O Goldman Sachs afirma que a tese de ampliação dos retornos globais, defendida pelo banco desde o início de 2025, se consolidou ao longo deste ano. Depois de quinze anos de mercados bifurcados — com domínio dos EUA no plano regional, da Tecnologia no setorial e do estilo Growth sobre Value —, o conjunto de oportunidades se abriu. As ações seguem em alta, mas a dispersão geográfica aumentou e o mercado americano passou a ser o mais fraco entre as grandes regiões.
A composição desses retornos também mudou. Segundo o relatório, assinado por Peter Oppenheimer, Sharon Bell, Guillaume Jaisson, Elena Porfidia e Jacinta Feng, o grosso do desempenho dos últimos doze meses veio de crescimento de lucros, e não de expansão de múltiplos. Ásia, emergentes e EUA sofreram de-rating, enquanto Japão e Europa registraram altas modestas de valuation. Maior endividamento público, aumento de emissões e inflação persistente elevaram o custo de capital e deixaram os lucros como principal motor dos retornos — tendência que o banco espera ver continuar. As revisões de lucro, incomumente, também seguem em alta.
A ampliação alcançou setores e fatores. Pela primeira vez desde 2009, o S&P 500 equal weighted supera a versão ponderada por capitalização em mais de 7,3%. O banco atribui o movimento à resiliência das economias americana e europeia, à retomada de fusões e aquisições — que desloca o interesse das maiores capitalizações — e ao forte desmonte de momentum das últimas semanas, que alargou a participação do mercado e trocou a liderança. Nos EUA, small caps superaram large caps.
No centro da mudança está o salto de capex das grandes empresas de Tecnologia. Depois de uma década operando com estrutura capital light e apoiadas por juros zero, as hyperscalers passaram a consumir caixa em escala inédita após o lançamento do ChatGPT, recorrendo a dívida e equity para financiar investimentos. O resultado foi uma queda acentuada do free cash flow yield [rendimento de fluxo de caixa livre] do mercado americano frente a mercados mais orientados a valor, como o europeu.
Com a ansiedade sobre o retorno desse capex, as maiores empresas de Tecnologia sofreram de-rating. As cinco maiores ações dos EUA hoje negociam com P/E apenas marginalmente acima das outras 495 — o prêmio existia de forma consistente desde 2017. O contraste com a bolha das pontocom é relevante: naquele ciclo os múltiplos chegaram a patamares muito superiores e recuaram por colapso de preço; agora o ajuste de preço foi mais moderado e os lucros permaneceram excepcionalmente fortes. O prêmio global de Software caiu para cerca de 20%, contra quase 200% no início do século, e a liderança dentro do setor migrou de Software para Hardware, com memória e chips capturando a demanda por capacidade computacional. A conclusão do banco é que não há bolha de valuation em Tecnologia, mas pode haver uma bolha de lucros.
O capex das hyperscalers e das empresas de chips, somado ao endividamento governamental voltado a segurança energética, infraestrutura crítica e defesa, deu início ao que o Goldman chama de “supercycle” de investimento. O transbordamento reanimou setores da “velha economia”: Industriais passaram a ter o maior valuation setorial global, acima da própria faixa de 20 anos, enquanto Tecnologia voltou à média histórica. Consumo básico, discricionário e saúde hoje negociam acima de TI e serviços de comunicação em base de P/E.
No plano regional, o de-rating americano abre espaço para reengajamento seletivo. Os EUA seguem, com folga, o mercado mais atrativo em ROE, e apenas a China, entre os grandes mercados, opera com retorno sobre patrimônio abaixo da média histórica, apesar do boom de exportações e da competição em Tecnologia. Por fim, a correlação média entre pares de ações caiu nos principais mercados: mesmo com rotações dolorosas em IA e momentum, os movimentos individuais se compensam e a volatilidade de índice permanece baixa. Para o banco, trata-se de normalização saudável após anos de concentração recorde — e de um ambiente com mais oportunidades de alpha em todas as grandes regiões.
Fonte Goldman Sachs Global Investment Research — Global Strategy Views: Momentum, rotation and the value in growth, 3 de agosto de 2026. Peter Oppenheimer, Sharon Bell, Guillaume Jaisson, Elena Porfidia e Jacinta Feng.


