Por Jonathan Ostry
10/10/2022 05h01 · Atualizado há 6 horas
Em seu discurso em Jackson Hole em agosto, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, deixou claro que reduzir a inflação é a prioridade máxima do Fed. Embora o Fed tenha se distanciado de sua avaliação do ano passado de que a aceleração da inflação seria transitória, os motivos que fundamentaram essa avaliação eram frágeis mesmo na época, em vista das muitas incertezas em torno das forças motrizes da inflação. Uma delas, em especial, o aumento dos custos do transporte marítimo, tinha sido subestudado, apesar de ser um fator contribuinte importante – e previsor – da inflação. Mesmo no ano passado, a disparada dos custos do transporte marítimo era um sinal de perigo, que apontava para a necessidade de elevar as taxas de juros para fazer frente ao acúmulo das pressões sobre os preços.
A missão dos principais BCs do mundo é manter a estabilidade dos preços, o que significa que as autoridades formuladoras de política monetária têm de identificar as fontes de inflação e prever sua trajetória. Os dirigentes dos BCs, sem sombra de dúvida, erraram ao qualificar, inicialmente, o significativo aumento da inflação em 2021 como “transitório”, como fez Powell. Mas outras instituições também incorreram no mesmo equívoco. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, deixou, igualmente, de prever a aceleração e a durabilidade da inflação. Suas projeções macroeconômicas para os Estados Unidos foram semelhantes às do Fed.
Em vista do aumento real dos custos de transporte marítimo durante 2021, o impacto sobre a inflação, um ano depois, superará os 2 pontos percentuais, um efeito enorme que poucos Bancos Centrais desconsiderariam na fixação da política monetária
Os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) também chamam a atenção para o quanto a surpresa da inflação teve uma dimensão global, ao afetar países do mundo inteiro, desde a Austrália até o Reino Unido, onde as autoridades foram pegas desprevenidas. O Panorama Econômico Mundial do FMI da Primavera de 2022 mostra que suas projeções para a inflação de um ano antes eram, na verdade, mais de 3 vezes do que deveriam para as economias avançadas e mais de 2 vezes menores para as economias em desenvolvimento e emergentes, bem como para o mundo como um todo.
É preciso reconhecer que parte da inflação atual está sendo puxada por fatores que não eram previsíveis um ano atrás, ou cujo impacto era difícil de prever com precisão. Nos EUA, a disparada dos preços reflete estímulos fiscais e o resgate de poupanças da era da pandemia na ponta da demanda, além de desestruturações da cadeia de suprimentos ligadas à política de covid zero da China e de aumentos dos preços das commodities vinculados à invasão da Ucrânia pela Rússia. Os profissionais em previsões econômicas não são especialistas em geopolíticas ou em saúde pública, e o melhor que conseguem em ambas as frentes é fazer uma conjectura fundamentada.
Mas, embora as autoridades de política monetária possam, excepcionalmente, ser desculpadas por não considerar, em suas decisões, o que não era passível de se saber um ano atrás, elas deveriam ser responsabilizadas por fatores que eram conhecidos motores da inflação, principalmente nos casos em que esses motores apontavam para pressões duradouras sobre os preços. Em recente estudo, meus coautores e eu nos concentramos em um desses impulsionadores da inflação: o rápido aumento dos custos mundiais de transporte marítimo.
Em outubro de 2021, os indicadores do custo de remeter contêineres por frete marítimo tinham aumentado em mais de 600% em relação aos seus níveis pré-pandemia, enquanto o custo de enviar commodities a granel por mar tinha mais do que triplicado.
O que causou esse notável aumento? Com a aceleração da atividade manufatureira, após prolongados lockdowns de combate à propagação da covid-19, a demanda pelo transporte marítimo de insumos intermediários (como energia e matérias-primas) aumentou significativamente. Ao mesmo tempo, a capacidade de transporte por mar tinha sido gravemente prejudicada por obstáculos de natureza logística e por gargalos (muitas vezes ligados a transtornos causados pela pandemia) e episódios de escassez de contêineres.
Portos do mundo inteiro não dispunham de trabalhadores, que tiveram de se autoisolar após testar positivo para a covid-19, e restrições de saúde pública impediram que motoristas de caminhão e tripulantes de navios cruzassem fronteiras.
Embora a elevação vertiginosa dos preços dos alimentos e da energia tenha chegado às manchetes, a escalada dos custos do transporte marítimo pareceu, em grande medida, ter passado despercebida, apesar de seu potencial impacto inflacionário. Meu estudo mostra que os efeitos do choque dos custos do transporte sobre a inflação são mais duradouros do que os decorrentes do choque das commodities, o que contradiz afirmações do ano passado de que o aumento da inflação seria efêmero.
Minha análise sugere que a duplicação dos custos de transporte marítimo leva a um aumento de aproximadamente 0,7% da taxa de inflação um ano depois. Em vista do aumento real dos custos de transporte marítimo durante 2021, estimo que o impacto sobre a inflação, um ano depois, superará os 2 pontos percentuais – um efeito enorme que poucos BCs desconsiderariam na fixação da política monetária.
Esse resultado médio, é claro, varia de acordo com as economias e regiões, e depende de marcos regulatórios de política monetária, especialmente do histórico dos BCs de estabilização de preços e de ancoragem das expectativas, além de aspectos mais estruturais como os de ordem geográfica (que afetam o fator distância em que se localiza uma economia e sua dependência de produtos transportados por mar).
As evidências sugerem que os países desenvolvidos com uma tradição consagrada de estabilidade dos preços, entre os quais os EUA, tendem a ser menos afetados pelos choques dos custos do transporte marítimo. Por outro lado, os países em desenvolvimento – principalmente países distantes, no Pacífico e no Caribe, constituídos de pequenas ilhas – correm maior risco de vivenciar pressões inflacionárias mais fortes, mais persistentes, capazes de gerar espirais de preços dos salários de horistas. Quando os custos de transporte marítimo disparam, as autoridades de muitos países, mas principalmente as de países desse gênero, podem precisar apertar preventivamente sua política monetária.
O papel dos custos de transporte marítimo como impulsionador da inflação global é sub-reconhecido. Isso tem de mudar. Os choques decorrentes dos custos de transporte marítimo podem alertar os BCs, que têm a tarefa de garantir estabilidade dos preços, dos perigos que têm pela frente e ajudá-los a reduzir o risco de ficar para trás em relação à curva de inflação. (Tradução de Rachel Warszawski)
Fonte: Valor Econômico


