O Itaú Private reduziu de sobrealocada para neutra sua recomendação tática para renda variável global, movimento que zera o sobrepeso em ações dos Estados Unidos tanto na carteira local quanto na internacional. Segundo a área de alocação da casa, a mudança não reflete uma visão negativa sobre o mercado americano, mas uma alteração na distribuição de riscos, com o aumento da probabilidade de um ambiente macroeconômico menos favorável a ativos de risco nas últimas semanas.
No centro da decisão está o risco de estagflação — combinação de inflação persistente e atividade em desaceleração. Para os estrategistas, ao avaliar um choque de petróleo, mais relevante do que o nível do preço é o tempo em que ele permanece elevado. Quando a alta é temporária, os efeitos tendem a se concentrar nos combustíveis; quando se prolonga por meses, empresas repassam custos, trabalhadores negociam salários maiores e as pressões inflacionárias se espalham, comprimindo margens, reduzindo o poder de compra das famílias e limitando o espaço dos bancos centrais para cortar juros.
Até o fim de junho, a casa considerava esse risco limitado. Depois de oscilar em torno de US$ 100 por barril, o Brent havia recuado para perto de US$ 70, sugerindo normalização. A retomada do conflito no Oriente Médio e a redução do fluxo de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, porém, levaram o petróleo de volta à faixa entre US$ 80 e US$ 90. O ponto central, segundo o Itaú, não é assumir uma guerra prolongada como cenário-base, mas reconhecer que, quanto mais tempo a crise durar, maior o risco de efeitos persistentes sobre inflação e atividade.
A decisão apoia-se no processo de monitoramento de regimes macro da casa, que acompanha uma amostra de países para medir quantos aceleram inflação e quantos aceleram atividade. Até recentemente, predominava o quadrante de inflação e atividade em aceleração na maioria dos países. Os indicadores antecedentes da OCDE de junho, no entanto, mostraram um número crescente de economias perdendo impulso — sobretudo na Europa —, enquanto mais da metade dos países seguia com inflação acelerando. Com isso, a leitura migrou para um regime de inflação em alta e atividade em desaceleração.
Os estrategistas ressalvam que isso não significa que a economia global já esteja em estagflação, mas que a probabilidade desse cenário se desenvolver adiante aumentou. Não surpreende, acrescentam, que os primeiros sinais tenham surgido na Europa, dado o crescimento já relativamente fraco e a dependência de energia importada da região. Parte da Ásia, embora mais exposta ao petróleo do Oriente Médio, ainda conta com amortecedores como o ciclo de investimentos em inteligência artificial. A Europa funcionaria, assim, como alerta inicial, não como diagnóstico definitivo.
Historicamente, um ambiente de inflação acelerando e atividade desacelerando tende a ser menos favorável à renda variável: a desaceleração eleva os riscos para receitas e lucros, enquanto a inflação persistente reduz o espaço para cortes de juros. A casa avalia ainda que a recomendação anterior cumpriu seu papel. Na carteira local, desde a elevação do S&P 500 em reais para +1, no fim de abril, o índice acumulou retorno próximo de 7%, ante 3% do CDI. Na carteira internacional, a posição em ações americanas ganhou cerca de 5% no mesmo período, contra 1% das Treasury Bills de um a três meses.
“Não estamos afirmando que a economia global entrará em estagflação, nem que uma guerra prolongada seja o cenário mais provável, mas, como esse risco aumentou, decidimos agir rápido”, afirma a nota. Em alocação tática, esperar que o cenário vire consenso costuma significar agir tarde demais — daí a opção por ajustar a carteira quando a distribuição de riscos muda, e não quando a conclusão já está refletida nos preços.
Fonte: Itaú Private

