A Morgan Stanley Investment Management (MSIM) elevou sua recomendação para ações globais a overweight e afirma que a alta dos juros reflete sobretudo um crescimento nominal forte, e não um estresse econômico. A visão consta do guia trimestral de alocação “The BEAT”, do Portfolio Solutions Group, referente ao quarto trimestre de 2026. Para a gestora, os bancos centrais estão retirando estímulos, mas não impondo restrição efetiva, e o bull market em ativos de risco deve voltar a se firmar quando as forças que pressionam os yields perderem fôlego.
O ponto de partida é o retorno dos Treasuries de 10 anos para perto de 5%, o maior nível desde o fim de 2023. A alta veio após o colapso do Memorando de Entendimento (MOU) entre EUA e Irã e a consequente recuperação do petróleo. Com o crescimento nominal do PIB americano perto de 6% e cerca de 3 pontos percentuais acima da taxa de política monetária, a MSIM avalia que o Fed ainda tem espaço para subir juros antes de afetar a atividade. Historicamente, recessões ocorreram quando o Fed Funds superou o crescimento nominal. O mercado já precifica um ciclo sincronizado de aperto, com altas de juros de Fed, BCE, BoJ e BoE até meados de 2027, motivado pelo choque de energia da guerra no Irã e não por excesso de demanda.
O cenário macro descrito é de crescimento resiliente, inflação persistente mas sem contágio para salários, mercado de trabalho firme sem superaquecimento e política fiscal expansionista. O core PCE subiu para 3,3%, mas a medida de trimmed mean ainda indica desinflação subjacente. As vendas no varejo de agosto superaram as expectativas, e os PMIs globais de serviços e indústria aceleraram. O principal risco, segundo a gestora, é um choque de oferta de petróleo que force os bancos centrais a apertar demais. A transmissão mais direta para a inflação viria dos derivados, sobretudo o diesel, diante da perda de capacidade de refino.
Ações: lucros acima dos juros
A MSIM mantém overweight em ações dos EUA, apoiada no estímulo fiscal do One Big Beautiful Bill Act, na desregulação e na adoção de IA. Também prefere small e mid caps americanas a large caps, e setores cíclicos a defensivos. O MSCI ACWI acumula alta no ano sustentada por lucros: o EPS projetado para 12 meses subiu 30%, enquanto o P/L forward caiu 14%. As revisões de lucro no S&P 500 seguem lideradas por Growth/Tech, com alta de cerca de 29% para 2026 e 19% para 2027, mas começam a se espalhar para os cíclicos.
A demanda por IA continua acelerando com a adoção de IA agêntica. O volume de tokens processados na OpenRouter chegou a 113 trilhões por semana no fim de agosto, 25 vezes mais que um ano antes. A Nvidia projetou crescimento de receita de 70% no ano fiscal de 2028, contra consenso de 45%. Entre os temas preferidos estão os fornecedores de infraestrutura de IA (picks and shovels), os habilitadores de IA agêntica, financials e managed care, setor que a gestora considera oversold.
Fora dos EUA, a MSIM está underweight em Europa, onde prefere bancos, utilities e fornecedores de equipamentos de rede elétrica, e underweight em Índia, por falta de exposição a IA, preço de energia elevado e prêmio de P/L próximo de 100% sobre emergentes. Japão e emergentes como um todo estão em neutro. A gestora elevou a convicção em bancos japoneses, que devem se beneficiar de um BoJ caminhando para juros de 2%. Em emergentes, destaca que o prêmio de valuation dos semicondutores se desfez por completo, mesmo com lucros ainda em forte alta em Taiwan e Coreia.
Renda fixa: menos duration, mais carry
A gestora segue levemente underweight em duration e underweight em crédito corporativo investment grade, com spreads perto das mínimas históricas. Rebaixou a dívida soberana emergente em moeda forte para neutro pelo mesmo motivo. Mantém neutro em high yield e overweight em bank loans, títulos atrelados à inflação (TIPS) e municipal bonds, estes elevados taticamente para overweight. MBS/ABS seguem como a maior convicção da carteira de renda fixa. Na zona do euro, prefere Espanha e Portugal a França e Alemanha.
O Brasil aparece como destaque. A MSIM mantém overweight em moeda local emergente por meio de títulos brasileiros: com juros acima de 13% e inflação perto de 4%, a gestora espera que o Banco Central continue cortando a Selic, o que deve estimular o crescimento, melhorar o déficit fiscal, atrair fluxo e sustentar o real. Entre os temas por país está o “Brazil Disinflation”, com overweight no título de 3 anos contra caixa.
Alternativos
Em private markets, a visão é neutra a positiva para private equity, infraestrutura e real estate, e neutra para private credit e recursos naturais. Em private equity, os múltiplos de buyout de small e mid caps caíram, mas as distribuições ainda dependem de mais saídas. A IA já responde por cerca de 70% do valor investido em venture capital nos EUA, e a gestora segue cautelosa com os valuations de late-stage. Em private credit, as preocupações com direct lending estão diminuindo: os pedidos de resgate em BDCs estão moderando e os defaults se concentram nas safras de 2021 e 2022 e em empresas de EBITDA menor. A MSIM prefere estratégias de “loss avoidance” a estratégias de “yield seeking” e vê oportunidade em special situations. Em infraestrutura, a demanda de data centers por IA impulsiona power e renováveis, mas restrições de política, licenciamento e rede limitam a nova capacidade. Em commodities, a posição é neutra.
Fonte
Morgan Stanley Investment Management (MSIM), Portfolio Solutions Group — “The BEAT: Quarterly Global Market and Asset Allocation Guide”, Q4 2026, outubro de 2026.

