Por Liane Thedim — Do Rio
17/07/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
O CEO da ARX Investimentos, asset controlada pelo grupo global BNY Mellon, Rogério Poppe, diz que o mundo terá que conviver com um cenário de juros altos por mais tempo, mas com liquidez alta. Segundo ele, os estímulos fiscais muito acima dos vistos em outras crises vêm desafiando o poder dos bancos centrais em controlar a inflação.
“Os juros acima de 5% nos Estados Unidos, a inflação próxima a isso e o problema dos bancos regionais [Silicon Valley Bank, Signature Bank, Silvergate e First Republic Bank faliram neste ano, já como reflexo da forte puxada nos juros básicos do país] mostram que há um limite para o trabalho dos bancos centrais.”
Em junho, o Federal Reserve (Fed, o BC americano) decidiu manter inalterada a taxa básica no intervalo de 5% a 5,25% anuais, maior patamar desde 2007. Foram dez elevações consecutivas, a partir de março de 2022. Mesmo assim, na ata da última reunião o Fed avaliou que o mercado de trabalho continua muito apertado, o impulso da atividade econômica foi mais forte que o esperado e que há poucos sinais claros de que a inflação está retornando à meta de 2%.
Na reunião, foi praticamente um consenso a necessidade de mais aperto este ano – as divergências giraram em torno do tamanho, se mais uma ou duas elevações. Isso porque os membros do comitê acreditam que as condições mais restritas de crédito devem pesar sobre o país.
Poppe explica que, ao mesmo tempo em que subir demais os juros pode levar a problemas na economia, o BC precisa retirar a liquidez da pandemia. No entanto, ele acredita que o aumento na busca por ativos reais beneficia o Brasil. “Ainda há muita incerteza no mundo, e somos um ‘player’ relevante em commodities”, destaca.
No mercado interno, o CEO da ARX espera que os juros caiam em agosto, mas segue cauteloso com a trajetória da inflação. “Vamos aguardar para ver se o impacto da Selic alta é duradouro.” A aprovação do arcabouço fiscal, afirma, pode ajudar nesse primeiro movimento de arrefecimento da inflação mas o ano será de cortes menores na taxa básica diante da desaceleração lenta do setor de serviços e do mercado de trabalho e da política fiscal expansionista.
“Os juros altos pioram muito o ambiente para as empresas, que começam a vender ativos para pagar dívidas e, em vez de pensar em crescimento, pensam em equilíbrio financeiro.” Ele lembra que as empresas de commodities que estão investindo têm revisado o plano para cima. “Os preços subiram na pandemia e vão ficar nesse novo patamar. Algumas plantas hoje você não consegue mais duplicar porque a inflação elevou os custos.”
Para Poppe, está muito difícil montar cenários interno e externo no momento. “Particularmente em bolsa a gente trabalha com um cenário-base, um melhor e um pior. A gente monitora o tempo todo para ajustar a carteira”, conta. Diante desse quadro desafiador, o executivo – que também é o gestor responsável pela estratégia de renda variável da ARX – vem montando uma carteira mais diversificada na bolsa brasileira, buscando empresas em setores diferentes, com uma correlação menor.
O forte movimento de resgates dos fundos, iniciado em 2022 – segundo a Anbima, no ano os fundos têm captação líquida negativa de R$ 205 bilhões -, é visto por Poppe como um “freio de arrumação”, que abrange todas as classes de investidores, após a explosão na captação vista em 2021. “Vimos muitos clientes acostumados com renda fixa procurando alternativas com mais risco, saindo de poupança, CDB, título público. Agora os saques mostram que o mercado funciona como um pêndulo.”
As plataformas digitais, que levaram uma massa de investidores ao mercado das assets independentes, também assumiram parcela importante nos últimos anos na ARX. “A gente cresceu com elas. Temos bem dividido o mix de investidores por institucionais, estrangeiros e, juntos, plataformas, gestão de fortunas e pessoas físicas. Saímos de cerca de 16 mil cotistas no fim de 2018 para mais de 140 mil hoje.”
Fonte: Valor Econômico