Por Estevão Taiar e Guilherme Pimenta — De Brasília
24/05/2023 05h01 Atualizado há 6 horas
O crescimento econômico no primeiro trimestre deste ano pode surpreender positivamente, mas isso não diminui o espaço para que o Banco Central (BC) corte a taxa básica de juros. A avaliação é da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, que divulgou ontem o Boletim Macrofiscal, com as projeções econômicas mais recentes da pasta.
Nos cálculos da SPE, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,2% nos três primeiros meses de 2023, na comparação com o último trimestre do ano passado e já livre de fatores sazonais.
Mas, segundo a subsecretária de Política Macroeconômica, Raquel Nadal, indicadores divulgados nos últimos dias que não chegaram a ser incorporados na projeção colocam um viés de alta para a estimativa. Os indicadores em questão são: Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) e as pesquisas mensal de serviços e industrial realizadas pelos IBGE, todos referentes a março. O resultado do PIB do primeiro trimestre será divulgado oficialmente pelo IBGE em 1º de junho.
O secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, destacou positivamente o desempenho da safra agrícola e o “mercado de trabalho resiliente, com geração de empregos acima da expectativa”. “Mas essa resiliência não significa um mercado de trabalho [demasiadamente] aquecido, e sim um mercado de trabalho que cresce em ritmo de recuperação.”
Justamente por isso, as melhores perspectivas para a atividade não são algo “incompatível” com quedas na taxa básica de juros, segundo o secretário. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano.
De acordo com ele, não há “pressões inflacionárias” vindas de salários ou do setor de serviços – fatores que poderiam impedir o corte da taxa básica. Além disso, embora em alguns aspectos a inflação mostre “resiliência”, também é possível observar quedas “expressivas” no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses, na trajetória de preços no atacado e nos núcleos (medidas que excluem itens com preços mais voláteis).
O secretário ainda afirmou que o “mercado de crédito é o principal fator que explica a desaceleração da economia brasileira neste ano”, justamente por meio dos “efeitos defasados da política monetária”. “O processo de desaceleração da inflação tende a permanecer.”
Apesar disso, a SPE revisou ligeiramente para cima as suas projeções para a inflação no ano que vem. A estimativa para o IPCA subiu de 3,52% para 3,63%. O número é inferior à projeção mediana do mercado, que está em 4,13%, segundo o Boletim Focus coletado com dados da semana passada.
Para conduzir a Selic, o BC mira neste momento justamente 2024, para o qual a meta de inflação é 3%, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Segundo Mello, caso o IPCA realmente alcance 3,63%, “é bem provável que os núcleos” terminem o ano que vem na meta de 3%.
No acumulado de 12 meses até abril, o IPCA estava em 4,13%, mas a expectativa de governo e setor privado é que o indicador suba até o fim do ano, por causa de fatores estatísticos relacionados às desonerações sobre combustíveis implantadas em 2022. O próprio Ministério da Fazenda projeta, por exemplo, que o índice terminará 2023 em 5,58%.
Já a projeção da SPE para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) subiu de 3,3% para 3,44% e a projeção para o crescimento do PIB em 2024 foi mantida em 2,3%. As estimativas da SPE para 2023 já tinham sido divulgadas na segunda-feira.
Fonte: Valor Econômico
