Por Nikkei Asia — Tóquio, Berlim e Nova York
15/08/2022 16h50 Atualizado há 11 horas
A economia mundial registrou no período abril-junho o primeiro trimestre de crescimento negativo desde o começo da pandemia de covid-19 há dois anos, com o aumento da inflação no Ocidente e as restrições relacionadas à covid-19 na China afetando a atividade econômica.
A inflação é um ponto sensível para a economia mundial, pois só pode aumentar se estourar uma crise no Estreito de Taiwan ou outro lugar. Os EUA e a Europa agora enfrentam um teste sobre sua capacidade de continuarem liderando os mercados globais, enquanto lutam para se livrar a dependência da energia barata da Rússia e da mão-de-obra chinesa.
A economia mundial sofreu uma contração no segundo trimestre, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), com Yoshimasa Maruyama da SMBC Nikko Securities estimando uma queda de 2,7% no PIB mundial.
EUA, Alemanha, Reino Unido e China tiveram crescimento negativo. Os EUA encontra-se agora em uma recessão, segundo uma definição técnica restrita, depois que seu PIB contraiu pelo segundo trimestre seguido. O Reino Unido entrará em recessão no quarto trimestre e deverá sofrer uma contração até 2023, segundo prevê o Banco da Inglaterra (o BC britânico).
O Nikkei entrevistou dez economista do setor privado e três deles acreditam que os EUA entrarão em recessão neste ano ou no primeiro semestre de 2023. Seis preveem o mesmo para a zona do euro.
O PIB real do Japão cresceu 2,2% no segundo trimestre sobre igual período de 2021, retornando aos níveis pré-pandemia. Mas pouco desse crescimento veio de seu mercado interno e o potencial de crescimento permanece baixo. Uma queda na demanda externa poderá pressionar sua economia.
Essas previsões surgem no momento em que a demanda por dispositivos e serviços digitais, que liderou a recuperação global pós-covid, começa a desacelerar.
“Alguns de nossos maiores clientes estão reduzindo seus níveis de estoques a uma taxa não vista na última década”, disse Patrick Gelsinger, diretor-presidente da Intel, sobre as vendas de computadores no fim de julho. A companhia registrou em abril-junho seu primeiro prejuízo desde o quarto trimestre de 2017.
As remessas mundiais de computadores caíram cerca de 15% no ano, enquanto que as de smartphones caíram 9% no segundo trimestre, segundo a International Data Corp dos EUA. A companhia de pesquisas Gartner rebaixou sua previsão de crescimento para a receita global de semicondutores deste ano de 13,6% para 7,4%.
As incertezas também se acumulam sobre o mercado de commodities. O preço do cobre, que é extremamente sensível a mudanças na economia, estava em torno de US$ 8,1 mil por tonelada nesta segunda-feira (15) — cerca de 30% mais baixo do que logo depois do início da invasão russa da Ucrânia. Os preços dos metais de uso industrial, como alumínio e níquel, em geral estão 10% a 20% abaixo de onde estavam após o início da guerra.
O cenário mundial continua desafiador. Entre abril e junho a economia da China encolheu 10% na comparação anual, e seu setor imobiliário, um dos principais impulsionadores da economia, continua fraco, mesmo depois do fim do lockdown contra a covid-19 em Xangai, que durou um mês. A taxa de desemprego entre os jovens chegou a 19,9% em julho.
A guerra na Ucrânia reduziu os estoques de energia da Europa. Em julho, a estatal russa Gazprom começou a enviar para a Alemanha 80% menos gás do que o que estava planejado. A empresa química BASF teme não conseguir manter suas operações, dependendo do estoque de gás da Alemanha.
O aumento dos custos dos serviços públicos levou as famílias a apertarem os cintos. Em junho, as vendas de varejo na Alemanha caíram 8,8% na comparação anual, em termos reais, a maior queda desde o início da série histórica em 1994.
A inflação na zona do euro bateu recordes pelo terceiro mês seguido em julho, ao chegar a 8,9%. Em 27 de julho, o Banco Central Europeu (BCE) elevou sua principal taxa de juro pela primeira vez em 11 anos, em resposta à alta dos preços de -0,5% para 0%.
O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevou sua taxa básica em 0,75 ponto porcentual em junho e julho, para 2,5% — em linha com a taxa “neutra” de longo prazo do BC, ou seja, que não esfria nem impulsiona a economia. Ainda assim, a inflação no país continua superior a 8%, o que alimenta especulações de que o Fed pode elevar o juro para acima de 3%.
Embora a inflação desenfreada reduza o poder de compra das famílias, aumentar as taxas de juro de forma muito rápida pode ser um golpe para uma economia já debilitada. Hoje os EUA e a Europa enfrentam uma pressão cada vez maior para que acertem o equilíbrio delicado entre conter a disparada histórica dos preços ao consumidor e combater uma desaceleração econômica.
Alguns acreditam que os EUA estão relativamente em boa forma, dado que sua taxa de desemprego caiu para 3,5%, o menor nível em 50 anos. Mas as incertezas permanecem. Muitas empresas de tecnologia americanas começaram a cortar empregos, por exemplo.
Para o presidente do Fed, Jerome Powell, o caminho para o chamado pouso suave “claramente se estreitou” e “pode se estreitar ainda mais”.
Fonte: Valor Econômico
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