Crescimento atrai laboratórios estrangeiros e abre caminho para ampliar o acesso da população a tratamentos mais complexos
Por Marcus Lopes
30/06/2023 05h10 Atualizado há 7 horas
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Parque fabril da Libbs, em São Paulo: planta-piloto vai aprimorar processos — Foto: Divulgação
Considerados medicamentos que apresentam bons resultados em tratamentos de enfermidades complexas, como o câncer e doenças autoimunes, os remédios biológicos e biossimilares conquistam espaço crescente no Brasil. No ano passado, apenas as vendas de biossimilares no mercado privado totalizaram R$ 702 milhões no país, alta de 9,24% em relação a 2021. Para este ano, a projeção da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos) é de avanço superior a 10% no faturamento, em relação a 2022.
“Trata-se de um mercado em crescimento, que tem atraído ao país muitas empresas interessadas em investir nos biossimilares, o que possibilita ampliar o acesso da população a tratamentos complexos”, afirma Thiago Mares Guia, vice-presidente da Companhia Brasileira de Biotecnologia Farmacêutica (Bionovis), associada da PróGenéricos.
A maior parte dos medicamentos que conhecemos e consumimos são os sintéticos, produzidos por meio de manipulação química de substâncias específicas nos laboratórios. Já os produtos biológicos, também chamados de “biofármacos”, são aqueles com princípio ativo produzido ou extraído de organismos vivos, como plantas ou células. Os biológicos começaram a ganhar destaque a partir da década de 1980, apresentando soluções inovadoras nos tratamentos de enfermidades como câncer, diabetes, artrite, psoríase, esclerose múltipla, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Entre as vantagens dos biológicos estão a redução de efeitos colaterais em pacientes com câncer, em comparação com as drogas sintéticas.
“São produtos que, em sua grande maioria, apresentam uma maior eficácia e menos efeitos colaterais. Diante disso, as farmacêuticas estão concentrando cada vez mais as suas pesquisas nos produtos biológicos”, diz o presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini. Por se tratar de produtos de alta complexidade, que exigem pesquisas de desenvolvimento que podem custar centenas de milhões de dólares, a tendência é que os biológicos fiquem concentrados em áreas mais sensíveis, como a oncologia. “Eles não irão substituir todos os sintéticos e nem é esse o objetivo. Não há necessidade de um biológico para tratar um resfriado, por exemplo”, pondera Mussolini.
Os biossimilares, por sua vez, são as cópias dos medicamentos biológicos de referência e que perderam a patente. Eles não podem ser chamados de genéricos, pois, dada a natureza da produção dos biológicos, apresentam pequenas diferenças em relação ao original de referência, mas sem comprometer a eficácia dos tratamentos ministrados aos pacientes. Por apresentarem custos mais baixos em relação aos biológicos de referência – até 40% mais baratos –, os biossimilares têm conquistado um grande espaço e são apontados como uma das soluções para a economia e sustentabilidade dos sistemas de saúde, em especial os públicos, que são grandes consumidores dos segmentos biológicos.2 de 2 Belapolsky, da Sandoz: cinco moléculas disponíveis no mercado brasileiro — Foto: Divulgação
Belapolsky, da Sandoz: cinco moléculas disponíveis no mercado brasileiro — Foto: Divulgação
“Os medicamentos biossimilares trazem economia visível para os cofres públicos. Devido ao aumento da competitividade, os preços praticados diminuíram muito”, explica Marcelo Belapolsky, country head da Sandoz do Brasil. Em nível global, a empresa possui oito moléculas (biossimilares) disponíveis e outras 24 em desenvolvimento e que devem chegar ao mercado até 2025.
No Brasil, a Sandoz possui cinco moléculas disponíveis no mercado nacional. Elas são utilizadas para o tratamento de distúrbios do crescimento (somatropina), doenças hematológicas e reumatológicas (rituximabe), neutropenia (filgrastim) e dermatológicas (etanercepte), entre outras. A farmacêutica também possui parcerias com instituições públicas, como a Fiocruz e o Instituto Butantan, para o fornecimento de medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A Libbs também aposta no crescimento dos biológicos e biossimilares para os próximos anos. A empresa, que investe na produção de biossimilares no Brasil desde 2013, trabalha na construção de uma planta-piloto multipropósito, cujo objetivo é expandir e aprimorar os processos de fabricação dos medicamentos no parque fabril da Libbs, em Embu das Artes, na Grande São Paulo. A ideia é que as novas instalações estejam concluídas até o primeiro semestre de 2024.
“Enquanto o mercado de moléculas sintéticas cresceu, em média, 1,3% por ano entre 2017 e 2021 nos Estados Unidos, o mercado de medicamentos biológicos avançou 12,5% por ano, no mesmo período. Essa tendência de crescimento tem sido verificada no mundo todo”, justifica Márcia Martini Bueno, diretora de relações institucionais da Libbs. Com três moléculas registradas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de diversos tipos de câncer (rituximabe, trastuzumabe e bevacizumabe), os biossimilares responderam por 7% do faturamento total da Libbs no ano passado.
A Biomm, que atualmente apenas importa biofármacos de outros países para venda no mercado nacional, investiu US$ 90 milhões para a construção de uma fábrica em Nova Lima (MG). O objetivo é dar início à produção própria de biomedicamentos no Brasil. Segundo o CEO da Biomm, Heraldo Marchezini, a nova fábrica, concluída recentemente, tem potencial para a produção de 20 milhões de frascos de insulina e 20 milhões de seringas por ano. Instalada em um terreno de cem mil metros quadrados, a nova fábrica da Biomm deve gerar 300 empregos diretos e 1.200 indiretos, segundo o CEO da empresa.
De acordo com o relatório “The Global Use of Medicines 2023” (estudo sobre uso global de medicamentos), publicado pelo IQVIA Institute, a biotecnologia representará 35% dos gastos globais em 2027 e incluirá terapias celulares e genéticas inovadoras, bem como um segmento de biossimilares. “A tendência é que os biomedicamentos ganhem cada vez mais espaço no mercado farmacêutico. Dos dez remédios mais vendidos no mundo, sete são biológicos e esses produtos já representam 30% de toda a venda de medicamentos. O Brasil tem seguido a mesma direção”, diz Marchezini.
Fonte: Valor Econômico