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Trabalhadores estão ficando sem salário nenhum ao fim do mês devido a um excesso de descontos sobre os ganhos como reflexo, em parte, de empréstimos obtidos por meio da modalidade do consignado – outros descontos acabam também afetando o ganho final dos funcionários.
O tema foi debatido na segunda-feira por representantes do setor do atacado com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, em reunião realizada na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em São Paulo.
Em abril, um a cada quatro colaboradores do Assaí ficou com o salário zerado no contracheque por causa do que a rede chamou de um “empilhamento” de dívidas, que cresceu depois que o governo lançou, em março de 2025, um modelo de crédito consignado privado.
A informação foi repassada pelo presidente do conselho da Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviços (Abaas), Belmiro Gomes, para Alckmin. Outros associados presentes no encontro, de diferentes setores da economia, segundo apurou o Valor, também alertaram para uma onda de “holerites zerados” em suas empresas impulsionada pelo mesmo motivo. Gomes também é presidente da rede de atacarejo Assaí.
Na cadeia de atacarejo, são 22,1 mil empregados com salários zerados em abril, de um total de cerca de 90 mil colaboradores, segundo o material apresentado na reunião.
Acontece que os bancos ficam com os recursos dos consignados nas contas dos trabalhadores quando o salário é recebido mensalmente, mas além disso, há diversos descontos em folha – como vale refeição, vale transporte, plano de saúde e odontológico – e todos esses abatimentos, além de outros empréstimos pessoais descontados diretamente em conta bancária, estariam zerando os salários.
Por meio desse programa de consignado, qualquer trabalhador com carteira assinada pode fazer um empréstimo nesse modelo.
O trabalhador vê a melhor opção nos bancos, recebe ofertas e escolhe a instituição, que envia as informações do empréstimo aos empregadores. Em 12 meses, foram concedidos R$ 131 bilhões com juros médios ao mês de 4,48% – a taxa de juros básica da economia ao ano está em 14,5%.
“O programa trocou dívida cara por mais barata, mas, em parte dos casos, o que se viu foi só um amontoado de dívidas, com mais empréstimos novos se somando a velhos financiamentos nas folhas de pagamentos dos funcionários”, diz uma pessoa a par da reunião.
A soma total de valores devidos pelas pessoas físicas no país alcançou R$ 4,5 trilhões em fevereiro, uma alta de 40% desde 2023, posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o Banco Central (BC). Além disso, o total de pessoas inadimplentes no mesmo período cresceu de 70 milhões para 81,7 milhões, segundo a Serasa.
“O problema é cultural e atinge a baixa renda em múltiplas frentes simultâneas”, diz o material elaborado pela Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviços e entregue a Alckmin.
Na lista de negócios citados pela associação como nocivos estão as bets, rifas on-line, sorteios e premiações por SMS pago, redes sociais como cassino e loterias. “O brasileiro de baixa renda está sendo alvejado por múltiplos vetores de extração de renda e a política focada só em bets é insuficiente”, diz o material entregue a Alckmin. Na segunda-feira (4), o governo lançou a segunda edição do programa Desenrola para tentar reduzir a pressão do endividamento sobre a população.
Fonte: Valor Econômico