“Os jornalistas se negam a entrevistar Flávio Bolsonaro? Não. Pois os investidores também precisam ouvir quem quer que tenha expectativa de poder”. O desabafo de Marcelo Kayath se deu depois do bombardeio de mensagens a partir da nota, do colunista Lauro Jardim, de O Globo, sobre o jantar que o ex-presidente do Crédit Suisse e hoje sócio da QMS Capital ofereceu ao senador do PL do Rio em sua casa em Miami, na noite de segunda-feira.
Kayath era chamado de “comunista” por colegas investidores da Faria Lima quando criticava o ex-presidente Jair Bolsonaro e oferecia jantares para o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de 2022. Na tarde de terça-feira (5), contou ao Valor, aborrecido, que foi parabenizado por vários desses colegas. Alguns chegaram a dizer que seria ministro de um eventual governo Flávio Bolsonaro. “Sou contra fla-flu e não tenho medo de conversar com ninguém, critico quem tiver que criticar”, diz.
Indagado se havia recebido cobrança por “normalizar” o primogênito do ex-presidente, Kayath diz que não conversaria com o pai, a quem se mantém crítico. Lista os candidatos que recebeu, além de Lula, para quem fez jantares com empresários, e o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, de quem se aproximou pelo violão clássico, instrumento que lhe rendeu duas premiações internacionais, e se tornou amigo.
Kayath já recebeu duas vezes o pré-candidato do PSD, Ronaldo Caiado, quando este era governador de Goiás, Estado em que tem propriedades rurais, e o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia pelo União Brasil, ACM Neto. Para o ministro da Secretaria-geral da Presidência, Guilherme Boulos, não apenas fez jantares como o levou, pela mão, para o gabinete de dois banqueiros amigos durante a campanha pela Prefeitura de São Paulo, em 2024. E vai avisando que não exclui a possibilidade de voltar a encontrar nenhum deles.
O jantar nasceu do pedido de um amigo comum que estava de passagem por Miami. Kayath avisou que não havia votado no pai do senador, mas este amigo lhe respondeu que Flávio Bolsonaro queria encontrar justamente com quem não votou neles. Foi um jantar volante, desses em que a comida circula mais informalmente, para dez pessoas, de quem preserva os nomes. Quatro eram da comitiva bolsonarista.
Confessa ter achado o senador mais civilizado que o pai e que suas expectativas. Concordou com algumas propostas, como a de uma emenda à Constituição para pôr fim à reeleição, além de priorizar o investimento em tecnologia.
No jantar, o pré-candidato pelo PL à Presidência guardou sua contundência para criticar o Supremo Tribunal Federal (STF), que disse ter “excedido” suas atribuições, e elogiar o prende-arrebenta de Nayib Bukele, em El Salvador. O senador repetiu lá em Miami o que tem dito nos encontros privados: “Sou o Bolsonaro que se vacinou”.
“Não foi um evento de adesão política. Foi uma conversa civilizada. Ninguém se torna santo por andar com o papa nem bandido por passar perto de Marcola [Herbas Camacho, líder do PCC]”, diz Kayath, antes de concluir: “Eles [Flávio Bolsonaro] estão fazendo o jogo deles, o lado do presidente, me parece que não está”.
Fonte: Valor Econômico


