O primeiro semestre de 2026 caminha para o fim, e ele está testando a resiliência dos mercados globais. Em um cenário marcado por tensões geopolíticas, risco de inflação persistente, Matheus Dibo, head global de alocação do Goldman Sachs, acompanha de perto para onde está fluindo o capital internacional.
Baseado em Londres e há 16 anos no banco, ele lidera uma equipe global de quase 30 profissionais responsável pela alocação tática de ativos da instituição. Seu trabalho é identificar, ao redor do mundo, as melhores oportunidades de investimento em meio às mudanças do cenário macroeconômico global.
Segundo ele, o Brasil perdeu espaço no radar dos grandes investidores estrangeiros, que hoje concentram suas apostas principalmente nos Estados Unidos e em mercados asiáticos ligados à cadeia de tecnologia e semicondutores.
Apesar do início do ano ter sido marcado por um forte fluxo de capital estrangeiro – com o Brasil atraindo R$ 15,4 bilhões em fevereiro, o maior volume para o mês nos últimos quatro anos. O cenário mudou nos meses seguintes. A escalada das tensões no Oriente Médio, intensificada pelo início da guerra no Irã no fim de fevereiro, devolveu volatilidade aos mercados e interrompeu o ritmo de alta.
“Infelizmente, nossos clientes globais mostram pouco interesse no Brasil”, destaca Dibo. Ele explica que, hoje, a maior parte do apetite está concentrado no câmbio e na renda fixa, principalmente por conta dos juros elevados, favorecendo estratégias de carry trade (arbitragem de juros). “A bolsa brasileira acaba ficando em segundo plano para grande parte desses aplicadores”, comenta.
Na entrevista, Dibo ainda explica por que os EUA continuam sendo o porto seguro dos investidores globais e analisa os impactos da guerra e da alta do petróleo sobre a economia mundial.
De acordo com o relatório trimestral do Citi Wealth, o caminho para a proteção do portfólio também é concentrar os investimentos nas ações de grandes empresas americanas. O estudo mostra que os lucros das empresas dos EUA, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), subiram para 13,2% no final de 2025 – um salto em relação aos 11,5% registrados no final de 2019, pré-pandemia. “Temos um foco grande nos Estados Unidos, por ser o maior mercado do mundo”, diz.
Veja abaixo a entrevista concedida pelo executivo do Goldman Sachs.
Forbes: Por que o Brasil apresenta uma diferença tão grande de alocação de capital em relação aos principais mercados globais?
Matheus Dibbo: É uma questão de escala. Se somarmos os mercados de renda fixa e renda variável dos Estados Unidos, estamos falando de mais de US$ 90 trilhões. Fazendo o mesmo exercício para o Brasil, o volume gira em torno de US$ 500 bilhões. É uma diferença muito grande.
Além disso, o Brasil ainda tem pouca exposição a setores que hoje lideram o interesse global, como inteligência artificial e tecnologia. Há a Petrobras, que se beneficia da alta do petróleo, mas, no geral, é um mercado muito concentrado em poucos setores.
Forbes: Quais mercados emergentes têm sido mais recomendados?
Matheus Dibbo: O grande foco entre os emergentes neste ano está na Coreia do Sul e em Taiwan. Todo o forte investimento em capital (Capex) feito pelas grandes empresas americanas tem beneficiado diretamente fabricantes de semicondutores e chips de memória desses países. Para investidores que querem se expor ao mercado de IA com valuations mais atrativos do que os encontrados nos EUA, esses mercados acabam sendo opções muito mais interessantes.
Nossa recomendação foi aumentar a posição em emergentes, mas excluindo a China. Na nossa visão, o mercado chinês não entregou o retorno esperado nas últimas décadas e ainda enfrenta um dos desafios demográficos mais severos do mundo.
Forbes: Com a valorização das ações globais de tecnologia, se fala bastante sobre o risco de uma bolha de IA. Como vocês avaliam esse cenário hoje?
Matheus Dibbo: Na nossa visão, existe sim uma bolha, mas é uma bolha de lucros, não de preços. Essa é a principal diferença em relação à bolha das “ponto com”, em 2001, quando as avaliações se descolaram dos fundamentos de empresas que praticamente não geravam receita.
Hoje, as gigantes de tecnologia americanas estão captando grande parte do valor criado pela cadeia de inteligência artificial. Só em 2025, as sete empresas conhecidas como “Magnificent 7” (As Sete Magníficas, na tradução para o português) reportaram receitas somadas de US$ 2,3 trilhões, valor superior ao PIB do Brasil. No ano passado, elas investiram US$ 660 bilhões em pesquisa e, ainda assim, geraram US$ 600 bilhões em lucro.
Forbes: Em meio aos riscos de inflação e às tensões geopolíticas, como o Goldman Sachs tem enxergado os EUA dentro das carteiras?
Matheus Dibbo: Hoje, mantemos uma alocação acima da média (overweight, no termo técnico do mercado) nos Estados Unidos e seguimos bastante confortáveis com essa exposição. No longo prazo, continuamos acreditando que o mercado americano seguirá sendo o mais forte do mundo, principalmente pela capacidade de geração de lucro das empresas americanas. Conforme os lucros sobem, por exemplo, o índice S&P 500 também aumenta, o que é bem diferente do que acontece em países desenvolvidos fora dos EUA e em emergentes, onde bolsas e lucros andam de lado faz quase 20 anos.
Forbes: Como o cenário político nos EUA influencia a visão macroeconômica e as decisões de alocação?
Matheus Dibbo: O eleitorado americano parece cada vez mais insatisfeito com o atual governo, que foi eleito com promessas como combater a inflação e reduzir o envolvimento militar no Oriente Médio, mas acabou não cumprindo essas expectativas. A taxa de aprovação já caiu para abaixo de 40%, aumentando a pressão política sobre a administração atual.
Nossa visão é de que o governo deve perder pelo menos a Câmara nas próximas eleições, e existe também a possibilidade de perder o Senado. Isso tornaria o cenário político mais esburacado, exigindo maior negociação com os democratas para aprovações e indicações.
Forbes: E a mudança na presidência do Fed, como o Goldman enxerga a indicação de Kevin Warsh?
Matheus Dibbo: Do ponto de vista monetário, acreditamos que o Federal Reserve (Fed) deve manter os juros inalterados ao longo de praticamente todo 2026, possivelmente até dezembro. A economia americana continua gerando muito mais empregos do que o necessário para manter a taxa de desemprego estável, enquanto a inflação segue pressionada, principalmente pelos custos de energia. Nesse contexto, o Fed não tem motivos para acelerar cortes de juros.
Forbes: Como o atual cenário de guerra e a alta do petróleo podem impactar a economia global?
Matheus Dibbo: A principal variável a ser monitorada é a duração do conflito. Em um primeiro momento, os mercados ainda conseguem absorver esse choque e continuar gerando retornos positivos. Mas, se a crise se prolongar por meses e o estreito permanecer fechado, o risco de uma recessão global aumenta.
Forbes: E qual o impacto disso para a economia americana?
Matheus Dibbo: A economia americana está em uma posição muito mais favorável hoje do que esteve nas décadas de 1970 e 1980. Atualmente, os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo do mundo, com uma produção de 13,6 milhões de barris por dia. Esse é o maior volume já registrado por qualquer país na história.
Além disso, o consumidor americano está relativamente mais protegido dos impactos da alta do petróleo, já que os gastos com gasolina representam hoje em torno de 2% do consumo total das famílias. Soma-se a isso uma injeção de mais de US$ 100 bilhões em liquidez na economia por meio de reembolsos de imposto de renda. Por isso, desta vez, o cenário para os Estados Unidos parece estruturalmente diferente.
Fonte: Forbes Brasil