qualquer ideia de estar saindo, vendendo a operação.”
Na área de fortunas, a associação está mais ligada ao uso de tecnologia, se valendo da infraestrutura da XP sob o modelo de “wealth as a service”, usando a retaguarda operacional, o que o executivo espera ser um empurrão para a operação estacionada em R$ 8 bilhões há alguns anos.
Sua meta é alcançar os R$ 20 bilhões nessa vertical, combinando soluções bancárias que passaram a integrar a oferta da XP. Em cinco anos, a XP pode assumir a fatia minoritária da Azimut Brasil Wealth Management. “Se eles vão nos ajudar a ser maiores, nada mais natural do que dar uma opção de participarem do negócio, de uma estrutura que vai ser mais eficiente”, diz Perrucci. “A plataforma operacional deles vai nos permitir ter uma máquina mais leve e focar no comercial, sem mudar a natureza do que fazemos.”
Esses acordos abrem portas para conversar sobre o destino de outro negócio, a Consulenza Investimentos, gestora de riqueza digital com foco no público de varejo. A primeira iniciativa no mercado de distribuição da Azimut globalmente estreou bem no início da pandemia, e tem menos de R$ 100 milhões.
“Obviamente não é o que faz sentido. Sendo um business de varejo, teria que ter volumes mais relevantes”, diz Perrucci. “Estamos estudando com a XP uma forma de operacionalizá-la com a tecnologia XP e ter essa plataforma mais automatizada para efetivamente ter números maiores.”
No Andbank, a licença bancária foi vendida para a Creditas em uma operação avaliada em R$ 500 milhões. Ao mesmo tempo, o grupo secular de Andorra liderou a extensão de uma rodada de captação de US$ 50 milhões na empresa de tecnologia financeira por meio de um fundo dedicado ao setor em Luxemburgo, e que busca teses na Europa e na América Latina.
“Para fazer private banking e wealth não precisava dessa autorização, só a de DTVM [que o Andbank já possuía] resolve, não faço conta corrente, crédito comercial, meio de pagamento, era uma mochila pesada que carregava para fazer pouca coisa”, diz Carlos Foz Neto, CEO do Andbank no Brasil. O que precisar fazer de crédito, terá na Creditas o seu parceiro estratégico.
A transação também envolveu a emissão de um título conversível de US$ 150 milhões pela Creditas, subscrito pelo Andbank e outros credores. O instrumento que dá o direito a uma participação futura está vinculado a um evento de liquidez da companhia de tecnologia financeira, que pode ser uma oferta pública inicial de ações (IPO) ou uma operação de fusão e aquisição. A Creditas, por seu lado, também pode ter uma fatia minoritária no Andbank em 12 meses.
Em paralelo, a subsidiária do Andbank no Brasil recebeu um aumento de capital de R$ 200 milhões para seguir o seu plano de expansão, conta Foz Neto, pensando em cinco, dez anos à frente. Uma primeira meta é alcançar os R$ 30 bilhões, dos R$ 8 bilhões atuais. Ele diz que há conversas com duas butiques de investimentos independentes, em fase adiantada, que podem acrescentar R$ 5 bilhões à operação se o negócio vingar.
“A primeira lição foi cuidar da estrutura antes do crescimento e o importante é o seu patrocinador estar disposto a custear isso, os últimos dois anos foram muito focados em investimento interno, em ganhar mais estrutura operacional de tecnologia, mais capacidade de time e de inteligência embarcada. Precisa investir, senão perde o chão”, afirma.
Foz Neto reitera ser algo para a próxima década e não para a semana que vem e que o Andbank não é mais um estrangeiro jurando amores ao Brasil. “O banco é pequeno, mas parte de um projeto bem feito, sabe que não pode ter pressa. E tem um controlador que entende o Brasil, que é um projeto de longo prazo, com o objetivo de ser uma butique de private banking relevante.”
O plano é seguir o roteiro rodado na Espanha, em que o grupo se tornou líder do private banking independente e hoje reúne cerca de € 12 bilhões. Não há, contudo, pretensão de se associar a nomes como XP e BTG Pactual para ganhar algum atalho, afirma.
O executivo conta que uma das falas de Oriol Ribas Duró, vice-presidente global e um dos controladores da família dona do Andbank, num jantar recente em São Paulo, é que no mercado espanhol o grupo só conseguiu conquistar maior tamanho porque eles persistiram. O Brasil é outro mercado em que pretendem persistir.
Fonte: Valor Econômico
