A tese de dólar mais forte, que predominou nos mercados globais desde o início de junho, começou a ser testada pelos investidores e deu alguns sinais de estabilização nos últimos dias.
Ainda que os preços do petróleo apontem para um fortalecimento adicional da moeda americana, dados abaixo do esperado nos Estados Unidos enfraqueceram a urgência em torno de um aperto iminente dos juros. Foi nesse contexto que participantes do mercado passaram a testar a tese de dólar forte, em meio a sinais de que o posicionamento técnico comprado na moeda americana ficou excessivamente carregado.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a outras moedas principais, encerrou a semana em queda de 0,19%, aos 100,765 pontos. Além disso, a divisa americana mostrou estabilização ou fraqueza frente a diversas moedas de mercados emergentes, como o real, o peso colombiano, o peso chileno e o rand sul-africano.
“Tem havido muita discussão recentemente sobre se as posições compradas em dólar já estariam excessivamente esticadas”, observa a estrategista de câmbio Jane Foley, do Rabobank, ao observar que a moeda americana apresentou um desempenho muito forte desde o início da guerra entre EUA e Irã.
“No início do ano, as perspectivas para o dólar estavam comprometidas pelo sentimento negativo do mercado. Isso sugere que a valorização da moeda americana motivada pela busca por ativos de proteção no início do conflito provavelmente foi reforçada pela cobertura de posições vendidas (“short covering”)”, avalia Foley. “Em seguida, a partir do fim de maio, uma nova onda de compras provavelmente foi impulsionada pelo aumento das expectativas de uma postura mais dura do Federal Reserve (Fed).”
Ao avaliar os dados da CFTC em relação ao posicionamento técnico dos investidores no dólar, Foley avalia que ainda existe espaço para um aumento adicional de posições compradas em dólar, mas destaca que o comportamento recente dos preços dos ativos “indica que o movimento perdeu força” e, nesse sentido, o Rabobank tem favorecido um cenário de “movimentos laterais e voláteis” no par euro-dólar, em torno de US$ 1,14, em um horizonte de um a três meses. Na sexta-feira, o euro terminou o dia negociado a US$ 1,1437.
Em nota enviada a clientes, a chefe de estratégia global de câmbio do J.P. Morgan, Meera Chandan, também observa que o desmonte de posições tem sido um dos principais fatores por trás da dinâmica no mercado de câmbio, e não necessariamente vetores econômicos, como a surpresa baixista do índice de preços ao consumidor (CPI) dos EUA, ao mostrar uma deflação em junho mais intensa do que indicavam as expectativas consensuais do mercado.
“Nossos indicadores de posicionamento em dólar vêm aumentando desde maio, alcançando, em média, 1,5 desvio-padrão na semana passada. Como era esperado, a magnitude da surpresa baixista do CPI de junho nos EUA pressionou parte dessas posições compradas em dólar, e o comportamento dos preços na semana que passou esteve amplamente em linha com as medidas prévias de fluxo e posicionamento”, diz Chandan.
Isso, na visão da estrategista, indica um desmonte parcial de alguns “trades” mais consensuais do mercado. Ela menciona como exemplos posições compradas em florim húngaro e rand sul-africano, e vendidas em dólar neozelandês e em dólar canadense.
“Nossa visão construtiva para o dólar sempre pressupôs novas altas de juros pelo Fed e, portanto, dependia da evolução dos dados econômicos americanos. Os acontecimentos da semana que passou não favoreceram essa narrativa, já que o relatório de emprego divulgado há duas semanas veio abaixo do consenso e foi seguido por um CPI surpreendentemente benigno. Ainda assim, a mensagem do relatório de emprego continuou sendo de resiliência da economia, apesar da surpresa negativa em relação às expectativas”, diz a estrategista de câmbio do J.P. Morgan.
“Ainda assim, mesmo diante do CPI fraco, há motivos para manter uma visão construtiva para o dólar pelo menos até a próxima reunião do Fed”, defende Chandan, ainda que avalie que a valorização da moeda americana deva ser limitada daqui em diante devido à escassez de novos dados econômicos de peso. Para o banco, a fraqueza do dólar tende a encontrar suporte diante da possibilidade de um discurso mais duro por parte dos dirigentes do Fed.
Um banco central americano mais conservador também está no cenário-base defendido pelos profissionais do Bank of America e se soma à alta recente dos preços do petróleo e aos investimentos em inteligência artificial para sustentar a visão do estrategista Alex Cohen, que acredita em um fortalecimento adicional do dólar no segundo semestre. Vale lembrar, ainda, que o BofA ainda projeta três aumentos de 0,25 ponto percentual nos juros americanos neste ano, o que também aponta para um ambiente de valorização da divisa americana.
“A dinâmica do mercado de petróleo aponta para riscos de alta justamente em um momento em que Kevin Warsh [presidente do Fed] reforçou seu compromisso com uma inflação de 2%. Nossa visão para o dólar permanece inalterada, mesmo após o CPI”, afirma Cohen em nota enviada a clientes.
“Vemos o tema da inteligência artificial como um fator estruturalmente positivo para o dólar, já que a continuidade dos investimentos (capex) tende a sustentar o diferencial de crescimento da economia americana. Apesar da volatilidade recente do setor de tecnologia nos EUA, os fluxos líquidos globais para ações continuam apontando para o mercado americano”, observa Cohen.
“Além disso, os efeitos de primeira ordem da inteligência artificial podem reforçar um cenário de juros elevados por mais tempo pelo Fed. Os impactos sobre o mercado de trabalho jamais devem ser ignorados, embora, por enquanto, permaneçam limitados. Ao mesmo tempo, a expansão da infraestrutura e o aumento do uso da inteligência artificial apontam para pressões inflacionárias decorrentes dos custos dos insumos”, defende o estrategista.
Fonte: Valor Econômico

