Israel lançou nesta segunda-feira (23) uma onda implacável de ao menos 800 ataques aéreos contra o que disse ser alvos do Hezbollah, matando quase 500 no dia mais sangrento no Líbano em décadas e aproximando mais a região de uma guerra total.
Aviões de guerra israelenses atingiram centenas de alvos em todo o país, incluindo os subúrbios ao sul de Beirute, com o governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, intensificando seu ataque ao Hezbollah em uma “nova fase” da guerra.
O bombardeio aumentou as preocupações com hostilidades em grande escala no Oriente Médio e espalhou pânico pelo Líbano, fazendo dezenas de milhares de pessoas fugirem das áreas atingidas. O número de mortos desta segunda-feira (23) é o maior desde que Israel lançou uma ofensiva por terra contra o Hezbollah em 2006 e ocorreu apesar do alerta dos EUA para Israel não intensificar sua campanha militar contra o grupo militante xiita apoiado pelo Irã.
Os ataques também se seguiram à detonação de milhares de pagers e walkie-talkies na semana passada, que deixaram ao menos 37 mortos, e do bombardeio, na sexta-feira, que matou 15 comandantes do Hezbollah que estavam reunidos no sul de Beirute.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/c/m/ACEoxIS3KJcVDWpQTdMQ/libano-ataques-site.jpg)
O exército de Israel disse que atingiu as centenas de alvos do Hezbollah e continuará a atacar prédios onde acredita que o grupo militante está armazenando armas, alertando os civis para que deixem esses locais. “Não estamos esperando pela ameaça, estamos nos antecipando a ela”, disse Netanyahu em uma declaração em vídeo, alertando para “dias difíceis” pela frente. “Estamos eliminando figuras importantes, terroristas e mísseis. Prometi que iríamos mudar o equilíbrio da segurança, o equilíbrio do poder no norte — e é o que estamos fazendo.”
Ontem à noite, o Gabinete israelense aprovou uma “situação especial [de emergência]” em todo o país, que dará mais liberdade às forças armadas para restringir a vida e as atividades civis devido ao conflito, em antecipação a uma resposta feroz do Hezbollah.
O Ministério da Saúde do Líbano disse que havia um grande número de mulheres e crianças estão entre os 492 mortos e que ao menos 1.650 pessoas ficaram feridas.
As estradas do sul do Líbano ficaram lotadas de carros enquanto civis fugiam dos ataques para o norte, em direção a Beirute, e escolas de todo o país foram transformadas em abrigos de emergência para os desalojados.
Israel emitiu vários alertas ao longo do dia, pedindo aos civis que deixassem quaisquer prédios onde o Hezbollah estivesse armazenando armas, primeiro no sul do Líbano e depois no Vale do Bekaa, no leste. Ambas são áreas onde o Hezbollah tem uma presença importante há muito tempo.
Moradores de Beirute disseram ao “Financial Times” que receberam chamadas de alerta em seus telefones fixos dos militares israelenses ordenando que os habitantes de vilarejos em áreas-alvo deixassem suas casas.
Em suas declarações, as forças armadas de Israel disseram que as pessoas tinham duas horas para deixar todos os potenciais alvos e os aconselharam a se afastar pelo menos 1 quilômetro.
Em resposta aos ataques dos militares de Israel, o Hezbollah disse ter disparado dezenas de mísseis contra vários alvos no norte de Israel, incluindo um local de propriedade da companhia de defesa Rafael, ao norte de Haifa. Ele enfatizou que os ataques “em defesa do Líbano e seu povo” foram voltados para alvos militares.
Sirenes soaram várias vezes ao norte de Israel ao longo do dia. Mas menos foguetes chegaram a centros populacionais em Israel do que no domingo, quando o grupo xiita atingiu o subúrbio de Haifa. A Cisjordânia foi alvo de um ataque com 10 foguetes do Hezbollah. Segundo o exército de Israel, os projéteis atingiram áreas abertas.
Um ataque atingiu uma casa particular na vila de Givat Avni na Galileia, segundo informou a imprensa israelense. Foguetes também foram interceptados sobre a Cisjordânia ocupada, segundo disse um conselho regional para os assentamentos israelenses na área.
O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, disse aos cidadãos para se prepararem para uma resposta mais intensa. “Estamos intensificando nossos ataques no Líbano, a sequência de operações continua”, disse ele. “Temos pela frente dias difíceis em que o povo terá que mostrar compostura e disciplina.”
A escalada alimentou temores de que uma guerra aberta terrestre possa ser iminente. Perguntado sobre a possibilidade de uma incursão terrestre no sul do Líbano, o contra-almirante Daniel Hagari, um porta-voz dos militares israelenses, disse que o país continuará “fazendo o que for necessário” para impedir que o Hezbollah consiga atacar o norte de Israel e permitir que os moradores locais retornem para suas casas.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, disse que Israel tenta “prender” seu país em uma guerra mais ampla. “Eles estão nos arrastando para um ponto que não queremos ir”, disse a jornalistas.
Apesar da tensão, o preço internacional do petróleo seguiu a tendência dos últimos meses e fechou em baixa. O petróleo Brent caiu 0,65%, para US$ 73,21 por barril.
Ziad al-Makary, ministro da Informação do Líbano, disse em uma rede social qualificou o grande número de mensagens telefônicas “aleatórias” pedido às pessoas que deixassem suas casas faz parte da “guerra psicológica” de Israel.
Os ataques aéreos provocaram cenas caóticas em todo o país. Vídeos veiculados na mídia libanesa mostraram explosões sacudindo vilarejos no Vale do Bekaa, e paramédicos e moradores abrindo caminho entre os escombros depois de um ataque aéreo. Escolas foram fechadas na região sul do Líbano, no Bekaa e no sul de Beirute.
O primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, disse que os ataques israelenses são uma “guerra de extermínio”. Citando o secretário-geral da ONU, António Guterres, que alertou no domingo que o sul do Líbano poderá se transformar em “outra Gaza”, Mikati pediu à comunidade internacional que “pressione Israel para acabar com sua agressão”.
As hostilidades seguem a detonações em massa de dispositivos de comunicação que mataram 37 pessoas e feriram mais de 3.000 no Líbano, que o Hezbollah atribuiu a Israel, que por sua vez não confirmou nem negou diretamente sua responsabilidade.
O governo do Brasil condenou os ataques e recomendou aos seus cidadãos no Líbano para que deixem o país. O Itamaraty procura tirar brasileiros do Líbano, disse o assessor especial da Presidência, Celso Amorim. Para ele, “ali o risco é de uma guerra total”.
Fonte: Valor Econômico
