O segundo turno das eleições 2026 que enfrentaremos no 25 de outubro coloca diante do investidor dois arranjos de política externa com efeitos distintos sobre preços de ativos.
Para quem aloca capital, a pergunta útil é o que cada um coloca no preço, e não qual dos ativos é o preferível. Em quase tudo eles se distanciam. Em um ponto essencial, porém, convergem: na relação econômica com a China.
Em um governo de Flávio Bolsonaro (PL), Washington encontraria um interlocutor com agenda já declarada. Em maio, depois de se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Flávio anunciou a intenção de firmar uma parceria de longo prazo em terras raras e minerais críticos, com investimento e industrialização no Brasil.
Prometeu buscar um acordo de livre-comércio com os EUA, aderir ao Escudo das Américas – grupo composto por governos do Hemisfério Ocidental alinhados à administração norte-americana atual – e ainda apoiou a classificação de duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Some-se a isso uma afinidade ideológica com a nova direita sul-americana, que hoje inclui José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Javier Milei, na Argentina. Com o Brasil, esse grupo ganharia a escala que não tem, e Washington ganharia um alinhamento regional que dispensaria negociações caso a caso.
Já em um novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a política externa seguiria a estratégia de equilíbrio entre potências, apoiada em uma narrativa de soberania que orientou a reação às tarifas norte-americanas reimpostas em julho e a recusa em aderir ao Escudo das Américas.
Washington continuaria tratando o Brasil como parceiro que negocia ponto a ponto e a relação bilateral seguiria marcada por atrito comercial e por baixa convergência em segurança.
O tema que mais diferencia os dois cenários, e o que exige mais cuidado técnico, é o das terras raras. O Brasil tem 21 milhões de toneladas de reservas, segundo o Serviço Geológico dos EUA, atrás apenas dos 44 milhões da China. Reserva, no entanto, é o elo de menor valor da cadeia.
O valor se concentra nas etapas seguintes: a separação dos elementos por extração por solventes, a redução a metais e ligas e, por fim, a fabricação de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, usados em motores elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.
A China responde por cerca de 70% da mineração mundial, mas por uma fatia muito maior do refino e por 94% da produção de ímãs. Também restringe a exportação de tecnologias de separação e de parte dos elementos pesados, como disprósio e térbio, justamente os mais escassos e os mais relevantes para ímãs de alto desempenho.
Parte relevante dos depósitos brasileiros é do tipo argila iônica, que tende a ser mais rica nesses elementos pesados, o que explica o interesse estratégico norte-americano por nossas reservas.
Prazo, preço e geopolítica nas terras raras brasileiras
Para o investidor, três consequências decorrem disso. A primeira é a de prazo: projetos de terras raras envolvem licenciamento ambiental, autorização da Agência Nacional de Mineração e, quando há tório ou urânio associados, um aval da autoridade nuclear. Ademais, eles raramente produzem em escala comercial em menos de cinco a sete anos. Qualquer parceria anunciada em 2027 é tese de capex (investimento) de longo prazo, e não de resultado de curto prazo.
A segunda é de preço: sem uma cadeia ocidental de refino, o produtor fora da China vende a preços formados em um mercado que Pequim domina. Por isso, o modelo que Washington tem usado combina contratos de compra de longo prazo com preço mínimo garantido, como o acordo do Pentágono com a MP Materials em 2025, que fixou piso de US$ 110 por quilo de óxido de neodímio-praseodímio.
A terceira é institucional: a Política Nacional de Minerais Críticos, sancionada em setembro, prevê até R$ 5 bilhões em créditos fiscais e um fundo garantidor de até R$ 2 bilhões.
Ela também criou um conselho vinculado à Presidência com poder de avaliar mudanças de controle societário, influência estrangeira e acordos internacionais de fornecimento. O mesmo instrumento serve a objetivos diferentes conforme quem o opera. Em um cenário, pode condicionar acordos à agregação de valor no País. Em outro, pode acelerar parcerias com capital norte-americano.
A relação com a China, por sua vez, permanece praticamente igual nos dois casos. Cerca de 79% das exportações brasileiras de soja, 67% das de minério de ferro e 45% das de petróleo seguem para o mercado chinês, parceiro comercial número um do Brasil desde 2009.
O que muda de um cenário para outro é a variável regulatória sobre o capital chinês. A diretriz do governo Trump para o hemisfério afirma que competidores de fora da região não devem possuir nem controlar ativos estrategicamente vitais.
Em um governo alinhado a Washington, a pressão tende a se deslocar do comércio para o investimento e transmissão de energia, geração, mineração, portos e veículos elétricos são os setores com presença chinesa relevante no Brasil.
Uma triagem mais rigorosa de mudanças de controle ou de novos aportes nesses segmentos afetaria múltiplos de saída, o apetite de compradores em processos de fusões e aquisições (M&A) e o custo de capital de ativos com sócios chineses. Em um governo Lula, essa triagem tende a ser menos restritiva para o capital chinês e mais exigente na agregação de valor local.
Há também a dimensão comercial. Um acordo bilateral de livre-comércio com os Estados Unidos esbarra na Decisão 32/00 do Mercosul, que obriga os membros a negociar acordos tarifários em bloco e exigiria, portanto, flexibilizar essa regra ou renegociar a arquitetura do bloco.
A Comissão Europeia já sinalizou que o acordo UE-Mercosul, em aplicação provisória desde maio, seguiria valendo para o Brasil de qualquer forma, o que reduz o risco jurídico, mas não o político.
O mercado de câmbio já trata o resultado como bimodal, com projeções do JPMorgan de dólar a R$ 5,50 em um cenário e a R$ 4,90 no outro. Esse diferencial captura sobretudo expectativa fiscal.
A variável de política externa que deveria entrar nos modelos é a de prazo mais longo e menos visível: em um cenário, o custo de manter a China como cliente principal enquanto se aprofunda o alinhamento estratégico com Washington; no outro, o custo de manter o atrito com Washington enquanto a China segue como cliente principal.
Em ambos, o comprador das commodities brasileiras continua o mesmo. O que varia é quem será autorizado a ser o dono dos ativos que as produzem.
Fonte: E-Investidor

