Por Nikkei Asia — Tóquio
16/12/2022 11h21 Atualizado há 2 dias
A guerra da Rússia contra a Ucrânia e o risco de uma invasão da China em Taiwan fizeram com que o Japão alterasse a diretriz de defesa nacional, estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, para construir um sistema de defesa independente, que não dependa apenas das forças armadas dos Estados Unidos. As novas metas de defesa do Japão foram divulgadas nesta sexta-feira.
Os documentos, como o “Estratégia de Segurança Nacional” (NSS, na sigla em inglês), estabelecem políticas para aumentar os gastos com defesa para 2% do produto interno bruto e adquirir capacidade de contra-ataque para atingir os locais de lançamento de mísseis inimigos, algo que era estritamente proibido para o país após o termos de rendição da Segunda Guerra Mundial.
O NSS diz que o Japão está “no meio do ambiente de segurança mais periclitante do pós-guerra” e enfatiza que enfrenta as ameaças da Coreia do Norte e da China, que vem lançando mísseis perto do país. O jornal diz que o Japão “preparará uma base sólida para o pior cenário”.
A revisão das diretrizes também afirmam que o centro do poder global está “mudando para a região da Ásia-Pacífico”. Os documentos advertem, sem citar nomes, que “alguns países” estão tentando aumentar sua influência e exercer pressão econômica sobre outras nações, restringindo as importações de recursos naturais.
“O ambiente de segurança em torno do Japão está mudando rapidamente”, disse o primeiro-ministro Fumio Kishida em entrevista coletiva após a aprovação dos documentos. “Cumprirei resolutamente minha missão como primeiro-ministro de proteger e defender a nação e o povo diante de um ponto de virada na história”.
Kishida explicou que o governo realizou uma simulação para entender se as capacidades de defesa existentes eram suficientes para proteger o país. “Meu entendimento é que a capacidade atual não é suficiente”, disse ele, acrescentando que o Japão precisa se fortalecer em certas áreas, como contra-ataques. Kishida também enfatizou que o país precisa fortalecer suas defesas cibernéticas, pois “a linha entre contingência e tempo de paz está se tornando cada vez mais tênue”.
O NSS, documento que estabelece as diretrizes para a política de diplomacia e defesa do Japão, foi revisado pela primeira vez desde que foi criado em 2013. Os outros dois documentos, a “Estratégia de Defesa Nacional” e o “Plano de Desenvolvimento da Força de Defesa”, receberam novos nomes.
O governo japonês criou suas primeiras “Diretrizes do Programa de Defesa Nacional” em 1976 em meio ao arrefecimento das tensões da Guerra Fria. O novo NSS se afasta do “Conceito Básico de Força de Defesa”, criado na época e que visava um desenvolvimento equilibrado e mínimo da força de defesa.
O Artigo 9 da constituição pós-guerra do Japão afirma: “O povo japonês renuncia para sempre à guerra como um direito soberano da nação e à ameaça ou uso da força como meio de resolver disputas internacionais” e “O direito de beligerância do estado não será reconhecido”.
Ganhar capacidade de contra-ataque é um aspecto fundamental da revisão das políticas de defesa do Japão e subverte a política anterior de “não ter meios para atacar um país adversário”.
O uso de contra-ataques é definido como “as medidas mínimas necessárias de autodefesa” e se limita a “alvos militares”, como bases de mísseis. O governo expandirá sua gama de mísseis produzidos internamente e comprará mísseis de cruzeiro Tomahawk fabricados nos EUA.
Sob a aliança entre Japão e EUA, Tóquio confiou em Washington para sua capacidade de contra-ataque, com os EUA desempenhando o papel de “lança” e o Japão de “escudo”. A estratégia das Forças de Autodefesa do Japão para os próximos anos passará a focar em um sistema de defesa antimísseis de interceptação para “defesa aérea e antimísseis integrada”.
Diante das repetidas invasões da China nas águas territoriais japonesas ao redor das Ilhas Senkaku (conhecidas como Ilhas Diaoyu na China), o NSS observa que a China representa o “maior desafio estratégico já enfrentado”.
Questionado na entrevista coletiva sobre sua visão sobre a China, Kishida também usou a palavra “desafio” para descrever a atitude recente de Pequim em relação à ordem internacional. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro reconheceu que o Japão e a China têm “uma responsabilidade importante” na região do Indo-Pacífico e que é “indispensável” que os vizinhos construam uma relação estável e construtiva.
Fonte: Valor Econômico