O intervalo de 12 meses que separam as duas visitas de Johanna Chua, head de Research para Emerging Markets do Citi, ao Brasil marcam uma mudança relevante no sentimento do mercado financeiro para com as economias emergentes.
Em 2025 predominava o otimismo impulsionado por um ciclo de dólar mais fraco e rotação de portfólios globais que levava o capital internacional para além dos Estados Unidos. Este ano, no entanto, a combinação de risco geopolítico, precificação de juros mais altos por mais tempo e uma nova euforia com a tese de inteligência artificial (IA) direcionou investidores globais de volta ao maior mercado do mundo.
“Talvez tenhamos subestimado a força da economia americana. Quando as empresas apresentam resultados fortes, isso também aumenta o otimismo em relação aos planos de investimento, especialmente em tecnologia e inteligência artificial. Essa é a narrativa que hoje sustenta novamente o excepcionalismo americano”, diz a executiva.
Os dados do primeiro semestre de 2026 ilustram essa dinâmica de redirecionamento de fluxos: a B3 recebeu de janeiro a março R$ 53,83 bilhões de capital estrangeiro, mas viu a saída de R$ 17,4 bi de abril a junho.
Johanna Chua, head de research para Emerging Markets do Citi (Foto: Ricardo Hara) Foto: HARA FOTOGRAFO
Na visão de Chua, o novo cenário deve fazer investidores globais ficarem mais seletivos com emergentes. Isso significa que aquele otimismo que promoveu alta generalizada nesses mercados em 2025 e nos meses iniciais deste ano deve dar lugar a uma seleção mais específica das teses de investimento.
Países com exposição à IA, como os asiáticos, saem na frente. Aqueles que seguem com boas histórias de carry trade (operação com base na diferença entre taxas de juros de dois países) também tendem a se beneficiar.
O Brasil, fraco em tecnologia e com a desancoragem das expectativas de inflação colocando o ciclo de cortes na Selic em risco, pode ficar fora dos dois grupos. “Durante muito tempo, o País foi um dos principais destinos das estratégias de carry trade graças a uma combinação muito favorável entre juros elevados e melhora dos termos de troca. Parte dessa vantagem desapareceu”, destaca.
A história brasileira ficou um pouco mais complexa. Para que os investidores voltem a olhar com mais força para cá, seria necessário que tese da IA se enfraquecesse.
Johanna Chua, head de Research de Emerging Markets do Citi
Chua esteve no Brasil para o Equity Conference 2026, evento anual promovido pelo Citigroup, onde conversou com o E-Investidor. Confira os trechos principais da entrevista:
E-Investidor – Desde a última Equity Conference do Citi, há um ano, o cenário para emergentes mudou. Depois de meses de dólar mais fraco e maior entrada de capital nesses mercados, após a guerra contra o Irã, o foco voltou a ser Estados Unidos. Como você interpreta essa mudança?
Johanna Chua – A guerra, por si só, era um choque positivo para os EUA, que é um exportador de energia. Mas o que realmente recolocou em evidência a tese do excepcionalismo americano foi a temporada de balanços corporativos. Os resultados surpreenderam de forma muito positiva e com bastante força.
Acho que talvez tenhamos subestimado a força da economia americana e naturalmente, quando as empresas apresentam resultados fortes, isso também aumenta o otimismo em relação aos planos de investimento, especialmente em tecnologia e inteligência artificial. Essa é a narrativa que hoje sustenta novamente o excepcionalismo americano.
E há um segundo fator, e esse sim pode ser questionado, é o receio de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) adote uma postura mais hawkish (conservadora). Esse ponto ainda está em aberto. Houve uma reprecificação muito rápida das expectativas de juros, que passaram de cortes para novas altas e muito disso gira em torno da possível indicação de Kevin Warsh para a presidência do Fed.
O viés do Citi continua sendo mais dovish (arrojada), mas reconheço que será difícil cortar juros neste momento.
O excepcionalismo americano deve continuar ditando os rumos do mercado no segundo semestre?
Se o Fed mantiver os juros estáveis e o risco geopolítico relacionado ao Irã realmente desaparecer, o ambiente para ativos de risco pode voltar a ser bastante favorável. Durante o período em que o conflito dominou as preocupações dos investidores, o apetite por risco ficou extremamente concentrado. Praticamente só havia espaço para inteligência artificial e, em alguma medida, para o setor de energia.
Se conseguirmos eliminar esse risco geopolítico e, ao mesmo tempo, Kevin Warsh não surpreender com um discurso excessivamente duro, acredito que o apetite por risco pode voltar a se ampliar. Nesse caso, poderíamos assistir novamente a um movimento de diversificação para uma gama mais ampla de ativos de risco e até mesmo ao retorno das operações de carry trade.
São cenários difíceis de prever – se a guerra realmente chegar ao fim, se o Fed não subir juros – e que podem impulsionar os emergentes em direções bem distintas. Como precificar esses riscos?
As narrativas que impulsionam os emergentes estão mudando. Esses mercados sempre se beneficiaram do choque positivo dos termos de troca. A combinação de juros elevados e melhora dos termos de troca era o que fazia tantos investidores gostarem do Brasil, por exemplo. A estratégia clássica era ficar comprado em América Latina e vendido em Ásia, justamente porque a região se beneficiava muito mais do ciclo de commodities. Agora isso está mudando.
Os investidores podem começar a olhar também para países importadores líquidos de commodities que ofereçam juros elevados. Vou dar um exemplo bem específico: depois do acordo envolvendo o Irã e da mudança nas nossas projeções para o petróleo, passamos a recomendar posição comprada em títulos do Egito. O Egito importa energia, mas oferece um rendimento muito elevado. Se você acredita que o preço do petróleo deixará de representar um risco relevante, também diminui a preocupação de que a libra egípcia sofra uma forte desvalorização.
Investidores estão ficando mais confortáveis para buscar retorno nesses países, o que amplia a estratégia de carry trade para além dos países exportadores de commodities.
Mas os mercados emergentes não são uma classe de ativos homogênea. Esse é o primeiro ponto. Com a inflação cedendo, pode haver uma recuperação mais ampla da demanda doméstica, permitindo que os investidores voltem a olhar para outros países.
Se esse cenário abrir espaço para uma postura menos hawkish dos bancos centrais, será preciso identificar quais países realmente terão condições de flexibilizar a política monetária. E aí começa uma diferenciação importante entre as economias que realmente se beneficiarão desse processo e aquelas que continuam enfrentando pressões inflacionárias de natureza doméstica.
Os juros também seguem elevados no Brasil, mas o carry trade não tem convencido investidores globais nos últimos meses. Por que?
A história do Brasil também mudou. Durante muito tempo, o País foi um dos principais destinos das estratégias de carry trade graças a uma combinação muito favorável entre juros elevados e melhora dos termos de troca, o que sustentava uma visão bastante positiva para o real.
Agora, parte dessa vantagem desapareceu. O Brasil continua oferecendo um carry elevado, mas passa a disputar espaço com outros mercados, porque, até pouco tempo atrás, praticamente ninguém queria investir em países importadores líquidos de commodities, mesmo aqueles que ofereciam juros altos. Com a queda do petróleo, esses mercados voltam a ficar mais atrativos e a competir com o Brasil.
Além disso, o País entra em um período eleitoral, o que naturalmente adiciona prêmio de risco e aumenta a volatilidade. E não tem tanto a ver com a guerra: o repasse da alta da energia aos preços foi relativamente limitado e grande parte da dinâmica inflacionária hoje está muito mais ligada às preocupações fiscais e às eleições do que propriamente ao petróleo.
Isso torna a história brasileira um pouco mais complexa. Quando os investidores começaram a buscar diversificação para fora dos Estados Unidos, um dos principais fatores que despertavam entusiasmo em relação ao Brasil era justamente a perspectiva de cortes de juros. Sem isso, o Brasil ficou menos atraente relativamente.
O que os investidores precisariam ver para voltar a ter uma visão mais construtiva sobre o Brasil?
As eleições são um fator importante. Não estou expressando nenhuma opinião política, mas, do ponto de vista das expectativas do mercado, existe uma preferência pela vitória da oposição enquanto as pesquisas de opinião caminham em outra direção.
Uma queda mais consistente das expectativas de inflação abriria espaço para um ciclo mais prolongado de cortes de juros. Mas o mercado continua esperando por reformas estruturais. Muitos investidores apostam que, depois das eleições pode haver alguma agenda de reformas capaz de restaurar maior confiança na sustentabilidade da dívida pública e na condução da política fiscal. Sem isso, fica muito difícil construir uma tese positiva para o País.
Commodities também são um fator importante. O Brasil possui reservas importantes de terras raras e de diversos outros minerais estratégicos. O problema é que hoje é muito difícil competir com a narrativa da inteligência artificial, porque o diferencial de crescimento dos lucros entre empresas americanas e o restante do mundo é enorme.
Para que os investidores voltem a olhar com mais força para mercados como o Brasil, provavelmente seria necessário algum enfraquecimento dessa história ligada à IA, mas ninguém tem coragem de dizer que esse ciclo parece estar perto do fim.
Fonte: E-Investidor

