Embora os juros elevados pressionem toda a economia brasileira, seus efeitos revelam um país dividido entre setores que ainda conseguem driblar esse impacto e outros que já sentem mais intensamente o aperto monetário, segundo a primeira edição do Orange Book do Itaú BBA, um grande estudo setorial antecipado com exclusividade ao Valor.
Do lado positivo, os setores de óleo e gás e mineração avançam, impulsionados por um ciclo robusto de investimentos e pela transição energética, enquanto os serviços têm maior capacidade de repassar custos e preservar suas margens, embora estejam sujeitos à dinâmica da economia local. Do outro lado, a indústria tradicional enfrenta incertezas sobre a reforma tributária, custos elevados, dificuldade de repasse e concorrência externa, principalmente da China, que atinge em cheio o setor automobilístico.
E, com a perspectiva de uma Selic ainda acima de 12% no próximo ano, a distância entre os setores tende a persistir, avalia o superintendente de pesquisa econômica da casa, Fernando Gonçalves. “Os serviços enfrentam pressões de custos, diante da taxa de desemprego muito baixa e dos salários em alta, mas têm maior capacidade de repasse. Já a indústria enfrenta a concorrência internacional e acaba absorvendo uma parcela maior dos custos nas margens. Acho que esse quadro não muda tão cedo”, diz o executivo.
Elaborado a partir das respostas a um questionário aplicado no fim de agosto, o relatório abrange mais de 30 subsetores presentes nas carteiras comerciais do banco, que atende cerca de 20 mil empresas. O levantamento contempla agronegócio, indústria, cadeia automotiva, mercado imobiliário e construção, varejo e serviços, infraestrutura e recursos naturais.
Entre os segmentos ligados ao consumo, os de farmácias, educação, turismo e alimentação fora do lar mantêm uma demanda resiliente, segundo o levantamento. As farmácias se destacam pelo avanço dos medicamentos para emagrecimento, que continua impulsionando vendas, rentabilidade e investimentos em todo o ecossistema do setor. A combinação de demanda forte, menor pressão competitiva e elevada capacidade de repasse cria um dos ambientes mais favoráveis do varejo. Os supermercados seguem com a demanda relativamente saudável, mas mudanças nos hábitos de consumo limitam o crescimento e começam a pressionar as margens.
Um dos principais destaques é o setor de recursos naturais, com mineração e óleo e gás entre as atividades de maior dinamismo. A forte geração de caixa e as perspectivas de expansão mantêm uma visão positiva para esses setores, embora questões regulatórias e ambientais continuem como riscos relevantes.
Na mineração, o Brasil se destaca pelo potencial de exploração de terras raras, minerais essenciais para tecnologias ligadas à transição energética, mais do que pelas perspectivas para o minério de ferro. O setor reúne projetos de expansão de longo prazo, impulsionados pela demanda chinesa ainda robusta por diferentes tipos de minerais, diz Gonçalves.
“A mineração brasileira está aproveitando uma oportunidade ligada à transição energética, que exigirá mais metais para a produção, por exemplo, de carros elétricos. O Brasil tem várias oportunidades e está muito bem posicionado no caso das terras raras, embora a exploração seja difícil”, afirma. “Temos cerca de 25% [das reservas mundiais], enquanto a China possui 50%.”
O setor de óleo e gás, por sua vez, atravessa um dos momentos mais favoráveis dos últimos anos, apoiado por um ciclo robusto de investimentos em exploração e produção, destaca o relatório. Além do desenvolvimento do pré-sal, as atenções se voltam às possibilidades abertas pela Margem Equatorial, diante de uma demanda mundial por petróleo que deve permanecer elevada até 2050.
Em meio à guerra entre Estados Unidos e Irã e à alta do petróleo, Gonçalves destaca uma mudança na abordagem sobre o setor. Se antes as preocupações com a redução do uso de combustíveis fósseis limitavam os investimentos, os riscos geopolíticos passaram a se sobrepor à pauta ambiental. “Eu diria que esse período passou. Agora, o foco está nos riscos geopolíticos e na necessidade de ampliar a produção de petróleo, sem tanta ênfase na questão ambiental”, afirma.
O Itaú BBA projeta que o petróleo fechará este ano em torno de US$ 80 por barril e ficará em US$ 75 no próximo, sem retornar ao patamar anterior à guerra, de cerca de US$ 65. “Portanto, o petróleo permanece em um nível elevado, o que também estimula os investimentos no setor”, afirma.
Por outro lado, a alta da commodity mantém elevadas as preocupações com a inflação. Além do petróleo, seus derivados devem pressionar a economia nos próximos meses. Gonçalves ressalta, porém, que o fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo ajuda a atenuar esse efeito.
“Com a alta do petróleo, recebemos mais dólares no Brasil. Essa maior entrada de recursos tende a valorizar o real, o que reduz parte da pressão inflacionária”, afirma. Em contrapartida, a apreciação do câmbio prejudica os exportadores, como a indústria e o agronegócio.
O aumento dos custos relacionado ao Estreito de Ormuz, por onde passavam cerca de 20% do petróleo global e 30% das exportações mundiais de fertilizantes, também afeta o mercado brasileiro. Os preços dos grãos, no entanto, voltaram a subir em agosto, diante da nova intensificação do conflito entre Rússia e Ucrânia, destaca o executivo.
“Para o agro brasileiro, isso até melhorou um pouco os termos de troca. Então, acredito que, no próximo relatório, apareça um agro ‘despiorando’, digamos assim. Um agro que tinha piorado bastante, mas começa a apresentar alguma melhora com essa mudança de contexto”, diz.
A provável valorização do real reforça um quadro já adverso para a indústria tradicional, um dos segmentos que mais perdem dinamismo diante do impacto contracionista dos juros elevados. Para atravessar esse período, as empresas têm priorizado a preservação de caixa, a automação e os ganhos de produtividade, em vez de projetos relevantes de ampliação da capacidade.
Ao patamar bastante contracionista dos juros – o Itaú projeta uma Selic de 13,75% no fim deste ano e de 12,5% em 2027 – somam-se as incertezas relacionadas aos gastos públicos crescentes e à tributação. Segundo Gonçalves, as empresas têm dificuldade, por exemplo, de estimar quanto pagarão em impostos após a implementação da reforma tributária a partir do próximo ano, que substituirá gradualmente os tributos atuais pelo IVA dual até 2033. A reforma prevê a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência estadual e municipal, e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal. A alíquota final ainda será definida.
A advogada tributarista e sócia do CSMV Advogados, Ana Carolina Monguilod, afirma que as empresas já estão renegociando os contratos com fornecedores e clientes para ver quem vai arcar com esse custo tributário. “No caso dos bens materiais, há uma tendência de que a indústria seja desonerada, mas não se pode adotar isso como verdade absoluta”, diz.
Nesse cenário, predomina um “ambiente de espera” na indústria nacional, em que os investimentos permanecem limitados pela falta de visibilidade sobre a economia, pelas dúvidas em relação à carga de impostos e pela crescente concorrência chinesa.
A maior presença de produtos importados na cadeia automotiva, por exemplo, ajuda a limitar o repasse de custos aos preços dos bens industriais, mas seu impacto sobre a inflação geral ainda é pouco significativo, avalia Gonçalves. O Itaú projeta alta de 3,3% para esses itens neste ano, quase 2 pontos percentuais abaixo da estimativa de 5,1% para o IPCA e dos 5,9% previstos para os serviços.
Como os bens industriais representam cerca de 23% do índice, esse alívio não é suficiente para compensar as pressões inflacionárias provocadas pela demanda aquecida e pela baixa taxa de desemprego, diz o superintendente.
Fonte: Valor Econômico


