Os spreads das debêntures, que subiram nas últimas semanas diante do aumento da aversão ao risco, devem se acomodar em breve, mas uma retomada “pujante” de emissões no mercado primário pode ainda levar tempo para ocorrer, dependendo do fluxo de recursos para os fundos de crédito, segundo Guilherme Maranhão, presidente do fórum de estruturação de mercado de capitais da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Neste mês, o spread das debêntures indexadas à taxa DI refletiu sinais de estresse no mercado, passando de 1,31% em 13 de março para 1,66% em 20 de abril. Segundo Maranhão, porém, não há sinais de crise ou disrupção no crédito privado. “Se não surgirem novos eventos de crédito, a tendência é que ocorra uma estabilização e, eventualmente, o fechamento [redução] das taxas”, afirmou.
O movimento recente ocorreu após uma realocação de fluxos e também por alguns casos específicos que levaram a mudanças de portfólio. Para o executivo, a correção dos spreads é natural em momentos de maior incerteza macroeconômica. “Quando surgem desafios, como a guerra, o mercado de capitais acaba sentindo”, disse.
Apesar do cenário mais desafiador para o crédito privado, o mercado de capitais como um todo mostrou crescimento no primeiro trimestre, segundo dados apresentados nesta quinta-feira (23) pela Anbima. As ofertas somaram R$ 180,1 bilhões, alta de 15,7% em relação ao mesmo período de 2025, impulsionadas principalmente por emissões de renda variável e instrumentos híbridos.
As emissões de fundos imobiliários (FIIs) mais do que dobraram, passando de R$ 8,1 bilhões para R$ 20 bilhões. Os Fiagros também avançaram, de R$ 1,69 bilhão para R$ 3,34 bilhões. Já as ofertas subsequentes de ações (follow-ons) atingiram R$ 13,2 bilhões — o equivalente a 85% de todo o volume registrado em 2025.
“Houve uma mudança no mix de produtos”, afirmou Maranhão. “Apesar da renda fixa ainda estar forte, ela está dividindo espaço com híbridos e equity em um cenário que deve continuar pelo menos até o fim do primeiro semestre.”
As emissões de debêntures, por outro lado, recuaram cerca de 4% no primeiro trimestre, refletindo a adaptação das companhias ao novo ambiente. As ofertas somaram R$ 99,32 bilhões, ante R$ 103,46 bilhões um ano antes. O número de operações aumentou, de 127 para 153, indicando emissões menores.
Pouco mais de 56% do volume captado em debêntures correspondeu a títulos corporativos, ou seja, sem isenção fiscal. Embora próximo ao observado em 2025 (57%), o patamar é bem inferior ao de 2022, quando chegou a 90%. Segundo Maranhão, as debêntures incentivadas vêm ganhando espaço por oferecerem condições mais atrativas de prazo e custo.
Os dados mostram ainda um avanço de 20% no volume negociado no mercado secundário de debêntures no trimestre, para R$ 236,1 bilhões. O crescimento foi puxado principalmente pelas incentivadas, com alta de 26%. “Mesmo em momentos menos ativos no primário, o secundário tem sido uma importante ponta para negociação”, disse Maranhão.
Para emissores, o cenário atual tem provocado mudanças de estratégia. No caso de pequenas e médias empresas, o ambiente mais restritivo pode levar à migração para instrumentos como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Já grandes companhias têm buscado alternativas no exterior.
“As emissões de bonds seguem fortes e alguns nomes que antes captavam localmente estão olhando o mercado externo como uma possibilidade real”, afirmou.
No segmento de ações, há sinais iniciais de melhora. Cesar Mindof, diretor da Anbima, destacou que o aumento do volume financeiro de investidores estrangeiros nos últimos meses pode contribuir para a reabertura do mercado de ofertas iniciais (IPOs), embora o avanço dependa também da participação dos investidores locais. Em janeiro, o volume negociado por estrangeiros em ações somou R$ 24,5 bilhões. Em fevereiro, foram R$ 15,1 bilhões e, em março, R$ 10,1 bilhões.
Fonte: Valor Econômico
