Por Edward Yardeni
16/08/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
A maioria dos observadores do Fed, ao que parece, passam mais tempo criticando o Federal Reserve [o banco central americano] do que observando-o. Isso é fácil. Qualquer pessoa pode jogar conforme as regras, e atacar o Fed é atacar um alvo fácil: as autoridades do banco central não podem responder diretamente, em vista de seu papel público.
Recentemente, o presidente do Fed, Jay Powell, foi alfinetado por seus críticos por dizer que a taxa de juros é agora tida como “neutra” em sua entrevista coletiva de 27 de julho, pouco depois de o Comitê Federal de Mercado Aberto ter aprovado por unanimidade a elevação de sua taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, para a faixa de 2,25% a 2,50%. Sua sugestão de que o Fed está na fronteira do território restritivo e portanto, mais próximo de encerrar o aperto, foi bem-recebida por investidores tanto em bônus quanto em ações, mas não por críticos do Fed.
O salto extraordinário tanto nos juros de curto prazo quanto nos de longo prazo nos mercados de renda fixa já realizou boa parte do aperto para o Fed. Os mercados já descontaram uma taxa básica de juros de pico de 3% a 3,25%, nível em que estará em breve
O ex-presidente do Fed de Nova York, William Dudley, disse na quarta-feira que, em vista do grau de incerteza, “eu seria um pouco mais cético” ao dizer que as autoridades monetárias tinham alcançado a condição neutra [no qual as taxas de juros nem estimulam nem deprimem o crescimento].
Dois dias depois, o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, se mostrou mais crítico. Acusou Powell de “otimismo voluntarista” semelhante à ideia enganosa do ano passado de que a inflação seria transitória. Acusou Powell de dizer coisas “que, para ser franco, eram analiticamente indefensáveis”. E acrescentou: “Não existe qualquer maneira concebível de uma taxa de juros de 2,5%, em uma economia em inflação como esta, estar, em algum grau, próxima de neutra”.
Na verdade, há uma maneira concebível de Powell poder ter razão, afinal. Os críticos do Fed estão ignorando que o banco central tem se mostrado mais linha-dura em palavras e atos [mais restritivo, mais inclinado ao aperto monetário] do que o Banco Central Europeu e o Banco do Japão. As taxas oficiais de juros adotadas pelos dois últimos ainda são zero ou próximas de zero.
Em decorrência disso, o valor do dólar disparou em 10% neste ano. Na minha opinião, isso equivale a uma alta de pelo menos 50 pontos-base na taxa de juros básica. Além disso, o Fed acaba de começar seu programa de aperto quantitativo que reverterá suas enormes compras de ativos destinadas a respaldar as bolsas e a economia nos últimos anos.
Durante o período de junho ao fim de agosto, o Fed reduzirá seu balanço ao deixar de rolar os papéis que vencerem, o que reduzirá sua carteira de títulos do Tesouro em US$ 30 bilhões ao mês e sua carteira de dívida mobiliária de órgãos do governo e papéis respaldados por crédito imobiliário em US$ 17,5 bilhões ao mês. Isso representa, portanto, uma queda de US$ 142,5 bilhões em relação a esses três primeiros meses de aperto quantitativo.
A partir de setembro, o vencimento sem rolagem será fixado em US$ 60 bilhões para títulos em poder do Tesouro e em US$ 35 bilhões para os de órgãos e papéis respaldados por crédito imobiliário. Isso totaliza US$ 95 bilhões ao mês, ou US$ 1,14 trilhão até o fim de agosto de 2023. Não foi fixado nenhum valor ou data de término para o aperto quantitativo.
Na minha opinião o aperto quantitativo equivale a pelo menos um aumento de 0,50 ponto na taxa básica de juros também. Além disso, por meio das atas do FOMC de dezembro de 2021, divulgadas em 5 de janeiro desse ano, os investidores ficaram sabendo que “alguns participantes” do comitê se manifestaram a favor de que o órgão saísse totalmente do setor de financiamento. Isso aconteceria trocando-se os papéis respaldados por crédito imobiliário do Fed por títulos do Tesouro dos EUA, além de deixá-los vencer por aperto quantitativo, sem promover sua rolagem.
Isso aumentaria ainda mais a disponibilidade de papéis respaldados por crédito imobiliário para o mercado absorver, o que aumentaria a pressão altista sobre as taxas do crédito imobiliário em relação às dos títulos do Tesouro. Como era de se esperar, a taxa do crédito imobiliário saltou dos 3,3% do início deste ano para sua alta recorde de 6% em 15 de julho, chegando aos 5,46% atuais.
Concluo que o pico da taxa básica de juros americana durante o atual ciclo de aperto monetário será inferior ao que seria sob outras condições, porque a combinação entre o aperto quantitativo e a valorização do dólar equivale a um aumento de pelo menos 1 ponto percentual da taxa básica de juros.
Além disso, o salto extraordinário tanto nas taxas de juros de curto prazo quanto nas de longo prazo nos mercados de renda fixa já realizou boa parte do aperto para o Fed. Na minha opinião, os mercados já descontaram uma taxa básica de juros de pico de 3% a 3,25% – que é o patamar em que estará em breve, supondo-se que o Fed aumentará a taxa em 0,75 ponto percentual novamente no fim de setembro, como se prevê em amplos círculos.
Aliás, em 1 de outubro de 2020, Dudley, quando estava no Fed, justificou uma segunda rodada de afrouxamento quantitativo de US$ 500 bilhões no total de compras de títulos, dizendo que isso equivalia a um corte de 0,50 a 0,75 ponto percentual na taxa de juros.
O Fed, sem dúvida, tem algumas estimativas extraídas de seus modelos produzidos internamente sobre os equivalentes a altas de taxas de juros representados pela valorização do dólar e pelo aperto quantitativo. Se tiver, deveria compartilhar essa informação com o público. (Tradução de Rachel Warszawski)
Edward Yardeni é presidente da Yardeni Researcher e autor de “Fed Watching for Fun & Profit”
Fonte: Valor Econômico


