A surpresa positiva com os números de julho do IPCA-15, a prévia da inflação no Brasil, reforçou a expectativa de participantes do mercado por um novo corte da taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), em 5 de agosto. Com isso, os juros futuros tiveram queda firme e o Ibovespa retomou a marca de 176 mil pontos no pregão de ontem.
Na renda fixa, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2029 caiu de 14,435% para 14,25%, e a do DI de janeiro de 2031 recuou de 14,585% para 14,465%. Já o Ibovespa avançou 0,70%, aos 176.565 pontos, após ter tocado a máxima de 178.539 pontos durante a sessão.
A leve alta de 0,06% do IPCA-15 de julho não apenas ficou bem abaixo das estimativas do mercado como também marcou o menor resultado para o mês desde 2023. Além da surpresa com o número “cheio”, houve uma melhora qualitativa exibida pelo indicador, conforme destaca Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos.
“Este foi o terceiro dado seguido de IPCA abaixo do esperado, mas os outros dois não tinham trazido uma composição geral tão boa quanto a deste”, diz ela, que vê uma “perspectiva boa” para a inflação no curto prazo, não apenas pela sazonalidade favorável de meio de ano como também por sinais concretos de melhora do indicador.
“O que pode fazer com que essa inflação siga baixa é a atividade. Houve um impulso fiscal no primeiro trimestre e agora provavelmente vamos viver uma ‘ressaca’ desses estímulos”, avalia. Veronese vê possibilidade até de deflação em agosto, o que poderia levar a revisões nas expectativas do Boletim Focus, ainda que a possibilidade de um novo choque do petróleo e o El Niño sigam como riscos importantes para o segundo semestre.
Do ponto de vista da política monetária, o IPCA-15 de julho pode “chancelar” um corte da taxa Selic, de 14,25% para 14%, na reunião do Copom na próxima semana. Segundo a economista, “não faria sentido não cortar com esses dados de inflação corrente”, dada a comunicação recente do BC. Agora, para ela, a discussão passará a ser se o Copom terá espaço para seguir cortando juros além de agosto.
O cenário-base da B.Side Investimentos inclui duas reduções de 0,25 ponto percentual da Selic, uma na semana que vem e outra em alguma das três reuniões restantes do comitê em 2026. Veronese, que há uma semana via uma assimetria de alta para a sua projeção de Selic a 13,75% no fim deste ano, comenta que o IPCA-15 de julho já a deixa “tranquila” em relação ao seu cenário-base.
O gestor de renda variável da Persevera Asset Management, Fernando Fontoura, vai na mesma linha ao avaliar que, mais do que o número em si, a principal mensagem do IPCA-15 de julho é que o dado afastou a tese de que, eventualmente, o BC poderia realizar uma pausa no ciclo de corte de juros na reunião da semana que vem, o que seria um “erro de política monetária” na avaliação da casa.
Expectativas longas não se movem só por conta do BC. É um termômetro da credibilidade da política econômica”
De olho em uma maior assimetria positiva para as ações brasileiras neste momento, Fontoura diz que a gestora aumentou a posição direcional para a bolsa local na semana passada.
“Achamos que a bolsa já tinha encontrado um ‘fundo’ no mercado local. Percebemos que dias mais negativos não estavam fazendo a bolsa cair substancialmente. Por outro lado, dias mais positivos estavam fazendo a bolsa responder de maneira importante, como hoje [ontem]”, avalia o executivo da Persevera.
A mudança na alocação também foi motivada pelo baixo posicionamento técnico de investidores locais na bolsa, que estão bastante pessimistas. “Tem muita gente meio que ‘jogando a toalha’ e meio que desenganada em relação às eleições e à questão fiscal”, diz Fontoura. “Chegou a um ponto em que todo mundo está muito fora de Brasil de novo. O ‘gringo’ pausou para ir para o tema de IA [inteligência artificial]. Não temos visto grande movimentação, mas achamos que, em algum momento, esse fluxo pode voltar”, acrescenta.
A questão fiscal é, inclusive, a principal razão para que o Copom não corte ainda mais a taxa Selic e as expectativas de inflação de longo prazo sigam subindo, de acordo com Veronese. “Por que não prevejo mais cortes se a inflação começa a mostrar desaceleração, a atividade enfraquece e temos uma população extremamente endividada? Por causa do risco fiscal”, aponta. “Por mais que [o Banco Central] tenha essa tendência de cortar, não pode largar mão de se preocupar com o fiscal.”
Já Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, entende também que há um componente de confiança do mercado no próprio BC que tem afetado as expectativas de longo prazo. De acordo com ela, o controverso comunicado da decisão de junho do Copom engatilhou a desancoragem observada nas últimas semanas.
“As expectativas longas não se movem só por conta do BC, eu diria que é um termômetro da credibilidade da política econômica do país como um todo. Mas, no final, o mandato é do BC, então acho que há, sim, um questionamento sobre se ele vai entregar a inflação na meta”, diz Victal. Para ela, o mais adequado seria pausar o ciclo de cortes da Selic e voltar a cortar os juros com um cenário menos turbulento, a fim de não correr o risco de ter de reverter a flexibilização monetária adiante.
Apartado da dinâmica da bolsa e dos juros, o mercado local de câmbio operou levemente pressionado ontem por uma nova rodada de queda dos preços do petróleo. O barril do tipo Brent, referência internacional da commodity, fechou ontem em queda de 4,83%, a US$ 84,09, ao passo que o dólar à vista avançou 0,20%, a R$ 5,1216.
O real também se distanciou do desempenho de outras moedas de mercados emergentes. Sinais de que os Estados Unidos e o Irã podem retomar o acordo de cessar-fogo não apenas derrubaram os preços do petróleo como também impulsionaram ativos de risco, mas a fraqueza da commodity energética tirou o suporte do real, que se tornou uma das moedas com pior desempenho durante a sessão.
Já em Nova York, o mercado acionário encerrou o dia sem direção única, já que o desempenho negativo de ações de empresas fabricantes de semicondutores acabaram pesando em parte dos índices, limitando os ganhos potenciais com a redução do prêmio de risco geopolítico. Assim, o S&P 500, referência da bolsa nova-iorquina, fechou em leve alta de 0,21%, aos 7.428,78 pontos.
Fonte: Valor Econômico
