Grandes varejistas e empresas da construção civil, altamente ligadas à demanda doméstica, além de companhias do agronegócio, tiveram forte alta nas ações após o resultado do primeiro turno das eleições. Os segmentos têm subido bem acima do Ibovespa, principal indicador da B3, numa velocidade até três vezes o ritmo da bolsa.
Os papéis do Magazine Luiza se valorizam 24,84% nesta segunda, enquanto os da C&A subiram 19,71% e os da Renner, 15,39% – todas ações que fazem parte do Ibovespa. Também no varejo alimentar, os papéis do Assaí tiveram alta de 15,52% e do supermercadista Mateus, de 6,48%.
Apesar de Flávio Bolsonaro e seus assessores ainda não terem detalhado o que pretendem implementar na área econômica, os analistas têm uma expectativa de que um eventual novo governo se comprometa com um ajuste fiscal mais robusto e que isto possa dar início a um processo de redução das taxas de juros de forma mais consistente.
Essa perspectiva fez as ações de empresas ligadas ao setor de consumo e demanda local acelerarem os ganhos. Esses segmentos vêm, desde 2021, amargando perdas com o peso dos juros em dois dígitos a ponto de empresas locais caminharem com alta alavancagem levando a pedidos recordes de recuperação judicial e extrajudicial.
Na visão dos bancos, o rali observado nesta segunda na bolsa não deve ser passageiro e pode ter continuidade após o 2º turno
Os papéis de shopping centers também avançaram acima do Ibovespa, com as ações mais resilientes numa alta mais forte – a ação da Multiplan subiu 10,22% e a da Iguatemi, 9,06%. No setor de construção, MRV avançou 11,01%; Plano&Plano, 16,93%; e Cury, 8,21%. Entre os frigoríficos, a MBRF chegou a subir cerca de 9%, terminando o pregão em alta de 4,77%. Os papéis da Minerva Foods fecharam com ganhos de 7,99%. Já os BDRs (recibos de ações) da JBS encerraram em queda de 2,05%, reflexo do recuo do dólar ante o real.
Empresas do setor agrícola também registraram ganhos acentuados. A 3tentos, que atua na comercialização de insumos agrícolas, se destacou fechando com alta de 8,04%.
Na visão dos bancos, o rali observado na bolsa local não deve ser passageiro. Eles avaliam que o mercado acionário brasileiro poderá passar por uma reavaliação no curto prazo, caso uma vitória do candidato bolsonarista se confirme no segundo turno.
Na avaliação de empresários ligados ao comércio varejista, houve uma “onda azul” no país que ganhou força com o eleitorado pressionado pelo aumento do endividamento e pelo desejo de mudança na condução da política econômica do país, e isto ajuda a explicar o favoritismo de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
A “onda azul” relatada pelo presidente de uma rede de comércio ganhou força em decorrência de uma postura equivocada do presidente da República, que jogou boa parte das fichas no fortalecimento de programas sociais antes das eleições e não entendeu o peso do custo político da alavancagem das famílias, e da alta dos juros, que é fruto do desequilíbrio das contas públicas, afirma ele.
O desfecho do primeiro turno desencadeou uma recalibragem de recomendações de ações por parte dos analistas. Bancos como Citi, Jefferies, J.P. Morgan, BTG Pactual e BradescoCotação de Bradesco BBI apontam que a perspectiva de um ajuste fiscal mais profundo em um potencial governo de Flávio Bolsonaro vai beneficiar diretamente as companhias que têm dívidas atreladas à Selic e também às com maior exposição direta à economia doméstica.
Essa leitura apoia-se em uma contração no prêmio de risco e na tendência de fortalecimento do real frente ao dólar, estabelecendo um ambiente favorável para essas empresas, ao mesmo tempo em que restringe o apelo de teses defensivas e impõe pressões a empresas puramente exportadoras de commodities.
No segmento de petróleo, gás e distribuição de combustíveis, um possível realinhamento de preços à paridade internacional fez com que analistas do Citi e do BradescoCotação de Bradesco BBI posicionassem a Petrobras como um dos ativos com maior potencial a depender do resultado do segundo turno, no dia 25. A tese repousa na expectativa de que a estatal restabeleça a política comercial de combustíveis do governo de Jair Bolsonaro, implemente cortes em despesas operacionais e de investimentos, e retome programas focados na venda de ativos maduros ou fora do escopo operacional da Petrobras.
Essa postura, além de enxugar a operação da companhia, afirmam os analistas, tende a retroalimentar petrolíferas independentes, a exemplo de Prio, Brava Energia e PetroReconcavo, que poderiam disputar novas reservas e expandir seus próprios portfólios.
Já o possível alívio nas taxas de juros também dá fôlego para companhias como Cosan e Vibra Energia, que contam com uma alavancagem elevada e poderiam acelerar a redução do seu envididamento.
Por outro lado, o BradescoCotação de Bradesco BBI optou por rebaixar taticamente a exposição a grandes redes de distribuição, como a própria Vibra e a Ultrapar, sob o entendimento de que o caráter defensivo do segmento levará esses papéis a apresentar um desempenho inferior relativo frente a empresas cíclicas no curto prazo.
A inflexão no custo do capital também provocou mudanças expressivas na cobertura de construção civil do J.P. Morgan, que elevou as recomendações de Cyrela e EZTec de neutra para compra, ao mesmo tempo em que rebaixou Cury, Direcional e Tenda de compra para neutra. Os analistas argumentam que a redução nos juros estimula os investidores a buscar nomes com maior elasticidade à economia e à renda média e alta, segmento com histórico comprovado de boa performance em momentos de virada eleitoral.
Segundo análise do Citi, o fortalecimento do real opera contra as margens de exportadoras no segmento de mineração, siderurgia e papel e celulose, como Vale, CSN Mineração e Suzano. Ainda assim, a Vale preserva uma barreira natural em virtude de sua extrema liquidez na bolsa, atuando como porta primária de entrada para alocações globais, além de ter boas perspectivas operacionais com sua expansão no segmento de cobre, podendo adicionar US$ 13,5 bilhões em valor à empresa, segundo o J.P. Morgan.
Fonte: Valor Econômico
