Os efeitos severos do El Niño estão se intensificando rapidamente ao redor do globo e já deverão pressionar os preços de alimentos nas próximas leituras de inflação ao consumidor não só no Brasil, mas também em outros países vulneráveis a esse fenômeno climático. Para agravar a situação, o recrudescimento dos conflitos militares no Irã e na Ucrânia, causando interrupção no fornecimento de matérias-primas importantes para a agricultura, como fertilizantes, pode empurrar os custos de alimentação para além do já esperado pelo mercado.
Depois de dois meses de deflação ao redor de 1%, o item “alimentação no domicílio” do IPCA-15 de setembro, que será divulgado nesta sexta-feira, 25, deve registrar leve alta ou, ao menos, ficar estável. O pico da pressão nos preços de hortaliças, grãos, carnes e demais produtos agropecuários é esperado para o quarto trimestre deste ano, quando será sentido com maior força o impacto de eventos climáticos – inundações ou estiagens – causados pelo que os especialistas preveem ser o pior El Niño em mais de um século.
O banco Barclays incorporou, por ora, 0,20 ponto porcentual à sua projeção do IPCA para 2026 em razão da alta de preços de alimentos no quarto trimestre provocada pelo El Niño, mas o economista Roberto Secemski alerta que essa estimativa pode “dobrar rapidamente”, dependendo da severidade dos eventos climáticos e perturbações na oferta de alimentos.
Na semana passada, a Autoridade do Canal do Panamá informou que pretende impor novas restrições ao fluxo de navios, em razão da estiagem provocada pelo El Niño, e estimou uma queda de 5% no tráfego em 2027.
Nos EUA, o preço do trigo atingiu o maior nível em três anos devido à seca que atinge várias regiões do país e também da Europa, reduzindo a safra do grão. Já a cotação do açúcar está próxima do seu pico em 12 meses. Em agosto, o índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) atingiu seu maior nível desde novembro de 2022.
Não por acaso, o Institute of Grocery Distribution, organização britânica ligada à cadeia de distribuição de alimentos, como supermercados, fabricantes de produtos e até restaurantes, passou a projetar uma inflação de alimentos no Reino Unido de quase 4% neste ano e de 6,6% em 2027.
Seja pela estiagem afetando a safra de soja no Centro-Oeste, seja pelas chuvas torrenciais prejudicando as lavouras no sul do Brasil, não é nada desprezível o risco de os analistas estarem subestimando os danos potenciais de um El Niño “Godzilla”.
Fonte: Estadão


