19/07/2022 05h00 Atualizado há 6 horas
Sinal de alerta para a economia global acendeu na semana passada quando o governo chinês informou que o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 0,4% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período de 2021, e caiu 2,6% frente ao primeiro trimestre. A forte desaceleração surpreendeu e mostra o impacto da política chinesa de “covid zero”, que determinou o lockdown e extensas quarentenas durante a maior parte de abril e maio de Xangai, a maior e mais importante cidade chinesa, e uma das maiores do mundo, com mais de 28 milhões de habitantes.
Acredita-se que a economia chinesa não vai se recuperar com a mesma agilidade que demonstrou em 2020, quando eclodiu a pandemia do coronavírus em Wuhan. No primeiro trimestre daquele ano, o PIB chinês caiu 6,8%. Já no seguinte crescia 3,2% e, um ano depois, disparava 18,3%, com os negócios a todo vapor para atender a demanda global de produtos inclusive de uso médico.
Desta vez há alguns sinais preocupantes. Um deles vem do mercado imobiliário, cujos problemas não se restringem ao conhecido caso da incorporadora Evergrande, mas começaram com ele. Medidas do governo chinês para conter as dívidas excessivas das incorporadoras imobiliárias provocaram a desaceleração do mercado imobiliário residencial, que afugentou os compradores. Há uma crise de confiança na população que reluta em gastar com imóveis diante da estagnação da renda. Do seu lado, as empresas do setor desaceleraram os investimentos, temendo novos lockdowns. O cenário internacional também não é favorável com a perspectiva de elevação dos juros nos mercados europeu e americano e de recessão global, o que prejudica a receita com as exportações.
Outro fator negativo é o desemprego elevado para os padrões chineses. Em junho, a taxa foi de 5,5%, uma melhora em relação a abril e maio, mas perto do nível mais alto desde que o país começou a divulgar os números em 2018. Junto à população mais jovem, de 16 a 24 anos, a taxa é mais do que o triplo, de 19,3%.
Diante desse quadro, especialistas na economia chinesa estão revisando para baixo as estimativas para o ano. A meta oficial, de crescer 5,5% parece impossível de ser atingida uma vez que exigiria um aumento de pelo menos 8% do PIB a cada trimestre até o fim do ano. Para os especialistas, o mais provável é que o crescimento fique entre 3% e 4%. Antes dos resultados do segundo trimestre, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa 4,4%.
Se as estimativas mais pessimistas se confirmarem, o resultado não é bom para o mundo, uma vez que a economia chinesa é considerada uma de suas locomotivas. É especialmente negativo para o Brasil, grande fornecedor de commodities para o mercado chinês. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. No ano passado comprou US$ 87,7 bilhões, absorvendo 31,3% das exportações brasileiras e suprindo 21,7% das importações. O problema é que nossas exportações são concentradas em alguns produtos (Valor 10/7). Em valores, a China absorveu 70,4% da soja exportada pelo Brasil, 69,7% do minério de ferro, 56,2% da carne bovina congelada desossada e 46,6% do petróleo. O Brasil foi o maior fornecedor de soja e carne bovina desossada congelada para a China, o segundo de minério de ferro e o sétimo de petróleo.
Do lado positivo, alguns indicadores econômicos chineses deram sinais de recuperação em junho, quando governo retirou as restrições feitas por conta da covid-19, o que pode melhorar os resultados do terceiro trimestre. As vendas no varejo aumentaram 3,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, recuperando-se de uma queda de 6,7% em maio, surpreendendo positivamente, mas com queda de 0,7% no primeiro semestre. A produção industrial cresceu 3,9%, acelerando em relação ao crescimento de 0,7% em maio, e 3,4% no semestre. O investimento em ativos fixos teve expansão de 6,1% no primeiro semestre do ano, ligeiramente abaixo do aumento de 6,2% no período de janeiro a maio, mas acima do projetado. As exportações chinesas também ganharam espaço, mas essa é uma conta que depende muito do cenário global, afetado pelas políticas destinadas a combater a inflação.
Há ainda que se levar em conta que o governo pode acelerar os investimentos públicos. Pequim costuma fazer pesados investimentos em infraestrutura para estimular a economia e essa estratégia é bastante possível neste momento em que o presidente Xi Jinping busca um terceiro mandato presidencial, e não gostaria de ver tensões sociais e econômicas neste momento.
Fonte: Valor Econômico