Por Matheus Prado e Augusto Decker — De São Paulo
28/02/2024 05h03 Atualizado há 5 horasPresentear matéria
O protagonismo crescente das gigantes de tecnologia nas bolsas de Nova York, diante do alardeado “boom” da inteligência artificial (IA) e, no curto prazo, de balanços melhores que o esperado, fez com que os índices de ações S&P 500 e Nasdaq ganhassem impulso em 2024. Enquanto isso, o Ibovespa – como a maior parte dos ativos de risco globais – manteve-se atrelado às incertezas sobre os cortes de juros nos Estados Unidos. Analistas e gestores discutem agora se a mudança no perfil dos papéis mais relevantes em Wall Street tornará menor a correlação entre os mercados acionários brasileiro, menos exposto a empresas “tech”, e americano.
Em 2005, companhias como Exxon Mobil, General Electric, Walmart e Citigroup apareciam entre as ações de maior peso no S&P 500 e a maior parte das chamadas “Sete Magníficas” – Nvidia, Microsoft, Meta, Alphabet, Tesla, Apple, e Amazon – não existia ou não tinha grande relevância no mercado. No Brasil, entretanto, Vale e Petrobras já apareciam entre as maiores ações do Ibovespa há 20 anos. E continuam nesse patamar até hoje.
Depois de avançar 22,28% em reais e 31,54% em dólares em 2023, o Ibovespa cedia 1,86% em moeda local e 4,16% na divisa americana em 2024 até 27 de fevereiro, apesar da alta de 3,08% em reais e 3% em dólar no segundo mês do ano. Lá fora, o S&P avançou 24,2% em 2023 e subia 6,46% em 2024, enquanto o Nasdaq, ainda mais carregado em tecnologia, teve ganhos de 43,42% no último ano e avançava 6,82% no atual. Mais próximo do Ibovespa nas últimas semanas e com maior representação de ações domésticas americanas, o Russell 2000 registrou ganhos de 16,93% em 2023 e tem alta de 1,43% desde o início de janeiro.
Os juros americanos, grande referencial dos mercados no mundo todo, tiveram ainda mais protagonismo no segundo semestre de 2023. Enquanto agentes calibravam expectativas para o início do processo de flexibilização monetária nos EUA, o Ibovespa chegou a ter correlação próxima aos 80% com o Treasury (título do Tesouro) de 10 anos. E o salto dos ativos de risco no último bimestre de 2023, apelidado de “rali de tudo”, só foi possível porque agentes vislumbraram espaço para que o Federal Reserve (Fed, o BC americano) cortasse as taxas já nos primeiros meses deste ano, o que elevou o apetite por risco de investidores.
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Quando essa expectativa perdeu força, desde o início do ano, frustrada por dados de atividade e inflação acima do consenso na maior economia do mundo, as taxas americanas voltaram a subir e ativos de risco, como o Ibovespa, perderam ímpeto. As grandes exceções foram S&P 500, que hoje conta com forte participação de papéis de tecnologia em sua composição, e Nasdaq, diante de uma temporada de resultados trimestrais acima das projeções e do avanço da tese de inteligência artificial. Com esse perfil, os dois referenciais americanos continuaram a subir.
Marcelo Nantes, gestor de renda variável da ASA Investments, diz que o juro americano continua a permear os negócios e que a discussão vigente sobre corte da taxa básica americana é favorável às bolsas como um todo. No entanto, observa, as “big techs” têm sofrido menos com as incertezas macro porque têm apresentado capacidade de crescimento muito grande e, no momento, surfam a expectativa do mercado de que a tese de inteligência artificial vai se consolidar e avançar para outros setores.
“A bolsa brasileira não está exposta a isso diretamente, o que indica que esse descompasso deve continuar, exceto pelo fator juros”, diz. “Se caminharmos para um cenário em que a tecnologia segue avançando e que as empresas locais não têm tanto para se beneficiar, podemos passar por um período em que a bolsa americana exibe performance melhor. O ‘boom’ da inteligência artificial em si vai ser temporário, mas depois deve se espalhar para outros setores e empresas.”
Por conta da diferença crescente de composição dos índices americanos em relação ao Ibovespa, a correlação entre eles deveria diminuir daqui para frente, afirma Cesar Mikail, gestor de renda variável na Western Asset. O executivo diz que as principais companhias do S&P 500 mudaram muito nos últimos anos, enquanto as do Ibovespa seguem iguais. Ele nota ainda que muitos estrangeiros enxergam o Brasil como um mercado de commodities. Então, se as matérias-primas avançarem por algum motivo, a bolsa local pode até exibir desempenho superior ao dos pares americanos.
“Os resultados positivos das ‘big techs’ durante a temporada de balanços compensaram até mesmo a expectativa de que os juros demorem mais para cair, por isso a possibilidade de um Fed mais cauteloso influenciou menos os índices de Nova York. E o mercado enxerga espaço para ganhos adicionais, com muitas casas tendo revisado para cima as projeções para o S&P 500 ao fim de 2024 e 2025”, afirma.
A correlação entre o Ibovespa e os títulos do Tesouro americano, por sua vez, deve permanecer elevada, aposta Jorge Dib, sócio e gestor da Galapagos Capital. “Isso faz sentido por alguns motivos. Se a economia dos Estados Unidos reacelerar e o Fed postergar cortes de juros, por exemplo, o rendimento da T-note [títulos do Tesouro americano] sobe e teremos mais atração de capital para dólar e renda fixa”, diz.
“O mercado americano está sugando liquidez do mundo por mérito dessas empresas” — Fernando Donnay
Haveria risco de uma quebra nessa relação, segundo Dib, se os juros americanos caíssem em razão de uma desaceleração na economia americana ou de alguma crise, como, por exemplo, com bancos regionais.
Fernando Donnay, sócio e gestor da G5 Partners, defende que a correção que se vê neste início de ano não altera sua exposição à bolsa. “O mercado está discutindo quando o ciclo de afrouxamento monetário deve se iniciar nos EUA, o que gera volatilidade. À frente, a pauta vai ser crescimento dos lucros das empresas”, diz. “Mas também é verdade que a bolsa local é composta principalmente por commodities e bancos, setores da velha economia, enquanto a bolsa americana, que já teve perfil parecido, agora tem nas suas maiores empresas nomes de crescimento, mas com lucratividade já elevada. O mercado americano está sugando liquidez do mundo por mérito dessas empresas. É uma tendência que temos que monitorar.”
Conforme os dados mais recentes divulgados pela B3, no acumulado do ano até o último dia 23, os investidores não residentes retiraram da bolsa R$ 18,96 bilhões, ao se levar em conta apenas o mercado secundário (ações em circulação) à vista. Somente em fevereiro, os saques foram de R$ 11,06 bilhões. O saldo de aportes da categoria em 2023 foi positivo em R$ 44,85 bilhões.
Durante “roadshow” doméstico, analistas do J.P. Morgan conversaram com 32 investidores, e, segundo a equipe do banco, os executivos não veem razão para pensar que as “big techs” irão parar de subir, o que também é visto como um obstáculo significativo para que os recursos saiam dos EUA, que continuam sugando liquidez do mundo. “As teses de diversificação e enfraquecimento do dólar quando as taxas nos EUA caírem são vistas, na melhor das hipóteses, como teóricas, pelo menos por agora.”
Enquanto os recursos dedicados a emergentes possivelmente estão voltando para a China neste início de ano, depois dos fortes recuos do mercado asiático, as “big techs” também podem estar drenando recursos de outros ativos, diz Welliam Wang, gestor de renda variável da AZ Quest. “Os resultados [dessas empresas] estão bons e o ‘momentum’ deve continuar forte pelo menos no curto, médio prazo”, diz. “Também continuamos otimistas com a tese de queda dos juros, principalmente por conta do nível atual das taxas, mas os cortes foram postergados e ainda não há visibilidade sobre quando começarão.”
Para Dib, da Galapagos, o cenário mais provável é que o ciclo de relaxamento monetário americano comece em junho, à medida que inflação do país se aproximar da meta do Fed, de 2%. “E quando o juro começar a cair, os mercados de risco, bolsa local inclusive, tendem a se beneficiar. O risco maior é uma desaceleração mais forte da China, que prejudicaria o Ibovespa em razão do peso forte das commodities no índice.”
Ainda que o nível de atividade mais forte nos EUA e a trajetória de queda mais suave da inflação tenham diminuído o incentivo do Fed em antecipar o início do corte de juros, Nantes, da ASA, nota que o mercado já começa a precificar esse atraso. “Na medida em que essa visão se consolida, investidores tendem a antecipar o movimento do Fed mais uma vez, provocando um novo rali ainda no primeiro semestre.”
Fonte: Valor Econômico
