Uma série de fatores locais e externos provocaram um estresse relevante nos mercados domésticos nesta quinta-feira. Classe de ativos mais afetada, os juros futuros exibiram alta forte em todos os vencimentos da estrutura a termo da curva, ao passo em que um avanço firme do dólar fez a moeda americana fechar na casa dos R$ 5 pela primeira vez em quase duas semanas. Já o Ibovespa anotou queda firme e perdeu o patamar de 192 mil pontos.
Fator comum de pressão em todos os mercados de risco, as informações desencontradas sobre os desdobramentos da guerra no Oriente Médio pioraram a percepção de risco dos agentes financeiros, que passaram a ver uma resolução do conflito mais distante. As dificuldades nas tratativas entre EUA e Irã gerou incerteza e ajudou a piorar a percepção de risco do mercado.
Já no Brasil, dúvidas sobre uma eventual redução do PIS/Cofins na gasolina provocou um temor entre os agentes durante a tarde e pode ter ampliado o movimento de aversão a risco.
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Encerrados os negócios, o dólar à vista subiu 0,58%, cotado a R$ 5,0028. Após o fechamento do mercado à vista, o futuro do dólar continuou estressado e encerrou o pregão com salto de 1,34%, marcando R$ 5,039.
O Ibovespa, por sua vez, cedeu 0,78%, aos 191.378 pontos. O principal índice acionário brasileiro foi bastante prejudicado pelo desempenho de ações de bancos, que seguem pressionadas por um movimento de realização de lucros recentes.
“Os bancos estavam apresentando uma perspectiva decente de crescimento de lucro, mas o preço das ações andou muito. É uma realização natural porque os preços ficaram desalinhados em relação ao crescimento dos lucros”, avalia Gilberto Nagai, superintendente de renda variável da SulAmérica Investimentos.
Por fim, no mercado de juros, a taxa do contrato de Depósito Interfinanciero (DI) com vencimento em janeiro de 2028 disparou de 13,425% a 13,71%, e a do DI de janeiro de 2031 anotou forte alta de 13,36% para 13,625%.
Ao comentar sobre a volatilidade mais elevada das taxas domésticas em relação a outros ativos, Gustavo Okuyama, gestor de renda fixa da Porto Asset, avalia que há certo “exagero” no pessimismo do mercado e na precificação da curva de juros futuros como um todo.
Segundo ele, os investidores mostram impaciência quanto à falta de perspectiva de resolução para a guerra no Oriente Médio. Com o petróleo acima de US$ 100 por barril e uma adição de risco relevante via leilões do Tesouro Nacional, a reação do mercado de renda fixa acabou por ser mais forte do que em outros ativos, explica o gestor.
Ontem, o Tesouro voltou a pressionar a curva de DIs com uma emissão de 21 milhões de títulos prefixados, responsável por adicionar um nível de risco (medido pela métrica de DV01) de US$ 929 mil. Ainda que toda a oferta tenha sido absorvida pelo mercado primário, a reação dos juros futuros foi bastante negativa em um contexto em que os investidores já buscavam absorver ofertas robustas de prefixados na semana passada e de NTN-B no leilão de quarta-feira.
“Acho que os leilões do Tesouro têm sido em um tamanho que o mercado não está preparado para absorver”, avalia Okuyama. Para ele, sem demanda nova, o apetite por risco dos investidores ainda está muito frágil por conta do ambiente externo, e emissões tão grandes de papéis como as das últimas semanas acaba amplificando o estresse no mercado de juros.
“Seria interessante o Tesouro tomar cuidado. É óbvio que tem de financiar a dívida, tem motivo para as emissões grandes, mas seria interessante ter cuidado enquanto você opera em um ambiente de percepção de risco tão grande”, aponta o gestor da Porto Asset.
Com o mercado bastante estressado e juros futuros mais elevados em vértices de prazos curtos a intermediários da curva a termo, Okuyama entende que há assimetrias nas taxas prefixadas que podem gerar ganhos à frente. Em particular, o gestor afirma que o mercado precifica um juro real ex-ante (taxa de juros esperada para determinado período, descontada da inflação) acima de 9% para os próximos dois a três anos, algo que considera exagerado mesmo se a inflação até lá não voltar à meta de 3% do Banco Central.
“Acreditamos que, havendo uma normalização da percepção de risco, mesmo sem o fim efetivo da guerra, há um espaço muito grande para consumir o prêmio e fechar a curva de juros (queda das taxas)”, diz Okuyama. Hoje, a projeção da Porto Asset é de que a Selic caia a 13,50% em 2026 e a 12% no decorrer de 2027.
No caso do câmbio, o avanço do dólar ao fim da sessão contrastou com o movimento de boa parte da sessão, quando o real estava entre as moedas de melhor desempenho do dia por conta da internalização da capital pelo Tesouro Nacional, uma semana após a emissão de bonds soberanos em euro.
A dinâmica positiva, no entanto, foi totalmente dissolvida ao longo do dia diante da maior percepção de risco global e também local, o que pode ter levado a ajustes técnicos que intensificaram o movimento de depreciação do câmbio após um período de intensa valorização do real sobre o dólar. Até o pregão de ontem, o dólar comercial acumula queda de 3,4% no mês de abril.
Para um gestor de moedas, o que pode ter acontecido no pregão de hoje é um misto de desmonte de posições e uma frustração com a piora no exterior. “Acho que teve investidor que aproveitou essa venda de dólares pelo Tesouro para zerar posição ou ‘virar a mão’”, diz o profissional fazendo referência à mudança de postura comprada (aposta na valorização) para vendida (aposta na desvalorização) em real.
“Mas também pode ser que alguns investidores tenham apostado mais a favor do real pela manhã, achando que o câmbio iria melhorar mais, mas com as notícias ruins lá fora, da guerra, gerou um ‘short covering’ do dólar [quando investidores que estavam apostando na queda de um ativo, via posição ‘short’ e precisam comprá-lo de volta]”, conclui o gestor.
Fonte: Valor Econômico
