Por Victor Rezende e Arthur Cagliari — De São Paulo
17/07/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
O comportamento do câmbio doméstico tem surpreendido o mercado ao longo do ano e, aos poucos, uma perspectiva mais otimista em relação à trajetória futura do real tem sido esperada pelos agentes. A melhora no sentimento em torno das perspectivas econômicas, a dissipação de parte relevante do risco fiscal, o nível elevado das taxas de juros e a depreciação global do dólar são fatores que, juntos, ajudam a explicar a evolução do câmbio, que no início do ano chegou a R$ 5,47. Alguns desafios permanecem à frente, mas, na visão consensual do mercado, o dólar deve se manter afastado das máximas de 2023.
Levantamento conduzido pelo Valor com 30 bancos e consultorias mostra que a mediana das projeções para o câmbio no fim deste ano aponta o dólar a R$ 5,00. A maioria das casas, assim, espera que a taxa de câmbio sofra alguma desvalorização até o fim de 2023 em relação aos níveis atuais (R$ 4,79 por dólar), mas o movimento não deve ser significativo, ao se ter em vista a baixa volatilidade do real no ano e a ausência de vetores que poderiam pressionar a moeda de forma expressiva nesta segunda metade do ano.
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O nível elevado das taxas de juros e a volatilidade do real em baixa deram suporte ao movimento de apreciação do real neste ano, além da perda de fôlego do dólar em nível global. “O dólar está abaixo de R$ 5 muito em função do carrego, que beneficia a moeda em um contexto de fraqueza do dólar. E, auxiliando nesse movimento, vemos o risco doméstico caindo. O arcabouço fiscal, o comprometimento com a arrecadação de receitas, a perspectiva positiva para o rating pela S&P e a manutenção da meta de inflação em 3% ajudaram a melhorar a percepção de risco Brasil”, afirma a economista Julia Passabom, do Itaú Unibanco.
Embora o resumo do primeiro semestre tenha sido positivo para a dinâmica do câmbio, a economista elenca alguns desafios pela frente que, na visão do banco, devem levar o dólar de volta a R$ 5 no fim deste ano. “Toda essa parte do diferencial de juros atrativo para a moeda deve diminuir, porque o Banco Central vai começar a cortar os juros, enquanto o Federal Reserve não terminou ainda o ciclo de aperto. O patamar do diferencial de juros ainda vai ser ‘ok’, mas será menos atrativo.”
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O estrategista Brendan McKenna, do Wells Fargo, adota visão semelhante, ao apontar que, mesmo com uma compressão do diferencial de juros, o real não deve ser penalizado expressivamente. “Veremos uma fraqueza modesta do real, nada muito significativo, até porque o mercado já está precificando um corte muito agressivo nas taxas de juros, e não acredito que o Banco Central irá seguir nesse ritmo”, afirma. “Assim, à medida que as expectativas para a taxa de juros se ajustarem, poderemos ver um pouco de suporte para o real.”
McKenna elenca alguns riscos para o desempenho do real, como as incertezas em torno do crescimento chinês e preços mais baixos das commodities. Ele, porém, não vê impacto expressivo no desempenho da moeda brasileira. “A queda recente dos preços foi significativa e não criou nenhuma disrupção para o real. Para mim, aquilo que já exercia uma influência sobre o real continuará a ter peso, como o juro real e os prêmios de risco com a questão fiscal. É isso que pode trazer algum viés baixista para a moeda daqui em diante.”
O estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli, vê espaço para apreciação adicional do câmbio no terceiro trimestre, para algo em torno de R$ 4,60 por dólar, mas espera que, ao longo dos últimos três meses do ano, o dólar volte a ganhar alguma força e encerre 2023 entre R$ 4,80 e R$ 4,90. “Vimos ‘drivers’ bastante positivos aqui, como os resultados da balança comercial, o carrego da taxa de juros e a redução do risco político. O ponto negativo é que, a partir de agora, esses vetores positivos serão mais fracos.”
Giacomelli observa que os ganhos de commodities, agricultura e da reabertura econômica da China são fatores que não devem se repetir no segundo semestre, o que também não deve possibilitar uma surpresa no desempenho da atividade econômica como a que foi vista no primeiro trimestre. “O Brasil deve começar a entrar em um processo gradual de desaceleração. Além disso, não vamos viver um ciclo das commodities como o que ocorreu no passado”, nota.
O estrategista, assim, enfatiza que é “importante” que o processo de reformas tenha continuidade. “A moeda ainda está em R$ 4,80, o que é um nível depreciado, o mercado de ações está barato… O entusiasmo que temos visto, em grande parte, se deve a medidas circunstanciais, como a safra recorde e a reabertura da China, além de uma transferência brutal de renda. Precisamos ver uma segunda onda de reformas acontecendo ou a perspectiva pode piorar bastante”, diz.
De acordo com Passabom, do Itaú, os prêmios de risco já anotaram redução “significativa” neste ano. Ela, porém, ressalta que notícias positivas podem contrair ainda mais o nível dos prêmios, ao se referir a uma aprovação da reforma tributária. “Achamos que seria positiva a aprovação da reforma como está, o que ajudaria a segurar os prêmios em níveis mais baixos. No entanto, mais à frente, a trajetória da dívida e a sustentabilidade dos gastos devem definir o patamar dos prêmios”, enfatiza.
Uma das visões mais benignas para o câmbio é defendida por Teresa Alves, estrategista de moedas emergentes do Goldman Sachs, cuja projeção aponta para o dólar a R$ 4,40 neste ano. “Mesmo que o BC venha a fazer cortes na Selic, acreditamos que a autoridade monetária será mais cautelosa do que o esperado pelo mercado e, por isso, achamos que o carrego continuará beneficiando o câmbio”, diz. “Fora que, além da inflação continuar caindo, o Brasil tem a maior taxa de juro real entre os emergentes. Vai ser preciso algum tempo para que isso seja reduzido.”
Alves aponta que o real ainda está bastante abaixo do seu valor justo, o que indica que há espaço para uma apreciação adicional da moeda brasileira. “É diferente do peso mexicano, cujo ‘valuation’ não oferece muito mais espaço para uma valorização. O real tem espaço para isso. Nossas métricas apontam para um câmbio justo perto de R$ 4,30; então pode apreciar mais”, diz a estrategista.
Ainda que o fluxo comercial seja importante para o câmbio, Alves aponta que é preciso levar em consideração também o fluxo por meio da busca pelos ativos locais. “Agora que há a perspectiva de corte de juros no Brasil, com os investidores a investir nos títulos brasileiros [antes que as taxas caiam], esse fluxo também beneficia a moeda”, diz a estrategista.
Fonte: Valor Econômico
