Por Adriana Cotias — De São Paulo
30/04/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Os movimentos abruptos dos juros dos títulos do Tesouro americano em abril levaram a uma revisão das taxas mundo afora e, no Brasil, isso se traduziu em prêmios mais atraentes para a velha e boa renda fixa. O Tesouro IPCA+ voltou a apontar retornos na casa dos 6% acima da inflação, e os prefixados longos esbarram nos 12%, ante os 10,75% ao ano da Selic atual. Enquanto o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) empurra para frente o seu ciclo de afrouxamento monetário, são esses ativos que aparecem nas principais recomendações de especialistas para maio. Na bolsa e outros ativos de risco, um desempenho mais consistente ficou para depois.
Até ontem, o Ibovespa tinha desvalorização de 0,6%, enquanto o índice de “small caps” recuava 5,8%. O dólar subia quase 2%. Todos os índices de renda fixa ficaram abaixo do CDI no mês. No ano, o melhor resultado foi do IMA-B 5, de títulos do Tesouro indexados à inflação com vencimento em até cinco anos, com alta de 2,0%, em comparação a 3,5% da taxa referencial. Até aqui, a melhor aposta sem risco de crédito foram os títulos pós-fixados. Já o índice de debêntures da Anbima de papéis ligados ao CDI acumula ganhos de 4,7%.
Se na virada do ano havia a percepção de que o Fed poderia iniciar seu ciclo de redução de juros em junho, a realidade se impôs, com a economia americana mostrando mais recentemente um desempenho melhor do que se imaginava por conta da força do consumo e do mercado de trabalho, diz Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) para o Brasil do UBS Global Wealth Management.
Abril marcou a recalibragem dessas expectativas, com consequências para os ativos de forma geral. “É um cenário de juros altos por mais tempo e de atividade mais forte. Já está no jogo não ter corte nenhum, ou um ou dois mais para frente”, diz Telo. Na toada do mercado, o executivo diz que, enquanto as taxas dos títulos do Tesouro dos EUA seguirem atrativas, não há como outros ativos deslancharem.
Ele aponta que, com o estresse da semana passada, as taxas dos Treasuries de dez anos bateram os 4,60%, nível de setembro do ano passado, antes de o Fed mudar a sua comunicação para um posicionamento mais pró-afrouxamento em novembro. “Precisa esperar uma sequência de dados para trazer mais confiança para o mercado e para o Fed, uma sequência mais prolongada de inflação indo para o território benigno, para voltar a apostar em corte de juros”, diz.
A reação esperada no Brasil, combinada com uma meta fiscal mais frouxa, é que a Selic caia agora a um passo menor, de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), interrompendo o ritmo de 0,50 ponto percentual de cada encontro. “Começou a aparecer uma discussão que, se o Brasil cortasse mais rápido que o resto do mundo, de 50 em 50, se a falta de sincronia não ia aparecer no câmbio, tirando o diferencial [maior] de juros”, afirma Telo.
Para o especialista, até haveria espaço para cortar mais, “mas o BC vai olhar os juros lá fora, os sinais do Fed, e o ‘timing’ de redução no Brasil pode ser dependente do que acontecer lá fora para não esticar demais a corda”.
Apesar de os números mais recentes de inflação terem vindo em linha com as expectativas do mercado, a Selic em um dígito no Brasil vai demorar mais tempo para se materializar.
Nesse cenário, diversas classes de ativos são favorecidas pelo carregamento de juros, menos para capturar ganhos de capital, diz. É o caso dos títulos prefixados e dos indexados à inflação. O custo de oportunidade mais alto também adia uma recuperação mais sólida para a bolsa. “Uma das visões era que, à medida que os juros caíssem, a tomada de risco no portfólio doméstico poderia aumentar. Mas o juro real alto por mais tempo retarda algumas apostas mais ousadas em ações e coisas do tipo.”
O preço das Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B ou Tesouro IPCA+) apontando taxas acima de 6% e títulos prefixados esbarrando em 11% para vencimento em até três anos são um nível considerado atraente sob a perspectiva histórica, continua o executivo do UBS.
Para Telo, vai ser preciso pelo menos duas ou três semanas de Treasuries com oscilações mais comportadas lá fora, desempenho baseado em dados macroeconômicos, para que se desenhe um cenário mais propício a colocar risco nas carteiras.
O aumento recente das taxas futuras de juros no Brasil abriu uma oportunidade para se ampliar a exposição em títulos públicos prefixados, as Letras do Tesouro Nacional (LTN, ou Tesouro Prefixado), segundo Luís Augusto Barone, sócio e diretor da Galapagos Wealth Management.
“O prêmio subiu demais, muito além do que as notícias sugeririam. Costumo dizer que o investidor deveria ficar apenas 20% do tempo aplicado em prefixados. São poucos os momentos em que o mercado de juros dá prêmio suficiente para isso, e agora é um deles.”
A recomendação é privilegiar os papéis com vencimento em três anos. Ontem, no Tesouro Direto, a LTN com vencimento em 2027 apontava uma taxa de 10,78% ao ano, ante os 10,75% atuais da Selic. Se a taxa recuar pelo menos mais 0,50 ponto, haveria um ganho a capturar sobre o CDI só com a valorização do preço dos papéis. “Tem prêmio, justifica alocar de 5% a 8% da carteira”, afirma Barone.
O executivo considera que os dados de inflação permitem que o Banco Central (BC) mantenha o roteiro de reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom.
Em bolsa, a recomendação tem sido colocar até 5% da carteira, mas o investidor resiste, está “mal acostumado com o ‘spread’ [o prêmio das alternativa de renda fixa], quer mesada grande todo mês, é muito avesso ao risco”, diz Barone.
No varejo de alta renda, a principal posição é em crédito, que ocupa de 60% a 70%, pelo perfil da casa. “O papel isento é um incentivo perverso para o Brasil”, reconhece Barone, acrescentando que a tendência, no longo prazo, é o spread em relação aos títulos públicos cair, com mais competidores investindo no segmento e por causa do aumento da demanda pelos papéis.
As guinadas no discurso de Jerome Powell, presidente do Fed, têm movido a disposição à tomada de risco globalmente, com os Estados Unidos sendo um grande atrator de recursos para a renda fixa ou para a bolsa, diz Alexandre Silverio, sócio-fundador e principal executivo da Tenax Capital. “Mal ou bem, 5,25% de ‘Fed rate’, com a taxa de dois anos perto de 5%, é bastante juros. Isso draga os recursos do mundo todo. Vamos depender do Fed, é isso mesmo.”
Nesse ambiente, a hipótese de uma Selic a 9%, com um câmbio na faixa dos R$ 4,80, caiu por terra. “O cenário mudou. A economia americana mais forte pressupõe um dólar mais forte, isso fez com que o real se estressasse, sem falar nas questões domésticas, com discussões fiscais pela frente”, afirma o gestor. “O Banco Central vai ter que calibrar. O câmbio [dólar/real] mais alto pode bater na inflação.”
Silverio ainda acha que há espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC reduzir a taxa básica de juros pelo menos mais três vezes, em 0,25 ponto porcentual. “Vamos ver onde o câmbio vai parar, é uma variável importante.”
O Copom vai se reunir na semana que vem, já com novos dados de inflação na mesa e com uma reunião do Fed na frente – o Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) se reúne amanhã. Silverio diz que mantém posições aplicadas em vencimentos mais curtos de juros no Brasil, sob a crença de que tem espaço um pouco maior para a Selic cair do que o mercado embute nos preços atuais.
Na bolsa, pelo menos no multimercado macro, a escolha foi não ter exposição.
Fonte: Valor Econômico