A menos que a guerra de EUA e Israel contra o Irã acabe logo, os mercados tendem a viver novos períodos de intranquilidade. Os sinais disso apareceram com mais clareza nos últimos dias, quando os títulos do Tesouro americano de longo prazo (10 e 30 anos) exibiram as maiores taxas desde 2007, na véspera da grande crise financeira global. As raízes do problema nada têm a ver com disfunções evidentes nos preços dos ativos ou recantos poucos claros de negociações desreguladas, como no caso dos empréstimos subprime, mas, sim, por um motivo mais simples: juros em alta.
Os efeitos da guerra sobre a inflação mundial e o crescimento tendem a sobrepujar os impulsos expansionistas dos enormes investimentos em inteligência artificial pelas big techs americanas (US$ 750 bilhões anunciados até agora) e da política de estímulos fiscais implantada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Ambos, segundo boa parte dos analistas, produziriam mais inflação de qualquer forma, mas a um ritmo muito mais comedido, se a eles não fosse acrescentado um enorme choque do petróleo. A guerra, que não se sabe quando acabará, exigirá uma política monetária restritiva das principais economias, que está a caminho, segundo indicadores dos mercados.
Os títulos do Tesouro dos EUA sinalizaram aumento de juros, cujo detonador foi o índice de preços ao produtor de abril (6% ao ano). Antes deles, outros sinais perturbadores haviam aparecido: o índice de gastos pessoais do consumo, medida preferida pelo Federal Reserve, subiu a 3,5%, e seu núcleo, a 3,2%. O índice ao consumidor (CPI) foi mais longe ainda, 3,8% em abril, muito distante da meta de 2%.
Pressões por um aperto monetário estão por toda parte, e são sentidas com mais força no Reino Unido, onde o governo trabalhista, derrotado nas eleições municipais, luta para se manter à tona. No continente, membros do Banco Central Europeu corroboram a percepção dos investidores de que um aumento dos juros será inevitável se os custos de energia, que se espalham para os demais preços, continuarem subindo.
A grande dúvida diz respeito ao BC mais poderoso, o Fed americano. Na reunião de maio não havia expectativa de elevação imediata dos fed funds, mas, sim, sobre a sinalização do futuro. Foi uma reunião histórica, com a maior desavença já registrada em quatro décadas. A maioria concordou em manter a taxa entre 3,5% e 3,75%, mas com uma variedade de motivos que reflete as grandes incertezas que rondam a economia global. Dois membros do comitê votante apontaram que não faz mais sentido deixar em aberto a possibilidade de corte dos juros, e outro, que esse é o momento exato de se fazer exatamente isso.
Houve discordância também sobre os efeitos dos enormes investimentos em IA. Parte dos membros do Fed acredita que o aumento de produtividade decorrente deles auxiliará na redução da inflação, como crê o novo presidente, Kevin Warsh. Eles acreditam também que o desinflar dos preços de habitação terá o mesmo efeito baixista. Já parcela mais numerosa acredita que os investimentos na IA jogarão mais lenha na fogueira da inflação, estimulando a demanda antes que ganhos de produtividade apareçam. Vários apontaram que a guerra do Irã poderia se prolongar além do previsto, como está ocorrendo, elevando a inflação que, por já estar fora da meta há anos, poderia alimentar a nociva espiral preços-salários.
Além disso, as consequências evanescentes da guerra tarifária de Trump sobre a inflação deixaram outra preocupação: o aumento do déficit fiscal. Trump imaginava que as tarifas cobririam grande parte da renúncia de impostos efetuada. As tarifas caíram na Suprema Corte e as atuais, de 10%-15%, são muito menores do que os gravames originalmente impostos. Seria mais um fator inflacionário hoje.
Os mercados vislumbram agora alta de juros nos EUA. Com a oferta de petróleo minguando e os preços ao redor de US$ 110 o barril, a crise de oferta poderá se acirrar, e a inflação também, se não houver um acordo para encerrar o conflito. A nova perspectiva combinada de conflito prolongado e alta dos juros pôs em xeque os prognósticos dos investidores, de que a guerra terminaria logo e tudo voltaria ao normal. Os riscos, que já não eram pequenos, estão aumentando.
Com isso, o dólar começa a se recuperar em relação a outras moedas e os investidores recuam parcialmente de suas apostas mais arrojadas. O Brasil parecia viver uma situação anômala: bolsa em alta, dólar em baixa e afluxo abundante de capital para portfólio em meio a fortes turbulências globais. A situação começa a mudar, e nela ingressa aos poucos a equação eleitoral. A bolsa assiste agora à saída de recursos externos, de R$ 10,5 bilhões no mês corrente, embora o saldo ainda seja de R$ 40,9 bilhões, superior ao de R$ 25 bilhões de 2025. As cotações do dólar são hesitantes como tendência, mas passaram dos R$ 5.
As promessas eleitorais do governo ressaltam a fragilidade das contas públicas, enquanto os pecados do principal candidato de oposição, às voltas com relacionamento suspeito com um banqueiro corrupto, indicam pouca chance de mudança para o futuro. Um cenário benigno pode dar lugar a outro, turbulento, para o qual o governo nada faz para afastá-lo.
Fonte: Valor Econômico


