Por Eleanor Olcott, Qianer Liu, Gloria Li, Cheng Leng e Joe Leahy, Financial Times — Tóquio, Hong Kong e Pequim
18/12/2022 21h46 Atualizado há 12 horas
O surto de covid que tem varrido a China está causando rupturas generalizadas na atividade econômica, com a falta de pessoal ameaçando fechar as linhas de montagem das fábricas e caminhoneiros doentes trazendo o caos nas cadeias de fornecimento.
A variante ômicron começou a se espalhar de forma descontrolada por várias grandes cidades desde a súbita mudança da política de covid-zero do presidente da China, Xi Jinping, no início deste mês. A onda de novos casos da doença é maior na capital, Pequim, onde mais da metade de seus 22 milhões de habitantes está infectada, segundo algumas estimativas.
Muitos funcionários de escritório passaram a trabalhar em casa, e algumas fábricas começaram a sofrer com a falta de pessoal, à medida que funcionários deixam de comparecer porque estão doentes. Empresários e executivos disseram que isso está gerando transtornos cada vez maiores nas cadeias de produção e fornecimento.
O diretor de uma fábrica de placas de circuito impresso na província de Shandong, no leste, contou que apenas 20% dos funcionários foram trabalhar na sexta-feira, e os demais faltaram por estar com covid. “Um depois do outro, todos testaram positivo. Temo que precisarei fechar a fábrica”, disse.
As empresas não receberam orientação sobre como lidar com a onda de casos, depois de um período em que operavam sob diretrizes rígidas impostas pelos governos locais. Agora as fábricas ou relaxaram todos os controles ou isolaram suas equipes para manter as linhas de produção operando.
Um gerente de uma montadora de automóveis na província de Hebei, no norte, disse que seu grupo planeja restabelecer o sistema de “circuito fechado”, em que as equipes vivem e trabalham no local durante surtos de covid, a fim de manter a produção e também evitar o contágio. “Se não fizermos isso, ficaremos sem funcionários.”
Em outros locais, os gerentes das fábricas abandonaram restrições como a obrigatoriedade de testes PCR e o isolamento dos funcionários da população em geral.
Para o presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, Jörg Wuttke, depender do modelo de circuito fechado se tornará cada vez mais insustentável às fábricas. Ele disse que a enorme escala do movimento de saída e a falta de medidas para impedir sua propagação significam que essas estratégias não funcionarão mais.
Há alguns sinais de que a paralisação terá curta duração. A Foxconn, montadora da Apple, é uma das empresas que tem abandonado as restrições. Segundo um funcionário, sua fábrica de Zhengzhou — a maior produtora de iPhones do mundo — suspendeu suas notórias restrições e a produção está se recuperando.
Analistas estimam que as fábricas enfrentarão escassez de mão de obra até fevereiro, depois do feriado do Ano Novo Lunar. O surto da ômicron antecipou a movimentação de mais de 290 milhões de trabalhadores migrantes que todo ano costumam deixar os centros de produção, na costa, e voltar às regiões mais pobres do oeste do país às vésperas do feriado.
“Os setores que dependem de trabalhadores migrantes estão com dificuldades porque muitas pessoas já voltaram para casa, para o feriado do Ano Novo Chinês, que é só daqui a cinco semanas”, disse Chen Long, sócio do provedor de pesquisas Plenum, com sede em Pequim. “As coisas vão ficar bastante paradas até o fim de janeiro.”
Os gerentes das fábricas também enfrentam problemas com as cadeias de fornecimento. Wuttke, da Câmara de Comércio da UE, disse que o aumento do número de caminhoneiros cujos testes deram positivo para a covid seria desestabilizador. Sob a política de zero-covid, os motoristas eram submetidos a testes rigorosos, o que prejudicou as cadeias de fornecimento, mas manteve os motoristas doentes fora das estradas.
Algumas fábricas serão obrigadas a desacelerar a produção por causa da falta de componentes de fornecedores que tiveram de suspender suas operações. “Tudo isso é uma questão de estoques e inventário”, afirmou Wuttke.
Jacob Cooke, CEO da WPIC Marketing+Technologies, que opera vários armazéns por toda a China, conta que teve problemas com atrasos nas entregas porque os motoristas ficaram doentes. “As rotas de entrega entre as grandes cidades têm várias paradas onde os motoristas trocam cargas. Basta um motorista faltar porque está doente e as coisas são adiadas por mais um dia”, disse Cooke.
Uma varejista de cosméticos na cidade de Shenzhen, no sul, comentou que passou a sofrer com atrasos no envio de pacotes para os clientes depois que muitos entregadores testaram positivo para a covid. “O sistema de entrega está muito lento no momento.”
De qualquer forma, os investidores esperam que o período de paralisação de curto prazo acelere a abertura da China, depois de três anos isolada do resto do mundo.
“Se o vírus continuar a se espalhar no ritmo atual, a maioria das cidades terá ultrapassado seu pico em meados de janeiro. A retomada da atividade será bastante rápida em fevereiro”, disse Chen. “Os investidores vão ignorar este período de confusão. A questão crucial é com que rapidez as coisas se normalizarão depois desta onda, e parece que pode ser muito mais rápido do que o esperado.”
Shaun Rein, diretor-gerente do China Market Research Group, porém, alerta que não haverá uma “gastança de desforra” dos consumidores chineses quando a onda de novos casos começar a diminuir. “Muitos trabalhadores sofreram cortes salariais em 2022, com todos os lockdowns. A confiança do consumidor está muito baixa. Muitas pequenas e médias empresas já fecharam as portas.”
Mas há sinais iniciais de uma recuperação nas viagens nacionais e internacionais. “Nossa expectativa é de que a demanda para ‘ir para casa’ durante o Ano Novo chinês seja melhor do que esperávamos antes”, escreveram analistas do Citi em uma nota. Eles citaram dados do fornecedor de serviços de viagens Qunar que mostram um aumento de mais de oito vezes nas reservas de passagens aéreas para o feriado, feitas na semana seguinte ao relaxamento das restrições relativas à covid, em 7 de dezembro.
Também existe uma enorme demanda reprimida por viagens internacionais. Depois do relaxamento das restrições, as pesquisas sobre voos no período da véspera do ano novo no site de viagens Ctrip subiram para o nível mais alto dos últimos três anos.
Hua Yifan, gerente da fabricante de roupas Shanhui Dress, com sede na cidade de Jiaxing, no leste, faz parte da primeira leva de exportadores chineses a se beneficiar da maior liberdade para viajar. Hua se juntou a uma delegação de 100 exportadores que viajou para o Japão no início de dezembro para uma estadia de uma semana organizada pelo Departamento de Comércio da cidade. “Desde o começo da pandemia, em 2020, esta é a primeira vez que participo pessoalmente da Asia Fashion Fair, que acontece a cada seis meses”, comentou Hua.
Durante a viagem, Hua assegurou encomendas de sete empresas japonesas no valor de US$ 5 milhões. Ele contou que em geral o mercado japonês contribui com 50% da receita anual da Shanhui.
Cooke prevê que qualquer relaxamento adicional das restrições de quarentena para entrar na China levará a um influxo de executivos estrangeiros que até agora não podiam viajar para lá e encontrar funcionários locais e parceiros comerciais. “As pessoas que têm negócios aqui não podem vir há três anos. Muitos investimentos não aconteceram por causa disso”, disse. (Colaboraram Sun Yu, de Xangai, e Nian Liu, de Pequim)
Fonte: Valor Econômico


