Com cerca de US$ 400 bilhões sob gestão da BlackRock na América Latina, a região representa só uma fração da gigante global de gestão de recursos, que reúne quase US$ 15 trilhões, mas essa é uma das localidades que mais crescem dentro do grupo, segundo Armando Senra, chefe do negócio institucional nas Américas e que lidera as operações no Canadá e na América Latina.
“O Brasil é, obviamente, o maior mercado da América Latina e é onde vemos, sem dúvida, uma enorme oportunidade de crescimento”, diz Senra em conversa com o Valor, por meio de videoconferência.
“Há diversas tendências importantes no país, com o surgimento dos consultores financeiros independentes no segmento de gestão de patrimônio, das plataformas digitais que atendem diretamente o consumidor, a adoção de arquiteturas abertas [a oferta de produtos de terceiros] e o aumento do ‘fee based’ [a remuneração por taxa fixa ou um percentual do patrimônio na distribuição]”, lista o executivo. “Todas essas tendências, em última análise, podem acelerar nosso crescimento e queremos estar presentes.”
Senra diz ver as regras de transparência de custos na distribuição de investimentos como uma das alavancas para o fee based e para o negócio de aconselhamento independente. “A mudança de remuneração representa, na prática, uma mudança do foco em produtos para o foco em portfólio”, afirma. “No passado, isso se concentrava no segmento de gestão de patrimônio e no institucional, com ênfase em produtos específicos. Agora, o foco está na construção de portfólios e a remuneração pelo fee based acelera essa tendência.”
Numa alocação que busca mais eficiência, a tendência é que fundos de índice (ETF) sejam mais utilizados, especialmente para a diversificação internacional.
Em meio à alta volatilidade dos mercados com as tensões geopolíticas, Senra diz ver mais procura pela gestão ativa, com o uso de instrumentos passivos e de classes alternativas. Os gestores brasileiros, com uma longa história de multimercados, podem se valer dessas estruturas.
“A realidade global é que existe um forte desejo por fontes de retorno diferenciados. Eu não via tanto interesse em hedge funds desde antes da crise financeira global”, afirma. “Vemos os clientes permanecendo no mercado, mas adicionando mais diversificação para além de ativos em dólar americano, em mercados emergentes e em outros mercados desenvolvidos.”
A BlackRock é uma grande máquina de criação de ETFs, negociados em bolsa, e no Brasil foi por essa porta que entrou de forma indireta, com a compra, em 2009, da plataforma iShares, que pertencia ao Barclays globalmente. Hoje tem 181 BDRs (recibos de ações estrangeiras) de ETF negociados na B3. Ao fim de março, reunia quase R$ 18 bilhões, segundo o ranking de gestão compilado pela Anbima. Esse é um número apenas parcial do que a gestora tem no país, já que não contempla a parte que o brasileiro investe por meio da BlackRock lá fora.
A incursão recente de grandes gestoras locais no segmento de ETF pode representar uma nova competição, mas essa é uma tendência bem-vinda, segundo o executivo da BlackRock.
“Gosto disso, sempre acolhemos a concorrência. Acho que o importante é que encontramos maneiras de acelerar a adoção dos ETFs. Curiosamente, o Brasil tem apresentado uma adoção menor do que outros mercados da região”, diz Senra. No Chile, Peru, Colômbia e México, o ETF tornou-se o elemento essencial para a diversificação internacional. E no Brasil, o investidor continua sendo muito dependente do mercado doméstico. “No mundo dos ETFs você precisa de escala. Nós gerenciamos globalmente cerca de US$ 6 trilhões em índices.”
Nos últimos anos, a BlackRock fez uma série de movimentos de consolidação, com a aquisição da Global Infrastructure Partners (GIP), da HPS Investment Partners e da Preqin, que ampliaram a plataforma para mercados listados e privados.
A atuação no mercado de crédito privado é uma das grandes apostas do grupo americano, atuando no financiamento direto a companhias, sendo uma via alternativa à dívida bancária tradicional. É uma inteligência que também está a serviço da asset no país, que se mostra um grande celeiro para a inovação.
“Quando pensamos no Brasil, vemos o país como líder em ‘Open Finance’ e em tokenização. Basta ver como o Banco Central fez com o Pix, o sistema de pagamentos em tempo real. Isso ajudou os bancos a crescerem, o que faz com que as pessoas saiam da economia informal e entrem na formal.”
Fonte: Valor Econômico
