Por Yaroslav Trofimov — Dow Jones Newswires
16/01/2023 05h00 Atualizado há 4 horas
A guerra na Ucrânia, pelo que está claro agora, não acabará logo. A aposta em Moscou – e o temor de Kiev- é que o apoio do Ocidente perca o vigor antes que a Rússia sofra uma derrota decisiva.
Até agora, as expectativas da Rússia de um racha dos aliados da Ucrânia não se concretizaram. A Europa desfez sua dependência da energia russa com sofrimento limitado e sem sofrer nenhum cataclisma político. Como todas as grandes economias ocidentais cresceram em 2022, apesar dos episódios de desestabilização, o consenso sobre o fornecimento de armas a Kiev só se fortaleceu.
Mas, com a Rússia anunciando uma mobilização de centenas de milhares de soldados em outubro e migrando para uma economia de guerra, o tempo pode estar do lado de Moscou. Até agora, nem os EUA nem a Europa fizeram os ajustes, principalmente na produção militar, necessários para sustentar a Ucrânia numa guerra que pode se arrastar por vários anos. Nem estão imunes a problemas decorrentes de novos choques energéticos.
“A ideia de que uma grande guerra convencional na Europa poderá durar tanto quanto uma das duas guerras mundiais não é coisa para a qual já estejamos preparados”, diz Bruno Tertrais, vice-diretor da Fundação de Pesquisas Estratégicas, de Paris. “E, apesar da resiliência mostrada pelas sociedades europeias, ela não pode ser dada como líquida e certa.”
O mesmo vale para os EUA. Embora o Congresso americano, em fim de mandato, tenha autorizado em dezembro US$ 44,9 bilhões em financiamento para respaldar a Ucrânia, talvez o suficiente para os próximos nove meses, a Câmara de maioria republicana pode dificultar novos pacotes de ajuda a Kiev.
Se o tempo age a favor de Moscou, é do interesse do Ocidente elevar drasticamente o apoio à Ucrânia nos próximos meses, abandonando o excesso de cautela na entrega de armas, diz o marechal da reserva Edward Stringer, ex-diretor de operações da Conselho de Defesa britânico. “Ao continuar a ajudar a conta-gotas, fornecendo apenas o suficiente para que a Ucrânia não perca, o que o Ocidente está fazendo é apenas prolongar a guerra”, diz Stringer. “Quer percebamos ou não, a Rússia lançou um desafio ao Ocidente.
A indústria de defesa da Ucrânia, antes significativa, foi dizimada pelos ataques aéreos russos nos 11 meses de guerra, e o país depende agora quase totalmente das armas e munições do Ocidente. Embora a economia russa, cujo tamanho se aproxima da da Espanha, seja insignificante se comparada com o poder somado dos EUA e de seus aliados da Otan, as compras e a produção de armas ocidentais – ao contrário das da Rússia – continuam, em grande medida, a seguir o cronograma dos tempos de paz.
“O Ocidente ofusca a Rússia em potencial econômico e em capacidade industrial bélica, e isso deveria nos fazer crer que, em uma guerra prolongada, a Ucrânia, com apoio ocidental, teria uma probabilidade muito maior de ganhar o conflito”, diz Michael Kofman, diretor de estudos sobre a Rússia do Centro de Análises Navais, que assessora as forças americanas. “Mas bom resultado exige muita vontade, e guerras são, fundamentalmente, uma disputa de vontades.”
Antes da mobilização de outubro, a Rússia sofreu de escassez de mão de obra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que contava com vantagem esmagadora de poder de fogo de artilharia. Agora que mobilizou 300 mil reservistas, Moscou resolveu seu problema de efetivo no mesmo momento em que começa a ficar com baixo estoque de munição e equipamentos.
No longo prazo, a aritmética da mão de obra favorece Moscou, pois a Rússia tem 3,5 vezes a população da Ucrânia. Mesmo se a Rússia perder dois soldados para cada militar ucraniano morto, melhora, ainda assim, sua força relativa. Até agora, dizem autoridades ocidentais, o número de vítimas fatais russas em campo de batalha – de várias dezenas de milhares – é comparável ao da Ucrânia.
Já calcular munição e armamento é mais complicado. A julgar pela taxa de crescimento do poder de fogo, Kiev poderá reduzir os estoques americanos e europeuss a níveis críticos em algum momento do terceiro ou quarto trimestres. Até lá, a Rússia, com seu foco centrado na guerra, poderá conseguir expandir sua produção de munição para acompanhar o ritmo.
“Não devemos subestimar a Rússia. Ela está mobilizando mais soldados, trabalhando arduamente para adquirir mais equipamento e mostrou disposição de sofrer, mas dar continuidade à guerra”, diz o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg. “Não há indícios de que Vladimir Putin tenha alterado o objetivo como um todo de sua guerra violenta contra a Ucrânia. Portanto, precisamos estar preparados para um longo conflito.”
“Qualquer percepção do processo de paz é incorreta, porque Putin está fazendo tudo ao seu alcance para deixar claro que essa é uma questão existencial para ele”, diz Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Otan e que dirige o Conselho de Chicago sobre Assuntos Globais. “Ele está preparando seu povo para uma guerra longa, e acho que nunca vai abrir mão de suas ambições imperiais de controlar a Ucrânia.”
Fonte: Valor Econômico
