Por Arthur Cagliari, Matheus Prado e Victor Rezende — De São Paulo
30/04/2024 05h01 Atualizado há uma hora
Foi diante das sucessivas surpresas de alta em dados de inflação e de atividade nos EUA que os mercados migraram de um cenário otimista bastante agressivo na virada do ano, com sete cortes nos juros precificados, para apenas duas reduções na taxa neste ano. Os reflexos dessa reprecificação foram vistos nos ativos domésticos, que mostraram desvalorização acentuada em abril e que, diante de mais uma decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) amanhã, devem se manter atrelados ao exterior. A volatilidade, porém, deve ser maior diante da piora na percepção de risco fiscal local, que se materializou ao longo do mês.
É ampla a expectativa dos agentes do mercado de que o Fed deve manter uma postura mais cautelosa e dura em relação aos juros. Boa parte desse cenário já está nos preços dos ativos locais e globais. No entanto, a possibilidade de os juros americanos caírem somente em dezembro pode gerar algum mau humor adicional com os ativos de risco, caso o presidente do Fed, Jerome Powell, dê alguma indicação nesse sentido.
Desde a decisão de janeiro do Fed, quando começou a ficar mais evidente a reprecificação dos juros americanos, o dólar subiu 3,59% no Brasil. Já os juros de longo prazo dispararam, aumentando mais de 1 ponto percentual. O Ibovespa foi o que mostrou maior resiliência entre os mercados locais, ao cair apenas 0,31% no período.
“Está difícil pensar em corte das taxas nos EUA porque o nível da inflação subjacente está elevado e as expectativas de inflação subiram. Esses pontos são importantes para o Fed e, por isso, não tem como não continuar a falar de maneira ‘hawk’ [postura mais conservadora]”, avalia o estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli. O banco alemão espera que o Fed só reduza os juros em dezembro.
Grosso modo, a postura mais rígida adotada pelo Fed já foi bem telegrafada pelo mercado e está nos preços, na visão de Giacomelli. Ele exemplifica ao dizer que, mesmo com uma alta um pouco acima do esperado do núcleo do deflator de gastos com consumo (PCE) de março, o mercado se mostrou bem comportado. O estrategista, porém, nota que, na medida em que os juros precisam ficar elevados para evitar um repique inflacionário, “a dinâmica fiscal fica mais adversa” e, no momento em que o mundo direciona os holofotes para a questão fiscal, “o Brasil brilha, infelizmente, pelo motivo errado”.
O ex-secretário do Tesouro e sócio da Oriz Partners, Carlos Kawall, concorda e observa que, desde que os dados de inflação nos EUA surpreenderam negativamente, em 11 de abril, os mercados domésticos de bolsa e de câmbio até se mostraram alinhados aos pares, mas o mercado de juros sofreu mais que as taxas de outros países da América Latina.
“A precificação de um a dois cortes de juros nos EUA mexeu bastante com o apetite por risco e os emergentes sofreram. Mas aí veio a segunda preocupação, que é no front fiscal local, com a mudança na meta de resultado primário depois de uma sequência de más notícias. Isso somado jogou o patamar de juro real para níveis bem estressados, acima de 6% ao ano. Não é uma taxa sustentável. E foi no mercado de juros que tivemos uma piora maior”, enfatiza Kawall.
Ontem, as NTN-Bs (títulos púbicos indexados à inflação) de longo prazo, que costumam ser usadas pelo mercado para medir o risco doméstico, encerraram o dia com taxa de 6,12%, de acordo com dados da Anbima, enquanto os juros prefixados de longo prazo seguem acima de 11%. Já o câmbio e o Ibovespa se afastaram um pouco mais dos níveis de maior estresse registrados em abril.
“O movimento nas taxas de juros, especialmente no juro real, foi muito forte. E isso remete à decisão do Copom na próxima semana, onde acreditamos que haverá um movimento para um corte para 0,25 ponto”, afirma Kawall.
A Oriz elevou sua projeção para a Selic no fim do ano de 9% para 9,75% e acredita que, apesar de o IPCA-15 de abril ter vindo benigno, a inflação carregada de serviços subjacentes e a piora nas expectativas inflacionárias de 2025 devem levar o BC a um caminho mais conservador já em maio. “Existe alguma incerteza se a decisão será unânime ou não, mas, em momentos de incerteza como o atual, tomara que seja unânime a decisão pelo corte de 0,25 ponto.”
Em relatório antecipado ao Valor, o BNP Paribas também alterou sua projeção para a Selic e passou a esperar cortes de 0,25 ponto no juro básico a partir de maio, com uma taxa de 10% no fim do ciclo. Antes, a expectativa do banco era de uma Selic a 9,5% neste ano.
A economista para Brasil do BNP Paribas, Laiz Carvalho, aponta que o cenário externo e a mudança da comunicação do BC provocaram essa alteração nas projeções do banco. “Dentro do balanço de riscos do BC, parece que a questão internacional vem pesando um pouco mais. O que acontece fora do Brasil pesa mais agora”, afirma. Ela nota que o BNP Paribas passou a esperar apenas uma redução nos juros pelo Fed, em dezembro, o que indica um cenário de juros mais altos à frente.
Para o estrategista de investimentos para o Brasil da UBS Global Wealth Management, Ronaldo Patah, parece factível uma desaceleração no ritmo de cortes do BC diante da piora externa, do câmbio e das expectativas de inflação. “Mas não seriam, na nossa visão, mais dois cortes e acabou. Poderia ir com 0,25 ponto até o fim do ano, principalmente se o nosso cenário lá fora estiver certo. Nos ativos, o posicionamento deu uma ‘limpada’, está mais leve. Temos contratos em aberto diminuindo, o que indica uma redução de risco”, nota Patah.
Assim, ele diz ver maior risco de valorização nas NTN-Bs e na bolsa, além de ver prêmios nos juros prefixados, especialmente os com vencimento em julho de 2026. “Mas a correlação da renda fixa local com a americana tende a seguir elevada”, ressalta o estrategista.
Ao observar o mercado de juros americano, com um a dois cortes de juros neste ano, o gestor de renda fixa Igor Campos, da Gauss Capital, diz não discordar da precificação atual. “A atividade segue resiliente por lá e a inflação está acima da meta sem dar sinais de que está convergindo. Não parece fazer muito sentido o Fed ter pressa para cortar juros. Para 2025, faz sentido acreditar que a política monetária funciona e, apesar do ‘lag’ estar maior neste ciclo, o banco central americano vai poder cortar os juros.”
Nesse sentido, Rogério Braga, sócio e gestor da Quantitas, acredita que o comportamento dos indicadores da economia americana deve ser mais relevante agora por determinar a postura do banco central americano à frente.
Desde o ano passado, a Quantitas tem montado posições aplicadas em juros reais americanos de 30 anos, que ontem fecharam em 2,36%. “Em algum momento, seja via mais inflação ou via juro nominal um pouco mais baixo, eles vão ter que carregar um juro real mais baixo”, afirma. “Isso justifica nossa alocação.”
Fonte: Valor Econômico