O dólar fechou junho a R$ 5,16, enquanto o Ibovespa caiu 1,01%, encerrando o mês em 172.024,12 pontos. O mercado espera estabilidade cambial e cautela na Bolsa em julho, com foco nas tensões no Oriente Médio e eleições no Brasil. Segundo Leonardo Andreolli, o Ibovespa oscilou em junho, influenciado por negociações de paz entre EUA e Irã. Rodrigo Caetano destaca a alta do dólar devido à aversão ao risco global. A expectativa é de estabilidade cambial, com o dólar entre R$ 5,15 e R$ 5,25 em julho.
O dólar hoje encerrou o pregão cotado a R$ 5,16, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), fechou aos 172.024,12 pontos nesta terça-feira (30), somando perda de 1,01% no acumulado de junho. Os números marcam o fim de um mês que trouxe direções opostas para os dois principais indicadores do mercado financeiro, em um primeiro semestre dominado pela valorização do real.
Para julho, o mercado trabalha com a expectativa de relativa estabilidade para o câmbio e de cautela seletiva para a Bolsa, à medida que as tensões no Oriente Médio, a postura do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e as eleições de outubro no Brasil continuam no centro das atenções dos investidores.
Ibovespa fecha junho perto da estabilidade, mas com forte oscilação
O Ibovespa praticamente não saiu do lugar em junho, mas o caminho até esse resultado foi marcado por muitas idas e vindas. O índice começou o mês em queda, chegando a perder a marca dos 170 mil pontos em alguns momentos e só recuperou parte das perdas na reta final, beneficiado por sinais de avanço nas negociações de paz entre EUA e Irã.
Segundo Leonardo Andreolli, especialista em investimentos da Hike Capital, o período foi de acomodação e não de uma retomada firme.
A Bolsa parou de cair com a mesma força de maio, mas ainda não conseguiu voltar para uma tendência clara de alta.
Leonardo Andreolli, da Hike Capital
De acordo com o especialista, o pior momento do mês ocorreu logo no primeiro pregão, quando o Ibovespa caiu 0,91%, ao menor nível desde janeiro, em meio à piora da crise entre Irã, Israel e EUA. A virada começou a se desenhar na semana de 22 a 26 de junho, quando o índice subiu quase 3% e recuperou o patamar dos 170 mil pontos, graças aos dados de inflação mais favoráveis e por sinais de trégua no conflito do Oriente Médio.
Setores que mais subiram e mais caíram
Entre as maiores altas de junho estiveram empresas ligadas a setores defensivos e de menor sensibilidade ao ciclo econômico. Conforme Andreolli, a Copasa (CSMG3) subiu mais de 15% beneficiada pela busca por companhias ligadas a saneamento básico, enquanto Caixa Seguridade (CXSE3) e BB Seguridade (BBSE3) avançaram mais de 11% apoiadas pela geração de caixa e pela distribuição de dividendos. A Cury (CURY3), do setor de construção civil, também subiu mais de 11%, em um período de recuperação após meses mais difíceis.
Do lado negativo, a Braskem (BRKM5) liderou as perdas, com queda de mais de 36%, afetada por incertezas sobre sua reestruturação financeira e pela alavancagem elevada. CSN (CSNA3) e Usiminas (USIM5) também recuaram com força, por causa da preocupação do mercado com o endividamento das companhias e com a demanda mais fraca por aço. Magazine Luiza (MGLU3) e Natura (NATU3) completaram a lista das maiores quedas, prejudicadas pela combinação de juros altos e cautela com o consumo.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avalia que o petróleo teve papel central nos dois extremos do mês. O acordo de paz entre EUA e Irã derrubou o petróleo na última semana e trouxe alento às curvas de juros globais, além de maior apetite a risco”, afirma.
Já entre os nomes que se beneficiaram, ele cita Petrobras (PETR3; PETR4) e Prio (PRIO3), do setor de petróleo e energia, e Marfrig (MBRF3), no segmento de proteínas. Do lado negativo, o economista menciona Braskem, com risco de recuperação judicial, Cosan (CSAN3), afetada pelo endividamento, e Vale (VALE3), em meio a disputas internas na companhia.
Dólar fecha junho em alta após meses de queda, enquanto Ibovespa encerra o mês perto da estabilidade; cenário para julho segue marcado por cautela e atenção à geopolítica. Foto: Adobe Stock
Bolsa deve dar sinais de recuperação em julho, mas com euforia contida
Além da geopolítica, o cenário eleitoral também entrou na conta dos investidores. Pesquisas que mostraram o candidato Flávio Bolsonaro (PL) mais distante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno chegaram a afetar negativamente o apetite por risco em ações brasileiras, segundo Perri, que também cita o tom inicialmente cauteloso do Comitê de Política Monetária (Copom) como um dos fatores que prejudicaram o desempenho da Bolsa ao longo do mês.
Por outro lado, ele aponta que leituras mais modestas de inflação no Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) e no Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), no fim do mês, ajudaram a aliviar parte da pressão sobre as curvas de juros futuros.
Para julho, a expectativa de Andreolli é de uma Bolsa brasileira oscilando lateralmente com viés de recuperação, mas sem euforia. Segundo ele, o Ibovespa pode tentar buscar a região entre 175 mil e 180 mil pontos caso haja continuidade do alívio na inflação e do dólar mais comportado, mas uma alta mais firme dependeria de um fluxo estrangeiro maior e de uma postura menos dura do Copom.
Na mesma linha, Perri diz que a queda nos preços do petróleo deve se refletir paulatinamente em indicadores de inflação, o que tende a trazer alívio às expectativas e às curvas de juros, ao mesmo tempo em que o maior interesse global por mercados emergentes pode trazer de volta o fluxo estrangeiro para um mercado considerado descontado.
Os setores ligados à construção e ao varejo seguem entre os mais vulneráveis a uma eventual reabertura da curva de juros, na avaliação dos dois especialistas. Perri cita ainda o setor bancário como sensível ao fluxo estrangeiro e a casos de recuperação judicial envolvendo instituições financeiras, enquanto Andreolli afirma que nomes de siderurgia e mineração seguem dependentes do comportamento da China e do câmbio.
Dólar interrompe sequência de quedas e fecha junho em alta
Segundo Rodrigo Caetano, gerente de investimentos no Sicredi Soma, o mês marcou uma mudança de rota no câmbio depois de uma forte valorização do real observada ao longo do primeiro semestre. “O dólar voltou a ganhar corpo diante do real refletindo principalmente o aumento da aversão ao risco no cenário internacional, as tensões geopolíticas no Oriente Médio e a expectativa de manutenção dos juros elevados nos Estados Unidos por um período mais longo”, explica.
De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipeadata), o dólar comercial médio passou de R$ 5,02 no primeiro dia de junho para mais de R$ 5,17 no penúltimo pregão do mês, acumulando alta próxima de 2,5% no período, embora a moeda ainda registre queda no acumulado do ano.
A cotação ficou dentro do que o mercado financeiro já esperava. Caetano diz que o Boletim Focus do Banco Central (BC), pesquisa semanal com instituições financeiras, passou a indicar um cenário de maior estabilidade ao longo de junho, com a mediana das projeções em R$ 5,20 para o fim de 2026, nível compatível com o patamar observado ao final do mês.
Outros fatores que devem influenciar o câmbio
Para julho, a curva de contratos futuros negociados na B3 indica uma precificação próxima dos níveis observados no fechamento de junho, segundo Caetano, sugerindo estabilidade no curto prazo, ainda que com volatilidade elevada. Ele explica que os contratos futuros representam a precificação dos investidores em determinado momento e não uma previsão definitiva para a cotação da moeda.
Na leitura de Andreolli, o dólar deve continuar oscilando entre R$ 5,15 e R$ 5,25 em julho. “Se o Fed continuar duro ou se a guerra voltar a afetar o petróleo, o dólar pode buscar níveis mais altos”, afirma.
Por outro lado, segundo ele, um alívio externo combinado com entrada de fluxo estrangeiro e queda dos juros futuros no Brasil pode fazer o real voltar a ganhar força.
O mercado futuro corrobora essa expectativa de estabilidade. O contrato com vencimento em julho de 2026 (DOLN26) era negociado em torno de 5.177 pontos no fim de junho, número coerente tanto com a mediana do Focus para o fim do ano quanto com a cotação à vista observada no encerramento do mês.
Para Caetano, projetar o câmbio real-dólar exige cautela, já que a taxa é influenciada por uma combinação de fatores econômicos, políticos e geopolíticos, tanto no Brasil quanto no exterior, o que faz com que as expectativas sejam constantemente revisadas à medida que novos dados e eventos surgem.
Fonte: Estadão


