A expectativa de que os democratas assumam o controle de pelo menos uma das Casas do Congresso americano nas eleições de meio de mandato, em novembro, não deve mudar essencialmente a forma como o presidente Donald Trump toca suas políticas, mas a postura que ele adotará, diante da derrota, pelos próximos dois anos pode influenciar a volatilidade dos mercados. É o que aponta Nathan Sheets, economista-chefe global do Citi.
“Simplesmente continuará agindo como tem agido? Ou vai pensar que só restam dois anos e vai dobrar a aposta? Isso poderia resultar em maior volatilidade nos mercados”, afirma. “Ou será que o resultado o fará repensar e adotar uma postura mais cautelosa?”
Para ele, este último desfecho é menos provável. “Eu diria que há certa probabilidade de vermos o presidente Trump ser mais agressivo do que tem sido até agora. Nada ficará tranquilo nos próximos dois anos”, afirma.
Além disso, diz, um Congresso mais democrata pode travar algumas pautas importantes aos olhos dos mercados, como a renovação do teto da dívida. “O Congresso precisará elevar esse teto, caso contrário, será impossível para os EUA continuarem pagando sua dívida.”
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: A guerra no Irã enfrenta crescente crítica dos americanos. Com qual cenário trabalham?
Sheets: Espero que, nos próximos três a seis meses, Trump encontre uma forma de o petróleo voltar a fluir pelo Estreito de Ormuz. Como isso se dará, se será negociado ou por meio de alguma outra estrutura, é uma questão em aberto. Mas acredito que será resolvido. Trump já sinalizou de diversas maneiras que realmente deseja encontrar uma forma.
Valor: Em sintonia com isso, os rendimentos dos títulos americanos têm chegado a níveis recordes. Quão sustentáveis são essas taxas?
Sheets: Esses níveis são preocupantes e estressantes. Até agora, a economia tem absorvido, em parte porque o mercado imobiliário está muito fraco. Além disso, há o impulso de crescimento associado a investimento em Inteligência Artificial, que é pouco sensível a juros. Mas, à medida que as taxas sobem, isso é um sinal de estresse contínuo e gera preocupação.
Espero que entre 3 e 6 meses, Trump consiga reabrir Ormuz. Como isso se dará, é incerto”
Valor: A nova política de recompras de títulos do Tesouro americano ajuda ou é insuficiente?
Sheets: Certamente não é suficiente. E acho que, no geral, as recompras levantaram questões sobre o que o Tesouro está tentando alcançar e foram vistas como sinal de preocupação. Se alguma coisa, acho que elas contribuíram para rendimentos mais altos em vez de mais baixos. As recompras de títulos têm sido fonte de incerteza.
Valor: O sr. se preocupa com intervenção política no Tesouro?
Sheets: Vimos alguma intervenção política. E não me surpreenderia se o Tesouro tomasse medidas adicionais. Mas acho que a trajetória dos rendimentos dos títulos continuará sendo determinada principalmente pelos mercados.
Valor: Trump reclama dos juros, mas o Fed elevou a taxa básica mesmo assim. O que esperam para as próximas reuniões?
Sheets: Acho plausível que vejamos outro aumento até o fim do ano. Nossa previsão oficial é que a taxa de juros permanecerá estável, mas acho que há incerteza quanto a isso. O Fed não atingiu sua meta de inflação por cinco, e agora seis, anos consecutivos. E o presidente [Kevin] Warsh enfatizou seu compromisso em fazer progressos mais significativos para alcançar esse objetivo. Acredito que os dados de inflação, à medida que avançamos para 2027, começarão a parecer mais animadores. Então, não creio que precisaremos de múltiplos aumentos. Mas acho que, dada a posição de Warsh, ele pode se sentir compelido a aumentar as taxas novamente.
Valor: O preço dos combustíveis nos EUA tem incomodado tanto que se falou em uma eventual intervenção no mercado de diesel, suspendendo temporariamente as exportações. Quais seriam as consequências econômicas disso?
Sheets: A maioria das pesquisas sugere que o efeito seria na direção de preços estáveis, ou até mais altos, dos combustíveis nos EUA de modo geral, considerando gasolina, querosene de aviação e diesel. O sistema está estruturado de forma que a maior parte do refino de diesel nos EUA seja destinada à exportação. Se você disser a essas refinarias que elas não podem mais exportar, duas coisas acontecem. Primeiro, haverá menos diesel no mercado global, o que aumentará o preço de importação, principalmente para a Costa Oeste [americana]. Segundo, elas refinarão não apenas menos diesel, mas também menos gasolina, e isso aumentará a pressão sobre os preços dos combustíveis. Portanto, creio que, do ponto de vista econômico, não seria vantajoso para os EUA proibir as exportações de diesel.
Valor: Essa discussão surgiu no contexto das eleições de meio de mandato, porque o custo de vida se tornou tema crucial. Qual é o cenário-base para as eleições?
Sheets: Em linhas gerais, existe a expectativa de que os democratas estejam bem posicionados para conquistar a Câmara. O Senado parece estar extremamente disputado. O resultado pode realmente pender para qualquer lado. Mas, resumindo, é provável que os democratas aumentem sua representação no Congresso e controlem pelo menos uma das duas Casas.
Valor: O que isso implica?
Sheets: De modo geral, isso não moldará a forma das políticas de Trump nos próximos dois anos. Grande parte do que ele faz é por ordem executiva, usando o Poder Executivo e as agências para tomar decisões e implementar regulamentos e políticas. Isso continuará. Mas há dois pontos em que a situação se complica.
Valor: Quais?
Sheets: Primeiro, na política fiscal, porque qualquer medida relacionada ao orçamento precisa da aprovação do Congresso. Segundo, há um risco específico que enfrentaremos no próximo ano, provavelmente no segundo semestre, quando teremos de aprovar um novo teto da dívida. O Congresso precisará elevar esse teto, caso contrário, será impossível para os EUA continuarem pagando sua dívida. E isso, possivelmente, será mais complicado se os democratas estiverem no controle do Congresso.
Valor: Com os democratas mais presentes no Congresso, como podem ser os próximos dois anos de Trump na Casa Branca e quais os reflexos para os mercados?
Sheets: A resposta para isso depende 95% do presidente Trump e de suas políticas. Se for constatada a vitória dos democratas, como ele reagirá? Simplesmente continuará agindo como tem agido? Ou vai pensar que só restam dois anos e vai dobrar a aposta? Isso poderia resultar em maior volatilidade nos mercados. Ou será que o resultado o fará repensar e adotar uma postura mais cautelosa? Sinceramente, não esperaria esse último desfecho. Eu diria que há certa probabilidade de vermos o presidente Trump ser mais agressivo do que tem sido até agora. Nada ficará tranquilo nos próximos dois anos.
Valor: A política migratória de Trump é criticada pelos eleitores. E sobre a economia, houve impactos?
Sheets: Sim e não. À medida que Trump endureceu a imigração, também vimos a demanda das empresas por novos trabalhadores cair. Parte disso esteve associado à desaceleração econômica, parte às tarifas, parte às tecnologias emergentes de IA. Como resultado, o mercado de trabalho permaneceu relativamente equilibrado, não houve escassez significativa de mão de obra. No entanto, se a demanda por mão de obra voltar a crescer, certamente poderemos começar a sentir a falta de trabalhadores. Esse continua sendo um risco para a economia.
Valor: Como o sr. vê os impactos da política tarifária de Trump não só na economia americana, mas também na relação com os países?
Sheets: As tarifas são uma realidade. O que ainda está em desenvolvimento, especialmente considerando a Suprema Corte, é quais fundamentos legais serão usados exatamente e quais serão as taxas para os países. Trump sinalizou que uma tarifa efetiva geral em torno de 10% é o patamar que, provavelmente, alcançaremos. É mais ou menos o que temos observado, e acredito que continuaremos assim. De modo geral, os efeitos econômicos já se fizeram sentir e os danos nas nossas relações internacionais já ficaram para trás. Dito isso, o recente atrito com o Canadá é digno de nota. Ainda precisamos negociar um caminho a seguir em relação ao USMCA [Acordo Estados Unidos-México-Canadá].
Valor: Xi Jinping, da China, visitou Trump na semana passada. Como está a relação entre os países?
Sheets: Acho que os dois se veem como fato inevitável da vida e, como consequência disso, existe um certo grau de codependência, em que, no fim, os EUA precisam de certas exportações da China, principalmente terras raras, e a China precisa de acesso aos mercados americanos. Acho que existe um respeito mútuo e, provavelmente, veremos uma espécie de estabilidade tênue na relação, com episódios em que as coisas se complicam, mas depois se acalmam.
Valor: O Brasil também tem eleição este ano. Há escândalos de corrupção e as relações com os EUA não estão boas. Como o investidor estrangeiro tem visto o país?
Sheets: Nos últimos anos, temos observado um crescimento significativo da economia brasileira impulsionado pela demanda interna. O comportamento do consumidor tem sido sólido. Isso significa que o crescimento tem sido consistentemente mais forte do que o esperado – e, em alguns momentos, a inflação tem sido um pouco mais alta do que o previsto. Existem alguns desenvolvimentos econômicos subjacentes no Brasil que me dão maior confiança na economia e que podem permitir ao país se tornar cada vez mais uma opção de diversificação de portfólio para investidores globais, já que a demanda interna oferece proteção contra acontecimentos nos EUA e no mundo. Isso me deixa cautelosamente otimista em relação ao Brasil. Outro ponto positivo é que este tem sido, e tudo indica que continuará sendo, um ambiente com preços de commodities sólidos e, em geral, favoráveis. E, se eu estiver certo, nos próximos anos, o dólar estará mais fraco em vez de mais forte. Isso, de modo geral, tem ajudado a América Latina. Então, acho que existem alguns fundamentos sólidos e o Brasil tem oportunidade. As incógnitas são políticas e como isso vai se desenrolar. E, como sempre, a situação fiscal e o nível da dívida, que constantemente afetam perspectivas. Então, existem complexidades e motivos para cautela, mas, no geral, parece que o Brasil está bem posicionado para a próxima década.
Fonte: Valor Econômico

