Após quatro meses seguidos de saídas das ações brasileiras, investidores institucionais voltaram a aportar neste mês de maio e já acumulam entradas de quase R$ 9 bilhões até a última segunda-feira, 18. A retomada desse perfil de alocador para a bolsa, no entanto, não deve ser entendida como um movimento de “grande convicção” dos participantes do mercado, afirma o codiretor de mercados globais para a América Latina do UBS BB, Marcelo Okura.
“A leitura é de que esse fluxo comprador recente parece ter sido mais uma resposta técnica à saída do estrangeiro — ou seja, o mercado precisa de um comprador marginal — do que necessariamente um aumento genuíno de convicção de que a bolsa voltou a negociar em níveis atrativos”, observa o executivo.
Okura afirma que isso fica evidente ao se observar o desempenho de ativos com grande sensibilidade ao mercado de juros, como o SMALL11, fundo de índice de empresas de menor valor de mercado. “O recente movimento de abertura [alta] da curva de juros trouxe um ‘sell-off’ [venda] relevante nesses ativos, sugerindo que o local continua bastante sensível ao cenário de juros”, enfatiza.
De fato, nos últimos dias, houve uma disparada das taxas futuras no mercado local, que precifica que o fim do ciclo de flexibilização monetária pode estar próximo, com apenas mais um corte de 0,25 ponto na Selic totalmente na conta.
No acumulado deste mês, institucionais já aportaram R$ 8,7 bilhões no segmento secundário da B3 (ações já listadas). Já no ano, a situação é bem diferente e a categoria ainda soma R$ 40,9 bilhões em retiradas.
Na ponta contrária, estrangeiros acumulam saídas de R$ 10,5 milhões em maio, revertendo os R$ 3,1 bilhões que a categoria aportou em ações já listadas em abril.
Okura observa que os estrangeiros têm sido os maiores “vendedores” líquidos da B3 nas últimas semanas e que isso tem contribuído para a correção recente registrada pela bolsa. No acumulado deste mês, por exemplo, o Ibovespa acumula perdas de mais de 5%.
Na avaliação do executivo, uma volta consistente de capital de investidores não residentes à bolsa poderia ser impulsionada pela maior estabilidade política doméstica, especialmente em relação à visibilidade sobre o cenário eleitoral; alívio do ambiente geopolítico global; e principalmente, uma retomada da confiança no ciclo de corte de juros, que foi quase totalmente perdida recentemente tanto por fatores internos quanto externos.
Fonte: Valor Econômico