Por Gabriel Roca, Victor Rezende, Matheus Prado e André Mizutani — De São Paulo
19/07/2022 05h02 Atualizado há 6 horas
O estresse observado no mercado de juros se aprofundou ainda mais e as taxas futuras, que já estavam nas máximas do ano, passaram a operar na casa de 14%. O mercado tem exigido cada vez mais prêmio pelos ativos brasileiros, na esteira de uma piora na percepção de risco fiscal e de um cenário externo mais adverso. Nesse processo, o dólar voltou a subir contra o real e as taxas das NTN-Bs tiveram um novo dia de forte alta.
Mais sensíveis ao noticiário fiscal, os mercados de juros têm sofrido duramente nas últimas semanas. Com a aprovação da “PEC das bondades” no foco, em um momento de atividade econômica ainda resiliente, o mercado tem colocado nos preços cenários em que a Selic terá de subir ainda mais e se manter em níveis bastante elevados por um período maior. Não por acaso, a taxa do DI para janeiro de 2024 saltou de 13,77% para 14%.
“Estímulos em uma economia aquecida acabam se traduzindo em mais inflação. E isso acabou sendo captado no Focus, em que as projeções para 2023 voltaram a subir”, observa o economista-chefe do Modal, Felipe Sichel. De acordo com o Boletim Focus, a mediana das expectativas para o IPCA de 2023 subiu de 5,09% para 5,20%, bem acima do teto da meta (4,75%), enquanto o ponto-médio das estimativas para o IPCA de 2024 se manteve em 3,30%.
Além disso, ele nota que a PEC gera uma série de incertezas sobre a trajetória das contas públicas no país, diante da deterioração do arcabouço fiscal que era praticado desde a implementação do teto de gastos. “Isso tudo se transforma em maior prêmio de risco e na necessidade de mais juros por mais tempo”, afirma Sichel. Por ora, o Modal mantém sua projeção para a Selic em 13,75% no fim do ano, apesar de reconhecer que a probabilidade de uma taxa de 14,25% aumentou.
Aos poucos, economistas de mercado têm migrado para projeções ainda mais agressivas quanto à evolução da Selic. Na semana passada, Santander e Bahia Asset já haviam apontado para um juro básico de 14,25% no fim do atual ciclo de aperto. Ontem, foi a vez de Quantitas e Credit Suisse revelarem novas estimativas para a taxa.
O economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, aponta que a gestora passou a esperar um aumento final de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, ou seja, a taxa terminaria o ciclo em 14%. “Essa alta final, de mais 0,25 ponto, é adequada do ponto de vista fundamental de controle da inflação e é um ritmo que é muitas vezes utilizado como uma sinalização do Banco Central para indicar o fim do ciclo”, observa o profissional.
Já os economistas Solange Srour, Lucas Vilela e Rafael Castilho, do Credit Suisse, passaram a esperar que a Selic termine o ciclo apenas em outubro, em 14,25%. O banco acredita, assim, que a autoridade monetária efetuará uma alta de 0,5 ponto em agosto, seguida de mais dois aumentos de 0,25 ponto.
“Entendemos que, ao manter vivo o ciclo de aperto, ainda que em ritmo mais lento, o Copom minimiza o risco de que a política monetária perca credibilidade, porque continuaria a indicar que o BC se mantém preocupado com a convergência da inflação para a meta, ao mesmo tempo em que ganha tempo adicional para avaliar como a dinâmica da inflação evoluirá”, afirmam os profissionais do Credit.
Enquanto as revisões altistas das projeções de Selic não param de pipocar no mercado, o aumento dos riscos fiscais tem se refletido, em especial, na disparada dos juros reais, extraídos das NTN-Bs, títulos públicos atrelados ao IPCA. A taxa da NTN-B para maio de 2055 saltou de 6,199% para 6,321%, de acordo com a Renascença. Já no mercado de câmbio, o dólar encerrou os negócios cotado a R$ 5,4247, em alta de 0,37%.
Cabe apontar, ainda, que, nos últimos dias, houve relatos de pressão vendedora de papéis prefixados de longo prazo (NTN-Fs), o que gerou pressão altista na ponta longa da curva de juros. Além disso, os prêmios exigidos pelos agentes pelas NTN-Fs têm operado em níveis historicamente elevados. Ontem, a taxa do DI para janeiro de 2029 subiu de 13,09% para 13,36%.
“Se os mercados só avaliassem o que muda no futuro imediato, e acreditassem que ele seria apenas um ‘aumento transitório’ da despesa financiado por receitas extraordinárias, os preços dos ativos não teriam refletido o aumento do risco. Porém, o quadro é muito diferente”, apontam os economistas da A.C. Pastore & Associados.
Eles apontam para o quadro de desaceleração da economia mundial forte, o que pode reduzir os preços do petróleo, além da probabilidade de recessão no Brasil, que deve gerar um mau desempenho da receita da União e dos Estados em 2023. A consultoria aponta, ainda, que “seria ingênuo imaginarmos que, com o Brasil em recessão, os gastos com a suposta ajuda emergencial de R$ 200 (levando o Auxílio Brasil a R$ 600) seriam cortados, e que os benefícios agora pagos a quem estava anteriormente ‘na fila’ serão reduzidos”.
Dado esse cenário, a A.C. Pastore aponta que o quadro fiscal consiste em uma tendência de queda das receitas e em despesas que supostamente podem se transformar em permanentes. “A reação atual dos preços dos ativos é, apenas, uma primeira advertência, à qual se seguirão outras”, alertam os economistas da consultoria.
Ao contrário dos demais mercados, o Ibovespa terminou o pregão de segunda-feira em leve alta, ao ser apoiado por empresas ligadas a commodities. As ações ordinárias da Petrobras ganharam 3,33% e as preferenciais subiram 2,29%, em um movimento alinhado à alta de 5% do petróleo tipo Brent. Já o avanço do minério de ferro deu apoio aos papéis ordinários da Vale, que fecharam em alta de 0,53%.
Em Nova York, os índices acionários até abriram a sessão em terreno positivo, com balanços corporativos fracos, mas ainda assim melhores que o esperado, o que alimentou um otimismo contido em Wall Street. O bom humor dos agentes, porém, perdeu força ao longo da tarde, após a agência “Bloomberg” informar que a Apple pretende diminuir investimentos e contratações em 2023.
As ações da Apple caíram 2,06% no dia. E, após a publicação da notícia, também os índices acionários de Nova York perderam fôlego. O Dow Jones fechou a sessão em queda de 0,69%, a 31.072,61 pontos, enquanto o S&P 500 recuou 0,84%, a 3.830,85 pontos. Já o Nasdaq caiu 0,81%, a 11.360,05 pontos. No S&P 500, as ações do setor de tecnologia perderam 1,09%, acompanhando a queda da Apple.
Fonte: Valor Econômico
