Por Mariana Ribeiro — De São Paulo
05/07/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
A proposta de emenda à Constituição (PEC) que eleva o valor do Auxílio Brasil, dobra o vale-gás e cria um novo benefício voltado para caminhoneiros pode dar um “fôlego adicional à economia”, mas mostra que o país está “mais uma vez destruindo a regra fiscal e piorando seu arcabouço institucional”, afirma a economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour.
Ontem, na Live do Valor, ela destacou que a expansão fiscal prejudica o processo de desinflação e deixa o Banco Central (BC) em uma situação ainda mais difícil na condução da política monetária. A PEC foi aprovada no Senado e ainda precisa passar pela Câmara. Somadas, as medidas contidas no texto custarão aos cofres públicos R$ 41,3 bilhões este ano, montante que ficará fora do teto de gastos.
“Isso vai trazer o seu preço na forma de um prêmio de risco maior”, afirma a economista. “A gente tem um prejuízo de médio prazo significante que ainda não está precificado nos mercados.”
Srour diz que o problema não é aumentar o programa social, mas fazer isso de forma não sustentável. “Por que não fazer um programa realmente focado em quem mais precisa?”, questionou, acrescentando que a proposta parece dar continuidade a um formato temporário que foi elaborado às pressas durante a pandemia. “A gente poderia estar discutindo o que diversos países estão fazendo, subsídios realmente aos preços dos combustíveis, ao transporte público. Agora, um aumento do programa social tem que ser feito de forma focalizada e olhando o médio prazo.”
Com o pacote, a projeção do Credit Suisse para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2022 é de 1,4%, com viés de alta. Já a perspectiva para o próximo ano está pior: foi de 0,9% para 0,2%. O crescimento de médio prazo dependerá do que o próximo governo, seja ele qual for, colocará no lugar do teto de gastos, acrescenta. Para ela, esta é uma eleição na qual não está sendo delineado “nenhum programa econômico”. “Temos visto várias promessas, mas sem realmente entendermos o que vai ser levado ao Congresso, qual será a proposta.”
Em relação à política monetária, disse entender que o BC indicou o fim do processo de alta dos juros, com uma elevação de mais 0,5 ponto percentual na próxima reunião, para 13,75% ao ano, e manutenção da taxa em patamar alto por bastante tempo, visando trazer a inflação para perto da meta em 2023 e para a meta em 2024.
“Acho que essa é a mensagem que o BC está tentando passar, mas que não está sendo corroborada pelas expectativas do mercado”, avalia. O Credit Suisse tem uma expectativa de inflação para 2023 de 5,9%. O BC trabalha com 4%. “Não acho que 13,75% é uma taxa que vai trazer a inflação ao redor ou abaixo de 4% em 2023.”
Ela afirma ainda que, se a autoridade monetária continuar estimando uma inflação muito baixa, ficará difícil acreditar que continuará mantendo os “juros apertados por um período significativo quando a economia começar a desacelerar de verdade”.
Para a economista, o BC indicou o fim do ciclo de alta em um cenário desconfortável, com atividade econômica dando sinais de força, expectativas de inflação em alta, falta de uma âncora fiscal e ambiente internacional desafiador.
Sobre o processo de aperto monetário nos Estados Unidos, disse que o Federal Reserve (Fed) está colocando o controle da inflação em primeiro plano, a despeito do medo de recessão.
Fonte: Valor Econômico
