Parte da razão pela qual nem Israel nem Hezbollah têm usado oficialmente a palavra “guerra” para descrever a atual onda de ataques – a mais mortífera desde 2006 – é porque ambos ainda esperam alcançar os seus objetivos sem desencadear uma conflagração mais grave na região – ou ser responsabilizados por ela.
Israel quer ocupar militarmente uma faixa de 10 quilômetros de largura ao longo de sua fronteira com o Líbano – em território libanês – para criar uma “zona-tampão” e dificultar os ataques ao norte israelense. Para isso, aposta no desgaste no Hezbollah em vez da guerra total.
Já o Hezbollah, com ataques de foguetes e drones, espera pressionar Israel a concordar com um cessar-fogo com o grupo terrorista Hamas – a milícia islâmica que lançou os ataques terroristas de 7 de outubro e deu início à guerra. Como o Hezbollah, o Hamas é armado e patrocinado pelo Irã.
“Embora as tensões estejam aumentando, a situação no sul e do leste do Líbano não é a de uma guerra clássica em grande escala, já que tanto o Hezbollah quanto Israel esperam usar meios limitados para pressionar um ao outro”, disse Lina Khatib, especialista em Oriente Médio da Chatham House, um centro de estudos internacional com sede em Londres.
O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, prometeu fazer tudo o que for necessário para pôr fim definitivo aos ataques do grupo libanês para permitir que cerca de 60 mil moradores no norte de Isarel possam voltar para casa sem que sofram ameaças.
O governo de Israel enfrenta internamente a desconfiança de parte da população que acredita que Netanyahu e sua equipe têm feito pouco para liberar os cerca de 70 reféns que se estima ainda estão vivos sob o poder do Hamas.
Esses cativos foram levados de Israel nos atentados de 7 de outubro, que deixou também 1,2 mil mortos – quase todos, israelenses. A abertura de uma frente no norte, contra o Hezbollah é fator tanto de distração quanto uma aposta na união nacional.
Os ataques no Líbano ocorrem a contragosto dos EUA, porém, o governo Joe Biden vê pouca chance de interferir nas decisões militares de Netanyahu. A imagem de Israel para a Casa Branca ficou pelo menos arranhada com a resistência de Israel em aceitar uma trégua com o Hamas.
Israel, porém, é um ponto delicado para o establishment americano – sobretudo em um período eleitoral. O balão de ensaio lançado pela Casa Branca de que poderia cortar o envio de armas e recursos para as forças armadas israelense não foi bem recebido pela comunidade judaico-americana. Com isso, a diplomacia americano fez vista grossa às posições mais radicais de Netanyahu.
“Em razão da guerra com o Hamas e da resistência em firmar um acordo, muitos governos ao redor do mundo agora veem Israel como um parceiro mais problemático. Neste sentido, os israelenses sofreram grande perda em termos de imagem e de soft power nos últimos meses”, disse ao Valor o cientista político Ian Bremmer, do Eurasia Group. “Mas o que mais interessa na prática é que isso não está minando significativamente a disposição dos EUA de coordenar, vender armas ou fornecer ajuda militar”, afirmou Bremmer.
“Nem está diminuindo o apetite dos Estados do Golfo Pérsico – históricos aliados dos palestinos e dos libaneses – de obter acesso à tecnologia militar israelense. Por isso, considero que não se deva exagerar em imaginar que Israel esteja sob alguma pressão regional ou global”, prosseguiu o analista.
“Se alguém dissesse a mim ou à maioria dos analistas no meio de 2023 que o Hezbollah estaria atacando bases israelenses em Israel, e Israel estaria atacando o sul do Líbano e partes do sul de Beirute, eu teria dito, ‘ok, isso é uma guerra total’”, disse Andreas Krieg, analista militar do King’s College London, à agência Associated Press. O termo ainda não foi aplicado ao conflito actual porque “não há invasão por terra”, disse – acrescentando que esse é um cálculo estratégico. ”Mas essa pode ser a métrica errada para determinar o que é uma guerra”, acrescentou.
“Acho que os israelenses estão tentando dizer ao Hezbollah: venha para a mesa de negociações e resolveremos isso por meio da diplomacia, ou vamos encurralá-lo até que você reaja de forma exagerada”, disse Krieg. “E isso, sim, será uma guerra total.”
As autoridades israelenses afirmam que não querem uma guerra total com o Hezbollah e que esta pode ser evitada se o grupo armado parar os seus ataques e se afastar da fronteira. Apesar da preocupação das principais forças da região com o potencial impacto de uma guerra generalizada – em termos econômicos, políticos e humanos – pouco se faz para conter a escalada da violência.
O Hezbollah também diz que não quer uma guerra, mas está preparado para uma, e manterá os ataques a Israel. Israel e Hezbollah trocam tiros repetidamente há quase um ano, até que o nível de tensão atingisse o de ontem.
Até recentemente, os especialistas geralmente concordavam que qualquer guerra futura entre Israel e o Hezbollah seria semelhante à guerra que travaram em 2006, mas muito, muito pior. Durante anos, as autoridades israelenses alertaram que em qualquer nova guerra com o Hezbollah, o exército cobraria um preço alto no Líbano, destruindo infraestruturas críticas e arrasando redutos do grupo. (Com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico
