Em meio a uma disparada nos rendimentos dos Treasuries, que foram alçados a níveis não vistos desde a crise de 2008, o diretor de investimentos (CIO) da Pictet Wealth Management, Alexandre Tavazzi, diz que “não é mais possível ter o mesmo nível de confiança” nos Estados Unidos. As últimas ações do Tesouro americano são motivo de preocupação, e o secretário Scott Bessent está “fazendo tudo que pode” para evitar a venda de Treasuries pelos participantes do mercado, o que acende um alerta para os investidores. A Picte tem US$ 955 bilhões sob administração.
Entre os esforços de Bessent para conter o estresse na renda fixa, o Tesouro americano anunciou no mês passado uma ampliação no programa de recompra de títulos de longo prazo – uma medida “um tanto perigosa” na avaliação de Tavazzi, na medida em que os recursos para financiar isso poderiam vir de um aumento na emissão de Treasuries de curto prazo.
“Quando você ouve que o governo está tentando comprar os títulos de sua própria dívida de longo prazo, é preciso questionar as razões para isso, especialmente as consequências”, afirma. “Como investidor em Treasuries, você precisa questionar como será tratado e qual será o valor desses Treasuries.”
Tavazzi acredita que as ações do Tesouro dos EUA transmitem ao mercado uma sensação de nervosismo com a venda de ativos americanos. Como exemplo, ele cita a atuação conjunta de Bessent com o Japão nos últimos meses para conter a depreciação do iene, na medida em que o Tesouro americano tem vendido euros, e não dólares, para comprar a moeda japonesa. Na visão do executivo, a operação mostra que Bessent continua comprometido com uma política de dólar forte. “O Tesouro americano está ficando bastante preocupado com a possibilidade de qualquer participante do mercado – especialmente bancos estrangeiros e bancos centrais estrangeiros – começar a vender Treasuries.”
O CIO também destaca o desejo de Bessent de ampliar o Fima (Foreign and International Monetary Authorities Repo Facility), um mecanismo de recompra de Treasuries detidos por bancos centrais estrangeiros em troca de dólares, como um ponto de atenção. “Quando se chega a esse ponto, a confiança na moeda começa a ser afetada, porque uma das entidades do governo passa a atuar no mercado para tentar limitar a alta das taxas de juros determinada pelo mercado”, alerta Tavazzi.
Apesar de o conflito no Oriente Médio ter favorecido um dólar mais forte nos últimos meses, com o índice de referência DXY rondando os 100 pontos no momento, a Pictet Wealth permanece confiante na tese de desvalorização da moeda americana, diante do aumento do déficit fiscal e da falta de clareza sobre o cenário econômico nos EUA.
Ele avalia que, embora o questionamento sobre a credibilidade do Federal Reserve (Fed) tenha favorecido a disparada dos rendimentos dos Treasuries no segundo semestre, a preocupação dos investidores no momento recai mais sobre as ações do Tesouro do que as do banco central americano. “O que preocupa o mercado é o que acontece depois do vencimento de cinco anos, porque isso é uma questão fiscal. Não tem a ver com Kevin Warsh [presidente do Fed]”, afirma.
Como investidores, estamos exigindo um nível mais alto de juros para sermos recompensados pelo risco”
Para Tavazzi, um aumento das emissões de títulos de curto prazo poderia, inclusive, aumentar a pressão política sobre o Fed, na medida em que os custos de financiamento se tornariam cada vez mais dependentes das futuras decisões da autoridade monetária.
Além disso, os rendimentos dos Treasuries em níveis elevados tornam os investidores mais sensíveis ao risco fiscal nos EUA. Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, um aumento nos gastos públicos segue no foco dos participantes do mercado – um tema que volta e meia ganha tração e vai ao centro do debate dos mercados financeiros. Questionado sobre o que seria diferente desta vez, Tavazzi responde: o tamanho. “Estamos bem acima de 100% [do PIB de dívida]. Não há nenhuma perspectiva de que ela diminua”, afirma.
Tavazzi também destaca que o governo tem competido com o setor privado por financiamento, o que desperta preocupação entre investidores. As empresas americanas aumentaram de maneira expressiva o seu endividamento nos últimos anos, em meio à corrida de investimentos em inteligência artificial (IA), e Tavazzi aponta que a maior parte dos títulos emitidos no cenário corporativo também tem se concentrado nos vencimentos entre dez e 30 anos.
“O setor privado está competindo com os governos pelo financiamento, e o mercado está começando a se preocupar”, afirma. “É por isso que, agora, como investidores, estamos exigindo um nível mais alto de juros para sermos recompensados pelo risco que estamos assumindo. E isso está afetando todos.”
No momento, o custo médio da dívida do governo americano é de 3,4%, considerando todas as emissões até o momento. Olhando para a curva de juros dos Treasuries, os títulos de três meses estão com rendimento de 4,1%, enquanto os de cinco anos estão em 5,4%. Ou seja, qualquer título que os EUA emitirem daqui em diante terá um custo maior do que a dívida atual, e “é isso que está preocupando o mercado”.
Tavazzi acredita que, para reduzir o custo da dívida, seria necessário que a Casa Branca demonstrasse maior comprometimento com a redução do déficit fiscal, mas, para ele, não há nada sendo feito nessa direção no momento. “Muito pelo contrário”, diz o executivo, ao mencionar a devolução de tarifas às empresas americanas, os custos com o conflito no Oriente Médio e a aprovação da “One Big Beautiful Bill” no ano passado, que reduziu a arrecadação de impostos no país.
Fonte: Valor Econômico


