As empresas brasileiras de capital aberto registraram destruição de valor no primeiro trimestre do ano, causada por um ambiente de juros altos, segundo dados do Centro de Estudos de Financiamento das Empresas Brasileiras (CEFEB), vinculado à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), obtidos pelo E-Investidor.
O retorno sobre o capital investido (ROIC) ficou abaixo do custo médio ponderado de capital (WACC), indicando que o retorno gerado pelos investimentos foi inferior ao necessário para financiá-los. No período, o ROIC alcançou 12,9%, enquanto o WACC ficou em 13,5%. O levantamento tomou como base demonstrações financeiras de 331 empresas não financeiras listadas na B3.
Segundo Roberto Troster, coordenador do CEFEB, quando o custo do capital supera o retorno dos investimentos, a capacidade das empresas de gerar valor diminui. “Isso tende a reduzir o incentivo a novos investimentos.”
É um panorama que começou a ser registrado em 2021, quando foi encerrado um ciclo de geração de valor iniciado em 2016, aponta Troster. “Desde então, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) e lucro das empresas estão em queda, enquanto as despesas operacionais sobem, mas o resultado financeiro fica relativamente estável.”

Yuri Machado, analista de Renda Fixa do Safra, vem observando uma postura bem mais conservadora das empresas. “Houve redução e maior disciplina nos investimentos, com projetos sendo adiados ou redimensionados.”
Para o CEFEB, os resultados mostram que o principal desafio das companhias de capital aberto deixou de ser apenas ampliar o acesso ao financiamento. Em um ambiente de juros elevados, preservar a capacidade de gerar retorno acima do custo do capital passa a ser determinante para sustentar novos ciclos de investimento, competitividade e criação de valor.
Dívida controlada
Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que não há um quadro de deterioração financeira generalizada das companhias abertas.
A dívida líquida corresponde a 1,7 vez o EBITDA, bem abaixo do pico de 4,3 vezes registrado em 2015, enquanto apenas 5,3% das companhias apresentam relação dívida líquida/EBITDA superior a cinco vezes, o menor porcentual de toda a série histórica. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) permaneceu em 13,4%, com contribuição positiva da alavancagem financeira para o retorno aos acionistas.
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Esses resultados são reflexos do redirecionamento do esforço das empresas, que deixam de realizar investimentos para proteger o balanço e preservar sua liquidez, explica Machado, do Safra. “Boa parte das empresas passou a concentrar os esforços na reorganização do passivo: alongamento dos vencimentos, refinanciamento de dívidas, redução da exposição ao curto prazo e fortalecimento de caixa.”
O exigível financeiro das companhias analisadas alcançou R$ 2,8 trilhões no primeiro trimestre de 2026, dos quais 44,8% correspondem a instrumentos do mercado de capitais, como debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA) e bonds (títulos de renda fixa). O porcentual confirma o avanço da desintermediação financeira observada nos últimos anos, com redução gradual da dependência do crédito bancário tradicional. Essa diversificação de financiamento também colabora para evitar uma maior deterioração da dívida, aponta Troster, do CEFEB.
Contudo, o levantamento identifica sinais de pressão sobre a geração operacional de caixa. A margem EBITDA sobre a receita operacional líquida recuou para 10,2%, abaixo dos níveis observados entre 2021 e 2024, enquanto a cobertura de juros caiu para 2,1 vezes, o que sugere menor capacidade das empresas de suportar o aumento das despesas financeiras.
O que isso significa para o investidor
O estudo denota que o momento atual está menos voltado à geração de valor por meio do crescimento e mais focado na manutenção da disciplina financeira e da capacidade de pagamento.
Para Machado, do Safra, isso não é necessariamente negativo, porque menos investimento e mais liquidez podem reduzir o risco para os investidores no curto prazo. “Mostra que as empresas estão cautelosas quanto ao cenário econômico.”
Contudo, a qualidade do investimento passa a depender mais da capacidade de cada empresa de administrar seu passivo, preservar caixa e atravessar esse período sem comprometer a operação. Ou seja, é necessário garimpar mais para achar companhias que geram valor no atual cenário da economia, diz Troster, do CEFEB.
Não estamos em uma situação na qual todas as empresas ganham e nem em uma alta do mercado. Para a bolsa se valorizar, precisa ter uma mudança forte na politica econômica – Roberto Troster, coordenador do CEFEB
O cenário interno de juros elevados é agravado pelo choque externo do conflito entre Irã e Estados Unidos, aponta o coordenador do CEFEB. “Acredito que os juros caiam até 13,5%, o que é, na margem, um alívio. O dólar baixo deve ajudar a segurar a inflação. Mas o problema é que a atividade econômica não demonstra sinais de crescimento.”
Sobre a temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26), Ruy Hungria, analista de ações da Empiricus, não espera grandes mudanças na comparação com o primeiro trimestre, dado que o ambiente da economia de um foi muito parecido com o do outro em termos de juros e atividade econômica. “Esperamos um cenário desafiador de maneira geral, especialmente para as empresas mais cíclicas.”
Fonte: E-Investidor

