A disposição do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, em dar uma guinada “hawk” (menos leniente com a inflação) pode aumentar a volatilidade dos preços de ativos globais e reduzir o espaço que o Copom tem, no Brasil, para prosseguir com o ciclo de cortes da Selic. A questão será saber em que medida o novo chefe do BC americano, indicado pelo presidente Donald Trump, conseguirá implementar essa agenda.
No editorial da edição de julho do Boletim Macro, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) chama atenção tanto para a tentativa de Warsh reposicionar a instituição na postura em relação à inflação quanto a de rever práticas adotadas nos últimos anos.
O chairman instituiu cinco forças-tarefas para aconselhar sobre reformas estruturais com a participação de especialistas em política monetária economistas acadêmicos e executivos financeiros, entre outros.
“Warsh parece querer voltar a dar mais peso à estabilidade de preços em detrimento do pleno emprego. E criou as forças-tarefas com dois objetivos: dar apoio técnico às mudanças e ajudar a convencer o comitê da validade de suas convicções”, diz o pesquisador José Julio Senna.
Que convicções são essas? Senna lembra que, em artigo publicado ainda em novembro do ano passado, Warsh criticou duramente a postura das lideranças do Fed, acusando-as de agir demasiado lentamente e de limitar a capacidade do país de se beneficiar do “extraordinário” momento atual, em que a economia vive uma combinação de crescimento impulsionado pela Inteligência Artificial (IA) e políticas de desregulação econômica.
Em sua visão, o Fed deveria abandonar suas previsões de “estagflação” para os próximos dois anos, “como se crescimento abaixo do potencial e inflação 40% acima da meta fossem o que de melhor pudesse ser conseguido”. “O banco central deveria reexaminar os erros que levaram à grande inflação e esquecer o dogma de que a inflação decorre do rápido crescimento da economia e de ganhos salariais excessivos. No seu entender, inflação é causada por excesso de gastos do governo e de emissão monetária”, diz o texto.
“A mensagem é clara: inflação é uma escolha”, resume Senna. “Quando questionado, no Fórum Econômico de Sintra, se a IA teria efeito inflacionário sobre a economia americana, ele não perdeu a oportunidade de reforçar seu ponto: apenas se o Fed permitir.”
Além da postura menos condescendente com a inflação, Warsh também pretende atacar outros aspectos técnicos relacionados ao modus operandi da instituição, como os indicadores que balizam as decisões dos dirigentes e a política relacionada ao balanço. O Fed tem trabalhado no regime de “reservas amplas” desde a crise financeira de 2008, mas voltou recentemente a acelerar compras de títulos americanos, na margem, por entender que ele reduz a chance de episódios de aperto de liquidez como a que ocorreram em 2019.
O jogo do mercado é olhar a assimetria em relação à atuação da autoridade monetária”
O novo presidente da instituição, no entanto, já indicou em ocasiões anteriores entender que a medida cria uma distorção nos preços no mercado. “A preocupação é que, como benchmark do mercado, o juros de 10 anos baliza outros preços de ativos, como câmbio e commodities, e essa distorção prejudica a alocação correta dos recursos”, diz Senna.
Outro aspecto que pode vir a ter revisão – caso as indicações pregressas de Warsh sejam bom farol – é a prática do forward guidance. Ele entende que o mercado é mais eficiente quando simplesmente reage às informações que chegam a ele, ao invés de tentar adivinhar qual será a leitura que o BC terá dos dados. Ao mesmo tempo, é critico da transparência crescente que os banqueiros centrais deram às suas decisões. Em sua avaliação, é importante o Fed conservar certo espaço de manobra para que possa tomar as decisões que julga necessárias para atingir seus objetivos.
Nesse ponto, os pesquisadores avaliam que a intenção de Warsh parece ser uma “impossibilidade prática”. “A ideia de que você pode ter preços de mercado que são formados sem considerar a avaliação quanto à função de reação do BC não faz o menor sentido”, diz Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre e sócio da consultoria BRGC. “Os agentes não estão necessariamente preocupados com a verdade. O jogo do mercado é olhar a assimetria em relação à atuação da autoridade monetária.”
Senna acrescenta que, num ambiente em que o processo decisório é mais opaco, a volatilidade tende a ser maior. “É do interesse do banqueiro central ser transparente. Você sobe o juro, passa o sinal de que está precisando fazer um aperto, o mercado se antecipa e sobe o juro longo, derruba as bolsas, o consumo cai via efeito riqueza negativo… ou seja, a transparência ajuda na condução da política monetária”, explica. “Por outro lado, se as pessoas não sabem direito o que o Fed vai fazer, fica muito mais difícil definir preços.”
Com as forças-tarefas recém-criadas, ainda é cedo para dizer qual será o tamanho da mudança implementada, ou mesmo se haverá alguma. Mas Warsh tem a possibilidade de mostrar desde já que não pretende ficar apenas no discurso, diz Senna. “Seria um golaço se ele levar o Fed a subir os juros nesta reunião. Um choque de expectativas condizente com o tamanho da crítica que fez, e na direção que parece querer levar o Fed.”
O ex-diretor do BC pondera, por outro lado, que é difícil imaginar que o comitê o apoiaria nessa mudança de direção. “Os membros votantes já se mostram preocupados com a inflação mesmo antes da saída do [ex-presidente do Fed, Jerome] Powell. Mas entre isso e elevar os juros, é um passo grande.”
Para o Brasil, uma postura mais austera impõe maior cuidado com a condução da política monetária local – a alta de juros nos EUA tende a drenar recursos em direção à economia americana, resultando em apreciação do dólar.
“Em nossa avaliação, o Banco Central já sinalizou que haverá corte da Selic em julho. Então uma surpresa no Fed não afetaria o resultado da próxima reunião, mas pode ser decisivo em termos da sequência do ciclo de baixa dos juros.”
Fonte: Valor Econômico
