A economia americana entrou em um regime de crescimento nominal estruturalmente mais alto, e os portfólios precisam se ajustar a esse novo patamar. A avaliação é de Jim Caron, CIO do Portfolio Solutions Group da Morgan Stanley Investment Management, na edição de 10 de agosto do Caron’s Corner, comentário semanal baseado no framework de alocação BEAT (Bonds, Equities, Alternatives, Taxes e Transitional/caixa).
Segundo Caron, os Estados Unidos operavam em um cenário de crescimento real próximo de 1,6% e inflação de 2,0%, o que produzia um PIB nominal na faixa de 3,8% a 4,0%. Os dados recentes rompem essa referência: o PIB nominal do primeiro trimestre veio a 6,1% e o do segundo trimestre a 7,9% pelo deflator do PIB — ou cerca de 6,5% se o núcleo do PCE for usado como medida de inflação. Para ele, esse é o principal fator por trás do desempenho robusto dos lucros corporativos nos dois primeiros trimestres, já que o crescimento nominal se traduz diretamente em lucros medidos em dólares.
O segundo eixo da análise é o que Caron descreve como uma mudança cultural na estratégia de comunicação do Fed. Ele contrapõe o período de 1990 a 2007, anterior à comunicação ampliada, ao intervalo de 2010 a 2026, quando as diretrizes reforçadas introduzidas por Ben Bernanke após a crise passaram a orientar o mercado. O retorno atual a uma postura menos comunicativa, voltado a restaurar a independência da autoridade monetária, tende a elevar a volatilidade tanto em renda fixa quanto em renda variável. Na visão do gestor, o Fed deveria concentrar-se exclusivamente em inflação e política monetária, sem se estender a pautas políticas mais amplas.
Os números citados sustentam o argumento. O índice MOVE, que mede a volatilidade implícita do mercado de Treasuries, teve média em torno de 80 no período de comunicação ampliada, contra cerca de 100 entre 1990 e 2007 — uma diferença aproximada de 25%. No mercado acionário, o VIX passou de uma média próxima de 18 no período anterior para cerca de 20 no ciclo mais recente, alta de aproximadamente 12%.
A consequência aparece na curva de juros. Caron observa que o nível de volatilidade histórica do MOVE implicaria um Treasury de dez anos em torno de 5,5% no regime pré-comunicação ampliada, contra algo próximo de 4,6% hoje. Ele pondera, no entanto, que juros mais altos não são necessariamente negativos para as ações: o que importa é a origem da alta. Se vier de crescimento nominal produtivo, sustentado por política fiscal e regulatória favorável, o efeito sobre o mercado acionário pode ser benigno.
Sobre inflação, o gestor destaca que o próprio Fed reavalia suas métricas, olhando para além do núcleo do PCE em base anual. Medidas alternativas como a média aparada sugerem inflação na faixa de 2,3% a 3,3%, e a criação de uma força-tarefa interna para definir o melhor indicador aponta para uma calibragem mais fina da política monetária — o que, segundo ele, deve ajudar a conter parte da volatilidade. Caron considera improvável uma alta de juros neste ano, ainda que classifique a decisão como apertada e dependente dos dados de inflação e emprego. Os números do mercado de trabalho de julho vieram abaixo do esperado e, apesar de possíveis fatores técnicos, tendem a esfriar as apostas em elevação da taxa na reunião do FOMC de setembro, mantendo os juros longos em intervalo e transferindo o foco para os dados de preços.
No campo internacional, os juros americanos mais altos ajudaram a estabilizar o dólar, contendo a pressão vinda das métricas fiscais e da relação dívida/PIB. Para os mercados emergentes, o ambiente é descrito como geralmente favorável, especialmente diante das perspectivas ligadas a inteligência artificial e à demanda por recursos naturais, mas Caron recomenda seletividade. Ele mantém a expectativa de alta do dólar contra o iene, com enfraquecimento da moeda japonesa como tendência de longo prazo, sujeita a intervenções pontuais para evitar movimentos desordenados. Essa leitura embasa a posição estrategicamente overweight em ações japonesas, com destaque para bancos e determinados setores industriais.
Nas preferências de alocação, a casa segue overweight em ações americanas, sustentada pelo suporte do crescimento nominal aos lucros. Do outro lado, o mesmo movimento pesa sobre a renda fixa: os spreads podem permanecer comprimidos, mas o componente de duration dos retornos deve ficar pressionado. Caron reforça que os títulos continuam a desempenhar papel relevante nas carteiras, desde que a gestão de duration migre de uma abordagem passiva para uma administração ativa.
Fonte Caron’s Corner — “A Higher Nominal Growth World Brings on Higher Volatility”, Jim Caron, CIO do Portfolio Solutions Group, Morgan Stanley Investment Management, 10 de agosto de 2026.


