Por Carl Weinberg — Dow Jones Newswires
13/02/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Muito, mas muito tempo atrás, a economia da China conseguia produzir rotineiramente um crescimento anual de 12% a 15%, o suficiente para reforçar a expansão do Produto Interno Bruto mundial em 2,5 pontos percentuais. Algumas pessoas esperam que isso ocorra agora, com a retomada da economia da China após o fim de dois anos de políticas de contenção da covid-19.
Mas, nem do ponto de vista do capital nem no do trabalho, o argumento de que a China possa “se recuperar” dos 2% de crescimento do PIB atuais para uma taxa suficientemente alta a ponto de impulsionar o crescimento global e os preços das commodities se sustenta matematicamente. É pouco provável que alguma “guinada” do crescimento do PIB da China comece muito antes do fim do ano. Nenhum país se recuperou de um surto de covid-19 em menos de um ano. Quando a economia da China de fato se recuperar, é mais provável que o crescimento decepcione os otimistas do que os surpreenda.
Um modo de avaliar o potencial de crescimento da China é examinar o crescimento da produtividade e da população economicamente ativa (PEA). A China surpreendeu em 2022 ao relatar a primeira queda populacional desde o início da série história atual. Mais trabalhadores produzem mais coisas. Para o PIB, o que importa é a população em idade ativa.
O Departamento Nacional de Estatística da China informou um acréscimo maior que o previsto de 12 milhões de pessoas à PEA não rural no ano passado, o triplo do aumento médio ocorrido nos três anos anteriores. Essa expansão, ainda assim, fica abaixo da média de 15 milhões registrada na esteira do acesso da China à Organização Mundial de Comércio (OMC), de 2001 a 2014, quando os aumentos anuais da PEA não rural se ampliaram para 19 milhões.
Mas esses incrementos representaram uma contribuição percentual cada vez menor para a PEA não rural, num momento em que ela se expandiu de 363 milhões para 543 milhões: o aumento de 19 milhões de trabalhadores não rurais de 2004 representou 5,1% da PEA. Um aumento semelhante em 2013 foi de 3,7%. O de 12 milhões do ano passado, de apenas 2,1%.
A produtividade – o PIB por trabalhador – tem desacelerado também. Ao alcançar a média de ao menos 9% no período pós-acesso à OMC, a expansão da produtividade caiu para cerca de 4,5% nos anos pré-covid. Assim, se a produtividade se recuperar neste ano, após praticamente não registrar altas em 2021-22, e se o governo conseguir articular outra grande migração da zona rural, avanços de ao menos 6% do PIB serão possíveis. Esse índice é maior em 3 pontos percentuais do que analistas estão prevendo, mas essa alta acrescentaria menos que 0,5 de ponto percentual ao crescimento do PIB mundial.
Outra maneira de avaliar as perspectivas de crescimento da China é por meio dos investimentos, que aumentam o crescimento do PIB por duas vezes. Quando uma fábrica, ponte, rodovia ou ferrovia é construída, o gasto contribui para o PIB. Esses investimentos também geram um retorno nos anos seguintes. No entanto, o retorno sobre o investimento diminui com cada projeto sucessivo. Uma segunda estrada custa o mesmo que a primeira, por exemplo, mas gerará um retorno menor e contribuirá menos para o PIB no futuro.
Na economia em desenvolvimento da China, os investimentos que rendem as maiores taxas de retorno foram empreendidos primeiro. Após décadas de modernização, os projetos de investimento atuais rendem taxas menores de retorno a cada ano, e aumentam menos a expansão futura do PIB. Recentemente a política pública priorizou o investimento em moradias ocupadas pelos proprietários. Ao contrário de uma fábrica, esse tipo de imóvel não contribui para o PIB após ser construído. Portanto, o impulso dos investimentos ao crescimento foi diluído.
Quando se examina o produto marginal do trabalho, a PEA ou a eficiência marginal do capital, a economia da China está em tendência de desaceleração. Para incorporar um ponto percentual ao crescimento global do PIB, a China teria de aumentar a taxa de crescimento de seu PIB em seis pontos percentuais. Isso, talvez, seja inatingível.
Fonte: Valor Econômico
