No primeiro semestre do ano, a maior mudança no cenário traçado pela Kapitalo Investimentos, esteve relacionada ao avanço da inteligência artificial (IA), que passou a influenciar o ambiente macroeconômico. Essa transformação impacta cerca de metade da estratégia dos fundos Zeta e K10.
A visão da gestora é que a inteligência artificial (IA) deve aumentar a produtividade do trabalho humano. “Nos últimos 100 anos, as pessoas ficaram relativamente mais ricas em relação a uma hora de trabalho, enquanto os bens ficaram mais baratos. Com a IA, porém, alguns tipos de trabalho também tendem a ficar mais baratos ao longo do tempo”, explica o gestor do fundo Zeta, Carlos Woelz.
Portanto, a tecnologia tenderia a agir como uma pressão deflacionária no médio prazo, pois levaria ao aumento da produtividade.
Mas ainda não foi possível observar esse efeito neste ano, pois, na fase de implantação, a tecnologia está exigindo mais profissionais, e não menos, como se esperava. Consequentemente, o mercado de trabalho global se estabilizou, enquanto o conflito entre Estados Unidos e Irã gerou um choque no preço do petróleo, que trouxe maior pressão de custos. Resultado: a perspectiva para a inflação aumentou, gerando expectativa de juros mais altos por mais tempo, tanto no curto quanto no longo prazo, em praticamente todos os países.
“A grande mudança de cenário não foi necessariamente os efeitos da guerra. A desaceleração da inflação, que estava acontecendo e eventualmente poderia se acelerar com a tendência de médio prazo da IA, não se materializou no curto prazo”
Carlos Woelz, gestor da Kapitalo
Adicionalmente a esse cenário, houve uma mudança no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, que adotou uma postura mais hawkish (favorável a juros mais altos para controlar a inflação) do que o mercado esperava. A Kapitalo enfrentou essa mudança de cenário já com uma posição mais moderada, de que os juros não cairiam tão cedo.
Perspectivas
Sobre o efeito do choque do petróleo, o gestor do fundo K10, Bruno Cordeiro, e Woelz apontam que ele não deve durar muito. A expectativa é que, em um horizonte de 18 a 24 meses, ocorra uma reversão dos fatores que levaram à alta dos preços do petróleo em países desenvolvidos, dado que toda a cadeia é competitiva.
Já em países emergentes, como o Brasil, onde a produção, o transporte, o refino e a distribuição não conseguem se ajustar rapidamente às mudanças na oferta ou na demanda, esse impacto tende a ser mais duradouro.
Para o segundo semestre, Cordeiro tem um viés, embora sem muita convicção, de que não será a inflação que levará o Fed a elevar os juros. “Olhando para os componentes dos índices de preços, a alta pode ser mais amena do que o mercado espera. São deslocamentos de preços que não vão gerar pressões inflacionárias”.
A Kapitalo considera exagerada a perspectiva de que a Selic encerará o ano em 15% no ano que vem. “Estamos no sentido contrário, revisando para baixo as nossas projeções para a inflação no curto prazo.”
No Brasil, a Kapitalo aponta que as eleições tendem a chacoalhar o risco retorno dos investimentos porque não se sabe como o novo presidente tratará o problema da expansão da dívida do País. “O mercado corretamente está operando com mais prêmio e bastante cuidado em um cenário onde os emergentes não são os aspiradores de capital do mundo”, resume Woelz.
Caso a questão fiscal não seja tratada pelo novo governante, isso tende a gerar uma crise significativa no médio prazo, conclui. “Se houver uma mudança de política econômica, vai afetar muito os preços para melhor. Se houver uma continuidade das políticas, vai afetar os preços para pior”, afirma o gestor.
Se o novo presidente ganhar acredito que vai ter algum tipo de endereçamento da dívida fiscal. Achamos que vai ser insuficiente, mas não partimos do pressuposto de que esse endereçamento vai ser zero.”
Carlos Woelz, gestor da Kapitalo
A gestora acredita que a eleição ainda está muito aberta, apesar de pesquisas eleitorais apontarem para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se o candidato do governo Bolsonaro não for viável, acreditam que será trocado por outro. Será um processo dinâmico: a população escolhe os candidatos cada vez mais tarde, e as movimentações podem ser muito mais violentas do que se espera.
O que mudou na carteira?
Como todo esse cenário se reflete nas apostas da gestora? Em posições um pouco mais neutras, mas ainda com um viés de normalização da inflação, além de apostas relativas entre países, em vez de uma grande posição direcional única.
Cordeiro aponta que títulos públicos ou privados embutem taxas de juros consideradas atrativas em diferentes prazos de vencimento, por conta do risco eleitoral e porque o mercado acredita que o próximo movimento do Fed será elevar os juros, o que torna difícil para outros bancos centrais cortarem suas taxas antes que essa visibilidade aumente.
Estamos mais aplicado em juros nestes países porque achamos que tem espaço para corte de juros ou pelo menos nenhum espaço para subida das taxas se o Fed não tiver que se mexer
Carlos Woelz, gestor da Kapitalo
A gestora também está um pouco mais comprada em bolsa no exterior e no dólar americano em relação a moedas de países desenvolvidos. Contribui para a valorização da moeda americana a atividade econômica melhor do que o esperado, puxada pelos investimentos em IA, que também sustentam o mercado de trabalho nesta fase de implantação da tecnologia. O foco da gestora está em setores que prestam serviços aos investimentos em IA. Entre as posições, investe, por exemplo, em cobre, por meio da Aura Minerals (AURA33).
Cordeiro está com uma visão de baixa de preços para commodities, como o petróleo. O fundo se protege de novas interrupções dos navios que passam pelo Estreito de Ormuz com o diesel, combustível que o conflito fez os estoques caírem muito, e sua recomposição vai demorar mais tempo para acontecer.
Para a Bolsa brasileira, o efeito de um eventual ajuste fiscal é dúbio, na visão dos gestores. Isso porque seria necessário cortar a demanda do governo ou aumentar impostos, ambos negativos para ativos de risco. Portanto, mantêm um posicionamento neutro. “Achamos que o cenário é muito mais positivo no fechamento do juro real do que na Bolsa”, conclui Cordeiro.
Fonte: Estadão


