A disparada do Ibovespa após o primeiro turno das eleições está acelerando uma movimentação dos bancos de investimento para uma nova rodada de ofertas de ações, mercado que está bastante morno neste ano. Executivos responsáveis pelas áreas de renda variável começaram a procurar clientes já na semana passada e agora intensificam as conversas, provocando empresas a aproveitar a valorização das ações para captar recursos, apurou o Valor.
O Ibovespa chegou a subir 9,1% nesta segunda-feira nas primeiras horas do pregão. O índice fechou com alta de 7,7%, aos 206 mil pontos. Na sexta-feira, antes da votação, o índice já havia avançado 2,63%, aos 192.114 pontos. Com o salto, a valorização acumulada em 2026 se aproxima de 30%.
Já há múltiplas apresentações de bancos a potenciais clientes para discutir “follow-ons”, que são as ofertas subsequentes de ações de companhias que já estão listadas na bolsa, segundo pessoas que acompanham as conversas. No jargão do mercado, essas apresentações são chamadas de “pitches” e fazem parte da disputa dos bancos pelos mandatos das operações. As primeiras operações são esperadas para serem lançadas em breve, se mantida a valorização dos papéis.
A leitura predominante é que uma retomada mais ampla deve começar justamente pelos follow-ons, que podem ser estruturados mais rapidamente. Além da melhora das condições de mercado, há empresas que precisam reforçar o caixa, reduzir endividamento ou recompor sua estrutura de capital, o que pode estimular operações primárias.
Uma fonte frisa, contudo, que a euforia do mercado com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ainda depende do resultado das urnas no segundo turno e que uma alta mais perene dos ativos depende de medidas macroeconômicas e de ajustes fiscais, algo que ainda é nebuloso em um eventual governo do candidato do PL.
No primeiro semestre, oito ofertas de ações movimentaram cerca de R$ 22 bilhões
O movimento começou antes da votação, acompanhando a valorização da bolsa nas últimas semanas, mas ganhou novo impulso depois do primeiro turno. Agora, os bancos avaliam quais empresas poderiam aproveitar uma janela e quais operações teriam condições de chegar ao mercado rapidamente caso o ambiente permaneça favorável. Segundo banqueiros de investimento, a fila de operações represadas é grande.
O mercado de ações não ficou completamente parado em 2026, mas parte relevante do volume veio de operações com características específicas, realizadas independentemente de uma reabertura mais ampla do mercado. No primeiro semestre, oito ofertas movimentaram cerca de R$ 22 bilhões, segundo dados da B3Cotação de B3. Há nenhuma oferta há três meses, contudo.
A principal operação do ano até aqui foi a privatização da Copasa, que movimentou R$ 8,38 bilhões em junho. A oferta envolveu a venda, pelo Estado de Minas Gerais, de ações correspondentes a 45% do capital da companhia. Por estar vinculada ao processo de desestatização, a transação tinha uma dinâmica própria e ocorreu a despeito de um ambiente ainda pouco favorável para ofertas convencionais de ações no mercado.
Outra operação de grande porte com características particulares foi a da Engie , em julho, de R$ 8,36 bilhões. Desse total, R$ 5,74 bilhões corresponderam à subscrição feita pela controladora por meio da entrega de sua participação na hidrelétrica de Jirau. Aproximadamente R$ 2,6 bilhões vieram efetivamente de agentes do mercado.
Também neste ano, a Compass encerrou um período de quase cinco anos sem ofertas públicas iniciais de ações, os IPOs, na B3Cotação de B3. A companhia, controlada pela Cosan, movimentou R$ 3,2 bilhões em maio em uma oferta integralmente secundária, na qual os recursos foram destinados aos acionistas vendedores, e não ao caixa da empresa. A operação fez parte da estratégia da Cosan, sua controladora, de reduzir seu endividamento e melhorar a estrutura de capital. Embora tenha formalmente quebrado o jejum de IPO, a transação é vista por bancos como um caso específico, e não como o início de uma sequência de novas empresas chegando à bolsa.
É nesse contexto que os bancos enxergam uma diferença na movimentação atual. A expectativa é que a valorização das ações possa viabilizar ofertas motivadas não por privatizações ou reorganizações específicas, mas pela melhora das próprias condições de mercado. A necessidade de algumas empresas de recompor sua estrutura de capital reforça a percepção de que os follow-ons podem ser os primeiros a chegar.
Como envolvem companhias já listadas, com preço de referência e relacionamento regular com investidores, os follow-ons podem ser preparados e executados em prazo significativamente menor do que um IPO. Isso permite aos bancos e às empresas aproveitar mesmo uma janela mais curta de mercado. Historicamente, o mercado começa reabrindo com as vendas em blocos (“block trade”), seguido dos follow-ons, para depois partir para as aberturas de capital.
A movimentação, porém, não se limita às companhias já listadas. Bancos também voltaram a trabalhar na preparação de potenciais IPOs. Nesse caso, a leitura de maior peso entre executivos do mercado é que uma reabertura mais consistente deve ficar para 2027.
Para IPOs, expectativa dos bancos é que uma reabertura mais consistente deve ficar para 2027
Fevereiro aparece nas conversas como uma das primeiras janelas possíveis. Até lá, haverá maior clareza sobre o cenário político e econômico depois das eleições e será possível avaliar se a valorização dos ativos brasileiros terá sustentação. Um IPO também exige um processo mais longo de preparação e maior previsibilidade de mercado.
A estratégia é avançar agora com os procedimentos necessários para que as empresas estejam prontas caso a janela apareça. Isso inclui documentação, governança, estrutura societária e contatos preliminares com investidores. A lógica, segundo banqueiros, é comprar opcionalidade, ou seja, preparar uma operação sem assumir desde já o compromisso de executá-la.
Um exemplo dessa movimentação é a Brasil Terrenos, empresa do setor de loteamentos residenciais. A companhia pediu de forma sigilosa o registro como companhia aberta na categoria A da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo fontes. O enquadramento permite a emissão de ações e deixa a empresa apta a avançar com uma eventual oferta.
O pedido não significa que a Brasil Terrenos tenha decidido realizar um IPO, mas a iniciativa busca deixar a companhia preparada para acessar o mercado caso encontre condições favoráveis depois das eleições, segundo pessoas a par do assunto.
Enquanto uma retomada mais ampla dos IPOs no Brasil é vista como uma possibilidade para o próximo ano, duas empresas brasileiras já avançaram na preparação de ofertas nos Estados Unidos, caminho que tende a ser perseguido por determinadas empresas. Elo e Wellhub, antigo Gympass, fizeram uma primeira submissão confidencial de documentos à Securities and Exchange Commission (SEC), segundo fontes.
A submissão confidencial permite que as empresas iniciem o processo de análise dos documentos pelo regulador americano sem tornar pública a preparação da oferta. O procedimento não significa que os IPOs serão necessariamente realizados e permite que as companhias decidam mais adiante, de acordo com as condições de mercado, se avançam com a listagem.
A Elo já havia contratado bancos para trabalhar em uma possível abertura de capital nos Estados Unidos. A companhia pertence a Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal. A Wellhub também vem se preparando para uma eventual listagem no mercado americano.
Procurada, a Elo afirmou que não comenta rumores de mercado. Frisou que “no curso normal de seus negócios e em linha com sua estratégia de crescimento e otimização da sua estrutura de capital, continuamente avalia alternativas estratégicas e oportunidades nos mercados de capitais”. As demais empresas citadas não comentaram.
Fonte: Valor Econômico
