Ainda que a inteligência artificial (IA) se mantenha no centro das atenções dos investidores, outras histórias vêm ganhando protagonismo nas últimas semanas e o momento pode ser favorável para o mercado de ações do Brasil. Segundo Gina Martin Adams, estrategista-chefe de mercados da HB Wealth, gestora de patrimônio com US$ 30 bilhões em ativos, já há um movimento de rotação na liderança do mercado americano, o que faz a executiva manter uma visão otimista para os setores de energia e materiais.
Em entrevista ao Valor, Adams aponta que a HB Wealth mantém um viés otimista para o mercado acionário dos EUA, justificada pela continuidade da recuperação econômica, crescimento dos lucros das empresas e em valuations relativamente favoráveis. No entanto, a estrategista observa um movimento de rotação entre setores, com a liderança das bolsas dos Estados Unidos deixando de se concentrar apenas em tecnologia.
“Energia e materiais básicos são, de longe, os nossos setores favoritos neste momento”, ela afirma. “Há dois anos, fazia sentido concentrar os portfólios em tecnologia, porque esse era praticamente o único setor do S&P 500 que apresentava crescimento. Agora, o cenário é muito diferente. Os lucros de tecnologia estão começando a desacelerar, especialmente entre as ‘hyperscalers’, e isso está permitindo que outros setores comecem a ganhar destaque.”
Martins Adams tem observado uma correlação entre esses setores em um movimento que tende a beneficiar mercados mais expostos a commodities, como o Brasil. Em momentos em que as ações de tecnologia perdem força, seja pelas dúvidas em torno da inteligência artificial ou maior percepção de risco, as empresas de energia tendem a assumir maior protagonismo. Por outro lado, quando o sentimento em relação à tecnologia melhora ou ocorre uma eventual trégua no conflito entre Estados Unidos e Irã capaz de reduzir a pressão sobre os preços do petróleo, a dinâmica pode se inverter.
“O Brasil é um mercado mais sensível a commodities e ao setor financeiro, então o fato de os juros globais estarem, em geral, subindo em um ambiente inflacionário acaba sendo positivo para ações da América Latina, especialmente para as brasileiras”, ela afirma, destacando que esses momentos de rotação podem trazer boas oportunidades de compra.
Adams acredita que essa tendência deve continuar, pelo menos no curto prazo, na medida em que o sentimento nos mercados tem sido moldado pelos desdobramentos do Oriente Médio e a disparada dos preços do petróleo. Para a estrategista, embora o setor de energia possa passar por uma correção quando o conflito entre Estados Unidos e Irã chegar a uma nova resolução, o caminho no longo prazo ainda é de alta.
“Os setores de energia e materiais básicos estão passando por uma recuperação extraordinária dos lucros, depois de terem ficado muito para trás em termos de desempenho nos últimos três anos”, ela argumenta, citando que esses setores também se beneficiam dos elevados investimentos de empresas de tecnologia em data centers de inteligência artificial.
Entre energia e tecnologia, Adams acredita que é difícil dizer qual dos dois setores deve trazer o melhor retorno no longo prazo. No entanto, ela observa um movimento de rotação para “ativos de valor”, o que pode favorecer as empresas de energia. “Depois de um período extraordinário de desempenho superior da tecnologia, faz sentido que estejamos entrando em uma fase em que outros setores assumam a liderança e conduzam o mercado para cima”, explica a estrategista. “Podemos ter uma reprecificação relevante em tecnologia, que permita ao setor renovar sua tendência de alta. Mas, por enquanto, parece que a energia está na posição de liderança.”
Ela reconhece que a perspectiva de aperto monetário pelo Federal Reserve (Fed) e a instabilidade no Oriente Médio trazem riscos para o desempenho das bolsas americanas, mas destaca que há uma tendência de maior participação de diferentes setores no crescimento econômico nos EUA. “Estamos começando a ver, finalmente, sinais de uma expansão econômica mais disseminada, não apenas um crescimento concentrado em tecnologia”, afirma. “Isso está ajudando a impulsionar o otimismo em relação aos lucros das empresas que compõem o S&P 500.”
No setor de tecnologia, a HB Wealth prefere adotar uma abordagem diversificada entre os diferentes segmentos. Adams acredita que embora a perspectiva de lucro para os semicondutores seja positiva por enquanto, diante da forte demanda das ‘hyperscalers’, boa parte desse retorno já foi precificado pelo mercado e dificilmente essas empresas serão capazes de sustentar o ritmo acelerado de crescimento visto até o momento.
“A barra de expectativas para as empresas de semicondutores está muito alta”, ela explica. “Será muito difícil que as empresas de semicondutores continuem entregando uma aceleração dos lucros suficiente para sustentar um ritmo muito forte de valorização das ações. Isso significa que elas provavelmente vão perder protagonismo para outros setores ou segmentos de tecnologia dentro do mercado acionário mais amplo.”
A HB Wealth também apresenta maior cautela quanto às ‘hyperscalers’, diante das despesas elevadas. “Elas estão destinando uma parcela extraordinariamente elevada do seu fluxo de caixa para construir data centers e financiar toda essa promessa da inteligência artificial para o futuro, sem ainda demonstrar um retorno realmente expressivo sobre esses investimentos”, afirma a estrategista. Adams acredita que, para que essas empresas voltem a ganhar fôlego, será necessário apresentar números muito mais fortes de retorno sobre capital investido. “Estou esperando sinais mais claros de que esses investimentos em IA comecem, de fato, a gerar retornos significativos.”
Fonte: Valor Econômico
