Os últimos dados de inflação no Brasil surpreenderam para baixo, mas ainda é cedo para extrapolar a análise e enxergar uma sinalização mais estrutural de alívio na demanda, diz Basilik Litvac, economista-sênior de inflação da XP.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do país, subiu 0,16% em junho, ante expectativa mediana do mercado de 0,31% e projeção mínima de 0,24%, segundo o Valor Data. Já o IPCA-15, prévia da inflação, de julho variou apenas 0,06%, contra estimativa mediana de 0,21% e piso de 0,17%.
“O IPCA fechado de junho teve surpresa mais relevante, mas focada, principalmente, em alimentação. Depois dos choques que vimos, sobretudo nos alimentos ‘in natura’, há uma sazonalidade melhor a partir do fim de junho e que se estende até agosto”, diz Litvac.
Diferentemente de junho, porém, a prévia da inflação de julho apresentou desvios para baixo mais disseminados, observa a economia. “Existem alguns fatores mais pontuais, como o seguro voluntário de veículos, um componente que acaba afetando o núcleo de serviços subjacentes”, diz, em referência à métrica que considera os serviços mais ligados ao ciclo econômico e, por isso, acompanhados mais de perto pelo Banco Central. “Mas é um item que tem se mostrado bem errático”, pondera.
Além disso, diz, as passagens aéreas, que entram na conta total de serviços (mas não nos subjacentes) e costumam ter uma sazonalidade de preços desfavorável em julho, também surpreenderam para baixo. “Ainda assim, vimos alguns serviços sem serem esses mais voláteis arrefecendo. Mas é um primeiro dado. Acho que ainda é cedo para extrapolar e ver algum componente de demanda já dando sinalização”, afirma a economista.
Acho que ainda é cedo para extrapolar e ver algum componente de demanda já dando sinalização”
Na composição da inflação, a volatilidade dos preços internacionais do petróleo também preocupa, segundo Litvac. “Nos IGPs [Índice Geral de Preços], vimos dois meses de deflação importantes, principalmente no IPA [Índice de Preços ao Produtor] industrial, que refletiu movimentos do petróleo e seus derivados naquele momento de aparente acordo. Isso possibilitou uma boa devolução da alta do petróleo”, lembra.
Ao mesmo tempo, diz, isso impõe preocupação para os próximos indicadores, porque o preço do petróleo voltou a oscilar – agora, está ao redor de US$ 80 por barril. “Tem incerteza se esses movimentos mais favoráveis podem ser revertidos”, afirma Litvac.
Ainda assim, no curtíssimo prazo, ela diz que leituras mais benignas do IPCA devem continuar, com a boa sazonalidade para alimentos e também o desconto do bônus de Itaipu, que alivia a inflação em agosto, mas devolve em setembro. Além disso, apesar de o IPCA de agosto poder ser até negativo, os bens industriais devem apresentar aceleração pontual, observa Litvac, relacionada ao aumento nos preços dos cigarros, que entrou em vigor para compensar os subsídios aos combustíveis em meio à guerra no Oriente Médio.
De setembro em diante, além do “efeito rebote” em energia elétrica, o fenômeno climático El Niño deve se intensificar, coincidindo com o final do ano, que já costuma ser mais prejudicial para a produção de alimentos, diz Litvac. “Por isso, temos um quadro de alimentação voltando a acelerar e impulsionando o IPCA.”
Em sentido contrário, ela afirma haver a possibilidade de o ano fechar com bandeira tarifária verde na conta de luz, isto é, sem cobrança extra. “O nosso cenário, por ora, é de bandeira amarela, mas começam a crescer as chances de bandeira verde. Eventualmente, isso pode ajudar a compensar se o petróleo voltar a subir”, diz.
Assim, na sua projeção, o IPCA deve fechar 2026 com alta de 5,1% e passar para 4,2% em 2027, o que ela considera uma “desaceleração moderada”. “Vemos a atividade desacelerando, estamos com uma projeção de PIB de 1% para o ano que vem, já que todos os estímulos de 2026 não tendem a se repetir em 2027. Ao mesmo tempo, se a gente caminhar para um regime climático de neutralidade a partir do fim do segundo trimestre de 2027, o segundo semestre pode ser mais tranquilo”, afirma Litvac.
O petróleo segue como um ponto de incerteza para 2027, bem como os eventuais efeitos da reforma que mudou a jornada de trabalho, destaca.
Fonte: Valor Econômico

