O ouro segue sem direção definida em 2026, sustentado pela retomada das compras de bancos centrais, mas pressionado pela venda contínua de fundos negociados em bolsa (ETFs) diante do receio de que o Federal Reserve volte a elevar juros, avalia o Morgan Stanley em relatório assinado pela estrategista de commodities Amy Gower. A prata enfrenta dinâmica semelhante nos ETFs, com o agravante de uma demanda industrial mais fraca, sobretudo no setor solar. Para o banco, há espaço de valorização para os dois metais — estimada em cerca de 11% para o ouro e 16% para a prata até o fim do ano —, mas condicionada a que o Fed evite um novo aperto monetário.
Os ETFs responderam por 20% da demanda de ouro e 15% da de prata em 2025, quando os cortes de juros impulsionaram a busca por metais preciosos. Neste ano, porém, o cenário se inverteu: com o conflito no Oriente Médio e a reprecificação do mercado em direção a altas de juros, os fundos passaram a vender. Os dados do World Gold Council mostram que os ETFs de ouro adicionaram apenas 18 toneladas entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, com vendas líquidas em todas as regiões em junho, num total de 74 toneladas. A América do Norte liderou o movimento, com saída de 42 toneladas no mês.
No lado oposto, a demanda oficial ganha tração. O PBoC, banco central chinês, comprou ouro por 20 meses consecutivos e acumula 40,1 toneladas no ano, acima das 25,8 toneladas de todo o FY25. A Polônia adquiriu 63,6 toneladas e o Uzbequistão, 32,7 toneladas — ante 7,8 toneladas em 2025. Na ponta vendedora, a Turquia se desfez de reservas para defender a lira, mas as vendas desaceleraram para 2,7 toneladas em maio, enquanto a Rússia vendeu 34,2 toneladas no ano em meio ao aumento do déficit fiscal.
O quadro técnico, contudo, é um obstáculo de curto prazo. O ouro negocia abaixo da média móvel de 200 dias e, em meados de julho, a média de 50 dias cruzou para baixo da de 200 dias, formando um “death cross” — configuração que tende a levar fundos sistemáticos (CTAs) a vender nas altas. Ainda assim, o posicionamento não comercial na Comex voltou a subir, sugerindo que investidores macro discricionários estão reconstruindo exposição, ancorados na narrativa estrutural de déficits fiscais e diversificação de reservas. O Morgan Stanley projeta o ouro a US$ 4.450 a onça no quarto trimestre.
Para a prata, o banco chama atenção para o rompimento das correlações históricas: a ligação com o cobre caiu de 95% no segundo semestre de 2025 para praticamente zero, enquanto a correlação com o ouro recuou de 98% para 79%. O setor fotovoltaico, que representou 17% da demanda de prata em 2025, deve encolher 19% neste ano, segundo o Silver Institute, à medida que a produção solar desacelera e a substituição por cobre avança. A relação ouro/prata voltou a 70 vezes, em linha com as estimativas de longo prazo do banco, que prevê a prata a US$ 65,40 a onça no quarto trimestre.
A conclusão do Morgan Stanley é que, tanto para o ouro quanto para a prata, a reentrada dos ETFs — fator decisivo para ambos — exigirá maior confiança de que o Fed pelo menos manterá os juros estáveis e caminhará para cortes em 2027. O dado de inflação (CPI) mais brando de junho reforça a leitura, de viés fora do consenso, de que a desinflação começou, mas o banco pondera que um único mês não configura tendência e que a reescalada no Oriente Médio adiciona incerteza à trajetória de juros.
Fonte: Relatório de research do Morgan Stanley, da divisão metal&ROCK | Europe, intitulado “Gold and Silver: When Will ETF Buying Resume?”, datado de 20 de julho de 2026.
